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Poemas neste tema

Velhice e Envelhecimento

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Companheiro

No 80o aniversário de Pedro Nava


Esse mocinho Nava, tão levado,
que nos cafés-sentados deixa a marca
de desenhista baudelairiano
entre cruel e místico, requinte
à Whistler, à Beardsley, a ele mesmo,
em apagadiço mármore de instante,
e na minha aloucada companhia
noturna, entre magnólias de silêncio,
emudece douradas campainhas
de casas transplantadas de Ouro Preto,
onde castos jardins cercam as virgens
de religiosas essências nupciais,
ou vai trocando as coisas de lugar,
a placa do causídico eminente
levando para a porta do dentista,
e a do médico ilustre despejando
no barrento fluir do ribeirão
Arrudas! e mais feitos, não me lembra
(mentira: oh se me lembro e quanto
ao tilintar avaro de memórias
como se moedas fossem, por que não?);
esse Pedro abancado à triste banca
de emprego burocrático vigiado
por severo doutor nada poético:
fugindo à mornidão do expediente
para a aula de anatomia — grande aluno —
ou para o Rio de Janeiro a ver — rever —
imagens que ninguém como ele viu
de velhas ruas, morros e pessoas,
descobrindo, em estético relance,
o nariz grego, a máscara romana,
os retratos de Proust ou Van Leyden
implantados em medíocres semblantes;
esse Pedro que é dois, que é três, é cinco,
aplicado estudante, insano jovem,
esse Pedro quem é? Quem o descobre
completo
lúdico
sério
imprevisível?
senão ele mesmo um dia vai mostrar-se
no desdobrado amor da medicina,
Pedro enrustido no primeiro Pedro
que belo-horizontinamente se aprestava
para o serviço do sofrimento humano
pela manhã — e à noite se entregava
aos anárquicos, doidos exercícios
de nossa boemia antimineira
e tão mineira, sim! em seu desgarre
de sufocadas, montanhosas forças
em luta desigual com o inamovível
senso grave dos queijos e da ordem?
Esse Pedro,
penso às vezes que fui seu lado esquerdo
em tão saudosos, hoje, magros tempos
de busca, de revolta, de amarugem,
de desvairado humor sem rumo certo,
a desviá-lo do seu bom caminho…
Alguns meses mais velho, e má presença
de subversivo incompetente e aéreo,
sem rabo de diabo mas diabólico,
era eu, talvez, seu anjo de desguarda?
Ele se ri de minha culpa, assume-a,
e seguimos os dois, jogando pedras
(oitent’anos vividos, revividos,
transvividos no açúcar da saudade),
e seguimos e estacamos e fugimos
incendiando (ou quase) residências,
no estrelado silêncio de magnólias
ou de damas-da-noite (tanto faz),
pavor de velhos, beijo de meninas,
assunto de censória indignação,
arremetendo
contra o inimigo burguês que nos despreza…
Esse Nava, querido companheiro.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desfile

O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Como remédio entornado
em camisa de doente;
como dedo na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.
Já não tenho cicatriz.
Vejo-me noutra cidade.
Sem mar nem derivativo,
o corpo era bem pequeno
para tanta insubmissão.
E tento fazer poesia,
queimar casas, me esbaldar,
nada resolve: mas tudo
se resolveu em dez anos
(memórias do smoking preto).
O tempo fluindo: passos
de borracha no tapete,
lamber de língua de cão
na face: o tempo fluindo.
Tão frágil me sinto agora.
A montanha do colégio.
Colunas de ar fugiam
das bocas, na cerração.
Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido.
O mundo me chega em cartas.
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância.
Mais longe, mais baixo, vejo
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu.
No quarto em forma de túnel
a luz veio sub-reptícia.
Passo a mão na minha barba.
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados.
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.
Tudo foi prêmio do tempo
e no tempo se converte.
Pressinto que ele ainda flui.
Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.
Como planta que se alonga
enquanto estamos dormindo.
Vinte anos ou pouco mais,
tudo estará terminado.
O tempo fluiu sem dor.
O rosto no travesseiro,
fecho os olhos, para ensaio.
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Ruy Belo

Ruy Belo

No tumulo de sardanapalo

Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar

Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia

Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar  

Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a  palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
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