Poemas neste tema
Verdade
Sá Júnior
Cinema Transcendental
Estou à janela
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.
O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.
Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.
Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.
Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...
do fim de ano
pela enésima vez.
Meu coração dispara,
pensa coisas felizes.
O mundo passa
de mãos dadas com a justiça e a verdade.
Os homens irmanaram-se
num ritual de procura e discernimento.
Em toda parte,
distribuem-se abraços
a todos sem a menor distinção.
Sorrio com prazer
às pessoas com quem encontro,
e trocamos sinceras palavras
de ânimo e de graça.
Nossos anseios se encontram
e nossos gestos se completam,
num natural compromisso
de jamais querer tapear alguém.
Presencio a enésima
passagem de ano.
E mais uma vez
assisto
a esse filme tão distante...
762
Renato Russo
O Reggae
Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei
Então gritaram: - Cresça e apareça !
Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da tv
E aprendi a roubar prá vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas que eu tanto amava
Mas, e daí, mesmo assim
Vou ver se tiro o melhor prá mim
Me ajuda se eu quiser
Me faz o que eu pedir
Não faz o que eu fizer
Mas não me deixe aqui
Ninguém me perguntou se eu estava pronto
E eu fiquei completamente tonto
Procurando descobrir a verdade
No meio das mentiras da cidade
Tentava ver o que existia de errado
Quantas crianças Deus já tinha matado
Beberam o meu sangue e não me deixam viver
Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher
Vêm falar de liberdade prá depois me prender
Pedem identidade prá depois me bater
Tiram todas as minhas armas
Como posso me defender ?
Vocês venceram esta batalha
Quanto à guerra,
Vamos ver
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei
Então gritaram: - Cresça e apareça !
Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da tv
E aprendi a roubar prá vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas que eu tanto amava
Mas, e daí, mesmo assim
Vou ver se tiro o melhor prá mim
Me ajuda se eu quiser
Me faz o que eu pedir
Não faz o que eu fizer
Mas não me deixe aqui
Ninguém me perguntou se eu estava pronto
E eu fiquei completamente tonto
Procurando descobrir a verdade
No meio das mentiras da cidade
Tentava ver o que existia de errado
Quantas crianças Deus já tinha matado
Beberam o meu sangue e não me deixam viver
Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher
Vêm falar de liberdade prá depois me prender
Pedem identidade prá depois me bater
Tiram todas as minhas armas
Como posso me defender ?
Vocês venceram esta batalha
Quanto à guerra,
Vamos ver
1 105
Renato Russo
A Dança
Não sei o que é direito
Só vejo preconceito
E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Prá acompanhar a moda
Tratando as meninas
Como se fossem lixo
Ou então uma espécie rara
Só a você pertence
Ou então uma espécie rara
Que é só um objeto
Prá usar e jogar fora
Depois de ter prazer
Você é tão moderno
Se acha tão moderno
Mas é igual a seus pais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você com suas drogas
E as suas teorias
E a sua rebeldia
E a sua solidão
Vive com seus excessos
Mas não tem mais dinheiro
Prá comprar outra fuga
Sair de casa então
Então é outra festa
É outra sexta-feira
Que se dane o futuro
Você tem a vida inteira
Você é tão esperto
Se está tão certo
Mas você nunca dançou
Com ódio de verdade
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
Só vejo preconceito
E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Prá acompanhar a moda
Tratando as meninas
Como se fossem lixo
Ou então uma espécie rara
Só a você pertence
Ou então uma espécie rara
Que é só um objeto
Prá usar e jogar fora
Depois de ter prazer
Você é tão moderno
Se acha tão moderno
Mas é igual a seus pais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você com suas drogas
E as suas teorias
E a sua rebeldia
E a sua solidão
Vive com seus excessos
Mas não tem mais dinheiro
Prá comprar outra fuga
Sair de casa então
Então é outra festa
É outra sexta-feira
Que se dane o futuro
Você tem a vida inteira
Você é tão esperto
Se está tão certo
Mas você nunca dançou
Com ódio de verdade
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz
Você é tão esperto
Você está tão certo
Que você nunca vai errar
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado
Se um dia você dançar
1 463
Ruy Pereira e Alvim
Cidade Nua
Convulsa verdade
flutua no ar frio
da cidade avulsa.
