Lista de Poemas

Uma Nação Capoeira

Fui rebatizado
Longe da pia batismal,
Os pés descalços
Misturados à cor do barro,
Contrastada pelo branco cordão
Que trago na cintura atado,
Para não me perder,
Acho...
Para não voar,
Talvez...
Ao som mágico desse berimbau.

Chamaram-me
"Doutor" capoeira,
Mais um "galego" negro,
Pele alva salva do preconceito.
Mas e teus olhos claros?
Indagariam uns desavisados.
São meros reflexos
Do céu de mama África,
Mas são também do mar
Que nos separa e ata,
Numa grande roda
Brasileira, Portuguesa, Africana, Asiática...
Humana roda.

E o que cantavam nesse batizado?
Que igualdade é irmã de liberdade!
E a isso também dançavam,
A toda cultura que nos difere,
Mas não separa
E nem segrega,
Une.
Capoeira que se espalha e ata.
Mas foi "Tiú" o padre,
Ou foi "Preto" o frade desse batizado?
Foram apenas o berimbau e o atabaque!
"Berimbau...Berimbau...
Berimba...Berimba...Berimbau..."

Fomos excluídos da "Senzala".
Bobagem! Sempre fomos excluídos.
Não carecemos de mais senzalas,
Àquela nunca foi a nossa casa.
Somos agora os sem "Senzala",
Tomaram de volta o nome emprestado,
Mas nada mais levaram,
Deixaram obstinada capoeira
Onde se rir do preconceito,
Que às vezes também é preto.
E se ainda não sei jogar direito,
Descobri que todos nascemos capoeira.

Nesta nossa roda,
Agora sem "Senzala",
Joga-se desde o abraço da chegada,
Dança-se na divisão do que nos falta,
E por aquilo que dividimos lutamos,
Girando uma roda solidária,
Para quando formos embora
Deixarmos noutro abraço,
Que nos separa e ata,
Reafirmado o tratado da luta
De Uma Nação Capoeira,
Maior que qualquer "Senzala".

1 138

Prenhe

Estou
"prenhe"... de silêncio,
Abortei em mim o canto
Sempre a tempo...
Sempre há tempo,
De em si... ser seco ou fecundo.
Mais que seco...
Mas que fecundo?

Abjurei de meu inculto canto,
De minhalma puído dicionário
Escrito, nesta medíocre existência,
Não pude comprar um Aurélio...
Não carrego a complexificação do léxico,
Trago comigo somente o sal do campo,
Não provei o néctar da língua dos poetas.

Não reproduzirei outros cantos,
Cantarei agora na prenhez do silêncio
Para que não escutem, outros olhos,
Meus escritos cantos,
E nem mesmo o farei em javanês,
Existem outros, eu sei, já lêem.

Amputarei a mão que conduzia a pena,
Deitarei fora esta língua dágua que canta,
Mas não guardes pena desta alma,
Pois tu serás a próxima...
Que de tão próxima,
Aprenderas a me ouvir nos olhos.

1 245

Crisálida

Existe
no TODO um circulo,
que sempre deverá ser percorrido
sem saber se está indo ou vindo

E se fui à lagarta ou a cigarra
agora criando uma crisálida
ou na terra deitando larvas
também nunca o saberás
pois eu mesmo, guardo apenas a hora
de criar casca ou de larga-la
já que o ar que em mim andava
e a luz que vislumbrava
sei, agora, me faltam

E que venha agora o novo
que em mim oculto morava
fazendo que deste peito desabotoado
seja o antigo dele expurgado,
mas mesmo já sendo um nascido
e parecendo o outro findo,
sempre restará algo
devendo ser de todo reaproveitado

Mas não me cerquem de cuidados
pois não quero outra crisálida
nem que me seja ela uma caixa
cubram-me logo de lama e água
numa terra bem rasa
para assim mais cedo talvez renasça
crescendo sobre mim apoiado,
nem que seja puro mato
noutro circulo começado

Mais que ali também nasçam
espécies de flores silvestres
na primeira Primavera
devendo haver entre elas
espontâneas margaridas
que são as flores preferidas
daquela que amei em vida,
e não será esta alma finda
mesmo que apenas na lembrança
do teu amor por margaridas.

1 097

Espicaçada

Árvore
Espicaçada
Verte Seiva
Branca, Alva.

Saudade Espicaçada
Verte Água
Luminosa, Clara.

Traição Espicaçada
Verte Raiva
Densa, Descontrolada.

Paixão Espicaçada
Verte Amor
Calor na Madrugada

Amizade Espicaçada
Verte Tudo
Amor, saudade e Lágrima

1 147

Novo Amor

Troquei
de amor
E pareceu-me vulgar no começo
Mais não era.É que Chorava...
Por um amor que partiu o meu peito.

Troquei de amor
Mais terá sido vingança, despeito?
Não. Apenas me deram um ombro
Para recostar o meu peito

Troquei de amor
Mais tão rápido? Nem afogastes teu peito!
E a despeito do amor?
Aquele ombro era muito perto do peito.

Troquei de amor
Mais foi só para mata-lo no peito?
Não. Um amor que nasceu para um ombro
Que de tão perto arrebatou o meu peito.

