Poemas neste tema
Vento e Ar
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 593
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Prenúncio
1
Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.
2
Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.
O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.
2
Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.
O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 106
Francisca Júlia
Anfitrite
Louco, às doudas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.
A seus uivos, o mar chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.
Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e vem, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,
Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas.
Publicado no livro Esfinges: versos (1903).
In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.
A seus uivos, o mar chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.
Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e vem, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,
Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas.
Publicado no livro Esfinges: versos (1903).
In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
3 630
Carlos Nejar
Canto Oitavo: Libertação do Cavaleiro
IV
O vento com seu cavalo
rompe a epiderme do susto,
retesando os duros músculos
avança com o sol ao meio.
Rasga o relincho no valo
e vai seguindo o roteiro,
maduro de campos claros
e horizontes escuros.
A tarde segue o cavalo
e o casco do sol percute,
bigorna de rubro talo
com seu ferreiro de rumos.
Bate as esporas no malho,
as crinas e as asas duplas,
acesas e resolutas,
desdobram sombra e cavalo.
Qual o vento e o cavaleiro?
Rio de oliveiras se fende,
penetrando o desamparo
das andorinhas no pêlo.
Qual o vento e o cavaleiro?
Batem esporas na tarde
e a tarde maçã suspensa,
fica tremendo na haste.
Sobe a garupa da ponte,
o vento e seu cavaleiro,
rangem esporas no ventre
e o sol irrompe no centro.
Publicado no livro O campeador e o vento (1966).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.182-183. (Poiesis)
NOTA: Poema composto de 5 parte
O vento com seu cavalo
rompe a epiderme do susto,
retesando os duros músculos
avança com o sol ao meio.
Rasga o relincho no valo
e vai seguindo o roteiro,
maduro de campos claros
e horizontes escuros.
A tarde segue o cavalo
e o casco do sol percute,
bigorna de rubro talo
com seu ferreiro de rumos.
Bate as esporas no malho,
as crinas e as asas duplas,
acesas e resolutas,
desdobram sombra e cavalo.
Qual o vento e o cavaleiro?
Rio de oliveiras se fende,
penetrando o desamparo
das andorinhas no pêlo.
Qual o vento e o cavaleiro?
Batem esporas na tarde
e a tarde maçã suspensa,
fica tremendo na haste.
Sobe a garupa da ponte,
o vento e seu cavaleiro,
rangem esporas no ventre
e o sol irrompe no centro.
Publicado no livro O campeador e o vento (1966).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.182-183. (Poiesis)
NOTA: Poema composto de 5 parte
1 187
Amadeu Amaral
Nuvens
Sobre a lâmina azul de um céu todo bonança
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
— vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...
Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.
Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...
Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido — embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.147. (Obras de Amadeu Amaral
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
— vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...
Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.
Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...
Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido — embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.147. (Obras de Amadeu Amaral
1 361
Ribeiro Couto
Ilha Distante
Ilha de melancolia,
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;
Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;
Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;
Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;
Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —
Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;
Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;
Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;
Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;
Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —
Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 348
Pedro Nava
Ventania
Pro Mário
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
1 886
Mafalda Veiga
Por todo este mundo
Saiu à rua, indiferente
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
1 097
Mafalda Veiga
Lenda de Uma Cigana
A lenda de uma cigana
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
1 258
Mafalda Veiga
Restolho
geme o restolho triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
2 344
Edgar Allan Poe
The Lake
In youth's spring, it was my lot
To haunt of the wide earth a spot
The which I could not love the less;
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound.
And the tall pines that tower'd around.
But when the night had thrown her pall
Upon that spot — as upon all,
And the wind would pass me by
In its stilly melody,
My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake.
Yet that terror was not fright —
But a tremulous delight,
And a feeling undefin'd,
Springing from a darken'd mind.
Death was in that poison'd wave
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his dark imagining;
Whose wild'ring thought could even make
An Eden of that dim lake.
1827
To haunt of the wide earth a spot
The which I could not love the less;
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound.
And the tall pines that tower'd around.
But when the night had thrown her pall
Upon that spot — as upon all,
And the wind would pass me by
In its stilly melody,
My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake.
Yet that terror was not fright —
But a tremulous delight,
And a feeling undefin'd,
Springing from a darken'd mind.
Death was in that poison'd wave
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his dark imagining;
Whose wild'ring thought could even make
An Eden of that dim lake.
