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Poemas neste tema

Vida

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Vislumbres

1
A pedra está ausente
Mas fixa
Meu eterno pensamento.

2
O jacarandá floresce
Roxas
O vento leva --- as flores.

3
Abro os olhos
Na noite
É lua cheia --- sonho.

4
No canto a aranha
Tece
Uma cadeia de silêncio.

5
A palavra lançada
No silêncio
O eco responde: Nada.

6
Ainda existe o sol
Outono
O frio espreita na colina.

7
No centro da mata
Pássaros voam
Nuvens por entre as folhas.

8
Flor --- contínua ternura
Dói
Ela murchar no vaso.

9
O pássaro de asas molhadas
Na noite
Espera a alvorada.

10
Chove miúdo e calmo
No distante
A noite floresce.

11
Rápido na estrada
O lagarto
Torna verde o caminho.

12
Deitadas sob a terra
Raízes
Sonham folhas e flores.

13
É lua cheia
Em teu corpo
Meu pássaro pousa para sempre.

14
O vôo do pássaro
Silencia
A dor da despedida.

15
Ponha asas
Em teu corpo
A montanha é no longe.

16
Faz sol sobre o campo
A chuva
Molhou meus cabelos.

17
Viro mais uma folha
Do livro
E o segredo continua.

18
Falei contigo tantas palavras
E mais
Palavras. Que restou?

19
Caminha --- tua sina
Andar
Até curvar e silenciar.

20
Não vôo mais
É tarde
O repouso é necessário.

21
Sem dor --- é a despedida
Adeus
Flores roxas e amarelas.

22
Este é o abraço
Final
O único que importa.

23
Jogo a pedra pro alto
Silêncio
Círculos se formam no lago.

24
Veloz a garça
Se esgarça
Escuro seu tempo.

25
Solto o lápis da mão
No chão
Palavras caladas.

26
Brancos cabelos
Outono
Antiga primavera na cabeça.

27
O selo não veda
O livro
Dentro -- o Infinito.

28
Há arco - íris
No céu
O resto é silêncio.

29
O touro pára
A capa
É vermelha e a espada.

30
Não penso nada
Na brisa
Um aroma de passado.

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Álvaro Feijó

Álvaro Feijó

Varina

Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.

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Jean de La Fontaine

Jean de La Fontaine

Invocação à volúpia

Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.

Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...

 
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