1 218

Indo Embora

Estou
indo embora,
Mas nada levarei comigo,
Para que não sinta n’outra falta,
Lembranças que serão falsas
E logo esquecerás que já estive contigo.

Não vai haver despedida,
Nem verei lágrimas por terra caídas,
Não escutarei mentiras neste Adeus
E também não lamentarei.,
Em silêncio partirei.

Já vou indo...
Embora não saiba para onde ir
E não conheça esses trilhos,
Mas sei que meu destino mora no caminho
E irei ao seu encontro como andarilho.

Quero que saibas que mesmo perdido,
Já estarei no caminho
Quando me vires partindo,
E que ando rumo a um inverso destino,
De estar ao teu lado e me sentir tão sozinho.

E para não guardar nenhuma mágoa
Não sentirei saudades falsas,
E em cada passo dessa nova caminhada
Apagarei o rastro da anterior passada,
Para assim perder o caminho de volta.

884

Sem Assunto

-Onde
e quando morreu a palavra?
-Não sei se é morta, mas saberei,
Portanto, onde e quando, não responderei,
Pelo menos por agora.

-Terá sido a seu tempo apresentada,
Ou marcaram-lhe hora exata?
-Creio que não o fizeram,
Nem para ida nem para volta.

-Não tendo certo ou incerto curso,
Terá sido apenas língua de água?
-Se foi apenas o fio de riacho,
Poderá lá na frente ser torrente e brava.

-Pode ser esteja por ora represada.
E apenas consigo mesmo fala,
Para quando estiver a alma abarrotada,
Explodir repentinamente em enxurrada.

821

Pranto de Natal

Somos aqueles
meninos,
Abrolhados do cio da terra
Insano, promiscuo e profano,
Que comem luz e bebem chuva.
A lama que ocultais da consciência humana.

Não ansiamos por estrela guia,
Nossa realidade é fria e de continua agonia,
Nos recobrimos com a brisa da madrugada
E conhecemos toda ode da galáxia,
Estampada bem no teto de nossa casa.

Nesta noite, haveremos de cear nas latas
Sobre as calçadas, nas sarjetas,
Daquilo que sobejou às vossas mesas,
Para que seja nossa fome sempre farta,
Naquilo que nunca vos causou falta.

Vislumbraremos vossas árvores enfeitadas,
Os vossos mais refinados trajes
E sentireis asco de nossos andrajos,
Mas não poderemos vos tocar
Pois moramos do lado de fora de vossas casas.

Neste Natal... nos vendo deitados nas calçadas,
Havereis de lembrar que possuís alma
E nos trarão agrados e nos farão afagos,
Mas amanhã não será mais Natal...
E voltareis a nos ocultar as faces.

Noutras noites de tenebroso porvir,
Enquanto os vossos brancos linhos
Ainda estiverem provando de caros vinhos,
À noite tecerá seus negros fios,
Para que bebam as calçadas de nosso sangue,
E muitos de nós não poderemos chorar outro Natal.

1 008

Letargia

Já que vais partir...
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.

Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.

Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.

894

Aquele Olhar

Clamei
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou,
Parecendo demais para meus anseios.
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
ilhado pela visão dessa luminosa manhã,
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia um desfecho igual
E parecias cantar em silêncio,
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste para dar nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar,
Pressenti que seria preciso perder-me
Mergulhando naquelas vagas,
Mesmo sabendo que ora elas alçam,
Ora destroiem o coração de um homem.

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Identificação e contexto básico

Silvaney Paes é um poeta brasileiro, cuja obra se destaca no cenário da poesia contemporânea.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Silvaney Paes não são detalhadas em fontes públicas.

Percurso literário

O percurso literário de Silvaney Paes é marcado pela publicação de livros de poesia que têm recebido atenção crítica e do público. Sua escrita explora temas sociais e existenciais com profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Silvaney Paes geralmente abordam a condição humana, a identidade, a realidade social e a busca por significado. Seu estilo é conhecido por ser expressivo, direto e por vezes impactante, com uma linguagem que busca a força imagética e a musicalidade. A voz poética de Silvaney Paes tende a ser reflexiva e engajada, convidando à introspeção e à crítica social. A poesia explora as complexidades da vida e a relação do indivuga com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Silvaney Paes reflete as preocupações do Brasil contemporâneo, abordando questões sociais e existenciais que emergem do contexto cultural e histórico atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Silvaney Paes não são amplamente divulgados em fontes públicas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Silvaney Paes vem da qualidade e relevância de sua produção poética, que tem conquistado leitores e críticos pela sua expressividade e profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a obra de Silvaney Paes se insere numa linha de poesia que valoriza a conexão com a realidade e a exploração da identidade, contribuindo para a diversidade da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Silvaney Paes pode ser interpretada como um espelho das inquietações humanas e sociais, convidando à reflexão sobre a existência, a identidade e o lugar do indivíduo na sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Não há informações amplamente disponíveis sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida ou obra de Silvaney Paes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Silvaney Paes é um autor contemporâneo, e sua memória literária está em construção através de sua obra.