1827
1 631
Eloise Petter
Oníricas metamorfoses
De longe um anjo parece voar
Nestes negros olhos que se parecem com as trevas
Estranhas feras na fronte singela
Fazem do anjo, demônio
E do homem, poeta
Um casulo envolve recôndita alma
Um sorriso esconde pútrido desejo
Escondido em seu corpo
Meu corpo eu vejo
Mas apenas um beijo o fará despertar
Em vão persigo nevoento olhar
Como se nele meu sono ousasse acordar
Como se nele meu pranto ousasse secar
A procura do encanto
Em seu sonho, sonhar
Ah!! Um vento infante no vendaval perdura
Assim como a minha paz anseia sua loucura
Nestes negros olhos que a chama incendeia
Revolve o meu peito
Que em ti clareia
Oníricas metamorfoses na noite funesta
Nestes negros olhos que se parecem com as trevas
Estranhas feras na fronte singela
Fazem do anjo, demônio
E do homem, poeta
Um casulo envolve recôndita alma
Um sorriso esconde pútrido desejo
Escondido em seu corpo
Meu corpo eu vejo
Mas apenas um beijo o fará despertar
Em vão persigo nevoento olhar
Como se nele meu sono ousasse acordar
Como se nele meu pranto ousasse secar
A procura do encanto
Em seu sonho, sonhar
Ah!! Um vento infante no vendaval perdura
Assim como a minha paz anseia sua loucura
Nestes negros olhos que a chama incendeia
Revolve o meu peito
Que em ti clareia
Oníricas metamorfoses na noite funesta
1 010
Paulo Leminski
Haicai
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão
cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença
me caiu ainda quente
na palma da mão
cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença
3 214
Felipe Larson
HASSYN
Passo a passo, perco o passo
Pra ver se passo, em algum lugar
Sopra o vento, bem mais lento
Sinto o vento, a me beijar
Uma estrela, qual estrela?
É tão serena, a me guiar
Cai a noite, tão pequena
Nem tão ingênua, a me conquistar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
Um pensamento, a qualquer momento
Pode até dar medo, mas sem me entregar
E o que vejo, é teu desejo
E sua falta, me faz calar
Passa o tempo, não tem jeito
Todo esse tempo, me fez mudar
Amanhã quando o sol voltar a brilhar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
E essa força estranha
Que me comanda
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
Pra ver se passo, em algum lugar
Sopra o vento, bem mais lento
Sinto o vento, a me beijar
Uma estrela, qual estrela?
É tão serena, a me guiar
Cai a noite, tão pequena
Nem tão ingênua, a me conquistar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
Um pensamento, a qualquer momento
Pode até dar medo, mas sem me entregar
E o que vejo, é teu desejo
E sua falta, me faz calar
Passa o tempo, não tem jeito
Todo esse tempo, me fez mudar
Amanhã quando o sol voltar a brilhar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
E essa força estranha
Que me comanda
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
628
Elvio Romero
Tormenta
A noite tem sido longa.
Como desde cem anos
de chuva,
de uma respiração enfurecida
proveniente de um fundo de vertigem noturna,
de um cântaro vermelho
ofegando na terra,
o vento há desatado sua tempestade violenta
sobre o véu anelante da ilusão
efêmera, sobre as fatigadas necessidades
e tu e eu, na colina
mais alta,
no canto de nossos dois silêncios,
abraçados ao tempo do amor, desvelando-nos.
Deixa que o vento morda sobre o vento.
Eu te fecharei os olhos.
Como desde cem anos
de chuva,
de uma respiração enfurecida
proveniente de um fundo de vertigem noturna,
de um cântaro vermelho
ofegando na terra,
o vento há desatado sua tempestade violenta
sobre o véu anelante da ilusão
efêmera, sobre as fatigadas necessidades
e tu e eu, na colina
mais alta,
no canto de nossos dois silêncios,
abraçados ao tempo do amor, desvelando-nos.
Deixa que o vento morda sobre o vento.
Eu te fecharei os olhos.
1 160
Zoraida Díaz
Desejos
Onde estás alma minha
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?
Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.
Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.
Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?
Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.
Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.
Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!
440
Angela Santos
Coisas Simples
Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
1 145
Angela Santos
Presença
Danam-se
os ventos da alma
e tudo se agita e confunde
no seio do turbilhão
Ainda que eu não saiba
Vou
levada na tempestade
o que me leva não se diz
ou sabe
vou porque sim, sem perguntas
levada vou.
Grandes as presenças
da vida e da morte
abraçamos uma
rechaçamos a outra
sem nada saber…
Que outro olhar
ou dimensão do ver
pode acercar a infinita presença,
vida e morte
morte e vida
tão extremas tão unidas...
Pudesse a vida
ser só celebração, cores, aromas
terra, húmus , simples sentir
e a morte
essa dimensão maior
que aceitássemos não saber.
os ventos da alma
e tudo se agita e confunde
no seio do turbilhão
Ainda que eu não saiba
Vou
levada na tempestade
o que me leva não se diz
ou sabe
vou porque sim, sem perguntas
levada vou.