A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...
A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.
É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.
flutua no ar frio
da cidade avulsa.
A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...
A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.
É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.
857
Renato Russo
Eu sei
Sexo verbal não faz meu estilo
Palavras são erros e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também
Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também
Eu sei
Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas
A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
Lembranças e estórias
Somos pássaro novo longe do ninho
Eu sei
Palavras são erros e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também
Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também
Eu sei
Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas
A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
Lembranças e estórias
Somos pássaro novo longe do ninho
Eu sei
1 432
Renato Russo
Quase sem querer
Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente:
Estou tão tranquilo
E tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar prá todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada prá ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Prá você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir prá si mesmo
É sempre a pior mentira
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras que nunca são ditas ?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente:
Estou tão tranquilo
E tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar prá todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada prá ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Prá você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir prá si mesmo
É sempre a pior mentira
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras que nunca são ditas ?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você
1 861
Renato Russo
Metal contra as nuvens
I
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Reconheço o meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Mas minha terra é a terra que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua, tem estrelas e sempre terá
II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão
III
É a verdade que assombra
O descaso que condena
A estupidez que o destrói
Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Essa é a terra-de-ninguém
E sei que devo resistir -
Eu quero a espada em minhas mãos
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar -
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
IV
- Tudo passa, tudo passará
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas para contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe para trás -
Apenas começamos
O mundo começa agora -
Apenas começamos
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Reconheço o meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Mas minha terra é a terra que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua, tem estrelas e sempre terá
II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão
III
É a verdade que assombra
O descaso que condena
A estupidez que o destrói
Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Essa é a terra-de-ninguém
E sei que devo resistir -
Eu quero a espada em minhas mãos
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar -
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
IV
- Tudo passa, tudo passará
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas para contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe para trás -
Apenas começamos
O mundo começa agora -
Apenas começamos
1 544
Paulo Augusto Rodrigues
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
907
Silvino Pirauá de Lima
História de Crispim e Raimundo
O caso que vou contar
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.
O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.
O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.
Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.
Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.
Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.
Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.
Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.
Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:
Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.
Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.
A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.
Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.
Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.
Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.
Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?
- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...
Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.
Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:
- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.
Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.
O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.
O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.
O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.
A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu
Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.
Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.
Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.
Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.
Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.
Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.
Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.
Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.
O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.
Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.
Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.
Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.
Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.
E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.
O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.
O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.
Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.
Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.
Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.
Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.
Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.
Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:
Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.
Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.
A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.
Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.
Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.
Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.
Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?
- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...
Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.
Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:
- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.
Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.
O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.
O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.
O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.
A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu
Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.
Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.
Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.
Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.
Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.
Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.
Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.
Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.
O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.
Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.
Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.
Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.
Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.
E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
1 405
Oliveira Roma
Ciência Humana
Sentindo quanto ardor um visionário sente,
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
798
Oliveira Neto
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
1 032
Joaquim Namorado
Poeta
A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
2 009
Nauro Machado
Apenas uma Coisa
Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
1 594
Marcelo Perrone
Sonhos
Que são sonhos?Só sonhamos dormindo?E a nossa imaginação?Será que é de lá que vêm os sonhos?
E se um sonho parece torna-se realidade?Ainda é sonho?Ou não é realidade?Não fora sonho, talvez?
Será?
Será que estou sonhando?Ou talvez esteja realizando?Meu sonho é realidade?
Minha realidade é sonho.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
E se um sonho parece torna-se realidade?Ainda é sonho?Ou não é realidade?Não fora sonho, talvez?
Será?
Será que estou sonhando?Ou talvez esteja realizando?Meu sonho é realidade?
Minha realidade é sonho.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
914
Marcelo Reis
O Homem que Canta
O Homem que Canta
Ouça o homem que canta
Ele está chorando coisas
Tremula a atmosfera
Faz vibrar teu coração
Aquele homem que susurra aos ventos
Presta atenção nele
Que é a verdade que salta de sua boca
Os primeiros sorrisos e as últimas lágrimas
Se tu te arrepiares com a brisa
Não te assustes, é o homem e sua canção
Não te finjas de surdo, ouça a música
Depois de compreender porque o vento sopra
E porque os homens, apesar de tudo, cantam
Serás capaz de te eximir toda a dor
Ouça o homem que canta
Ele está chorando coisas
Tremula a atmosfera
Faz vibrar teu coração
Aquele homem que susurra aos ventos
Presta atenção nele
Que é a verdade que salta de sua boca
Os primeiros sorrisos e as últimas lágrimas
Se tu te arrepiares com a brisa
Não te assustes, é o homem e sua canção
Não te finjas de surdo, ouça a música
Depois de compreender porque o vento sopra
E porque os homens, apesar de tudo, cantam
Serás capaz de te eximir toda a dor
1 155
Maurício Batarce
Gotas de Sentimeto
Quantos ventos soprarão agora?
De onde surgirão meus passos?
Nunca busquei olhares para mim
E agora as imagens me ardem.
Me lembro do que fui
E me revivo a todo momento que sou.
A vida me surge como cruel verdade
E o chão que surge me some.
Escrevo de acordo com a música
E busco o fim através da fuga.
Resumo o que vejo e sinto
Em simples palavras de acalanto...
O tempo passa e não percebo,
Minha perspicácia parece falir...
Escrevo sem pensar,
Através de sonhos que vão e voltam
A me acordar.
Não me reconheço em meus passos
E procuro novos contatos.
Descubro a verdade do que sou
E em meus olhos encontro revelações
De quem um dia me amou...
De onde surgirão meus passos?
Nunca busquei olhares para mim
E agora as imagens me ardem.
Me lembro do que fui
E me revivo a todo momento que sou.
A vida me surge como cruel verdade
E o chão que surge me some.
Escrevo de acordo com a música
E busco o fim através da fuga.
Resumo o que vejo e sinto
Em simples palavras de acalanto...
O tempo passa e não percebo,
Minha perspicácia parece falir...
Escrevo sem pensar,
Através de sonhos que vão e voltam
A me acordar.
Não me reconheço em meus passos
E procuro novos contatos.
Descubro a verdade do que sou
E em meus olhos encontro revelações
De quem um dia me amou...
1 013
Marco Antônio de Souza
A Cara Limpa do Cara-Pintada
Após dezenove de agosto,
nada de pelos no rosto;
vou tirar a barba fora,
como quem manda embora
malfadada companheira
que passou a vida inteira,
a esconder - que maldade-
a sempre cara verdade...
nada de pelos no rosto;
vou tirar a barba fora,
como quem manda embora
malfadada companheira
que passou a vida inteira,
a esconder - que maldade-
a sempre cara verdade...
1 010
Marcelo Almeida de Oliveira
Anti- homem
Mentira, mentira, mentira,
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
1 031
Marcelo Almeida de Oliveira
Física insana
Verdade ou mentira,
dualidade onda-partícula;
cruel realidade,
relatividade da felicidade.
Se Erwin soubesse
que quando anoitece
seu gato zumbi anda
pra debaixo de minha cama...
Incertezas quânticas
em minhalma sub-atômica.
dualidade onda-partícula;
cruel realidade,
relatividade da felicidade.
Se Erwin soubesse
que quando anoitece
seu gato zumbi anda
pra debaixo de minha cama...
Incertezas quânticas
em minhalma sub-atômica.
838
Marcelo Almeida de Oliveira
Chega! De novo
Desculpa, amor, mas hoje não vou te amar,
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
609
Mário Hélio
12 - II(Farol)
antes hera um pedaço de sombra num traço de sol
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.
que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor
herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.
neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa
um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.
que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor
herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.
neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa
um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.
702
Mário Hélio
4 - IV (Marte e Vênus)
doce amiga, apenas sou o aedo
que ignorando que as coisas eram incertas
e que a própria incerteza é mãe da vida,
te procurou como procura um asceta
sua verdade boiando além das mãos pendidas.
te possuí como se tem a um segredo
e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo.
que ignorando que as coisas eram incertas
e que a própria incerteza é mãe da vida,
te procurou como procura um asceta
sua verdade boiando além das mãos pendidas.
te possuí como se tem a um segredo
e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo.
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