Grandes as presenças
da vida e da morte
abraçamos uma
rechaçamos a outra
sem nada saber…
Que outro olhar
ou dimensão do ver
pode acercar a infinita presença,
vida e morte
morte e vida
tão extremas tão unidas...
Pudesse a vida
ser só celebração, cores, aromas
terra, húmus , simples sentir
e a morte
essa dimensão maior
que aceitássemos não saber.
989
Angela Santos
Os Cinco Sentidos
Olho a nuvem
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
673
Alfonsina Storni
A Carícia Perdida
Sai-me dos
dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
1 211
Angela Santos
Farol do Tempo
Traço
em movimento
um navio a horizonte
onde se prende o olhar
e lembro
Portos sem amarras
praias longínquas
de um mar que eu mesma
invento
E uma centelha
vinda não sei de onde
emerge fugaz de uma tempestade,
qual farol do tempo
a lembrar viagens que não começaram.
Fixo os olhos no poente
que lá de longe me chama
e sinto que lá só chega
quem o oceano rompe
e abre as velas ao vento
para o alcançar.
em movimento
um navio a horizonte
onde se prende o olhar
e lembro
Portos sem amarras
praias longínquas
de um mar que eu mesma
invento
E uma centelha
vinda não sei de onde
emerge fugaz de uma tempestade,
qual farol do tempo
a lembrar viagens que não começaram.
Fixo os olhos no poente
que lá de longe me chama
e sinto que lá só chega
quem o oceano rompe
e abre as velas ao vento
para o alcançar.
1 071
Regina Souza Vieira
Frio Intempestivo
Está ventando,
ventando muito
Sinto incomodar-me a fria brisa
Sinto esfriarem-se minhas mãos
Enquanto as folhas arrastando-se
são levadas, poeiras nesses vãos..
Sinto forte frio percorrer-me
Como um vento agudo, perspicaz
Que me quer correr todas as veias
Nunca o senti assim ávido, jamais!
Frio estranho que sequer parece
Vir de fora, cobrir o horizonte
Parecendo me nevar a fronte
Estremecer-me de tanto medo.
Frio estranho, irresistível
A mim me tornando sensível
Desfazendo minha armadura
Essa película meio nublada
Que encobre minha fraqueza
E me torna um tanto escura.
É frio forte, é vento gélido
quebra todo o forte de mim mesma
Meu ânimo se desfaz em lesma
Já nem sei se isto é simples frio
Se isto é apenas forte desânimo
Sei que se me abate, se me quebra
de mim a força, de mim o ânimo.
ventando muito
Sinto incomodar-me a fria brisa
Sinto esfriarem-se minhas mãos
Enquanto as folhas arrastando-se
são levadas, poeiras nesses vãos..
Sinto forte frio percorrer-me
Como um vento agudo, perspicaz
Que me quer correr todas as veias
Nunca o senti assim ávido, jamais!
Frio estranho que sequer parece
Vir de fora, cobrir o horizonte
Parecendo me nevar a fronte
Estremecer-me de tanto medo.
Frio estranho, irresistível
A mim me tornando sensível
Desfazendo minha armadura
Essa película meio nublada
Que encobre minha fraqueza
E me torna um tanto escura.
É frio forte, é vento gélido
quebra todo o forte de mim mesma
Meu ânimo se desfaz em lesma
Já nem sei se isto é simples frio
Se isto é apenas forte desânimo
Sei que se me abate, se me quebra
de mim a força, de mim o ânimo.
824
Jorge Viegas
Amando a Lua
O sonho é uma verdade nua
Pintado de rosa
Como a imensidão da prosa.
O sentido encontra as razões
Mais sensíveis e profundas
No emaranhado das emoções
Canções povoam a auréola das estrelas
Sedutoras fontes incandescentes
Içam-se as velas transparentes
Navega-se pelos reflexos inspiradores
Captando aromas da brisa sensual
E descobre-se a linha harmoniosa do poente...
Amando na lua
O vento liberta os gestos
Os sentidos tornam-se modestos
O azul brilha nas palavras
E o coração fala pelo olhar.
Pintado de rosa
Como a imensidão da prosa.
O sentido encontra as razões
Mais sensíveis e profundas
No emaranhado das emoções
Canções povoam a auréola das estrelas
Sedutoras fontes incandescentes
Içam-se as velas transparentes
Navega-se pelos reflexos inspiradores
Captando aromas da brisa sensual
E descobre-se a linha harmoniosa do poente...
Amando na lua
O vento liberta os gestos
Os sentidos tornam-se modestos
O azul brilha nas palavras
E o coração fala pelo olhar.
1 415
Reinaldo Ferreira
O essencial é ter o vento
O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
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