Lista de Poemas

Moribundo diante de um Padre

Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.

E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.

Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.

Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
693

Inútil Amor

Ó Onda
de Luz !...
Porque não mais me carregas,
Se sopra tanto o vento estas minhas velas
Para que retorne a meu Cais?
Assoma... grita tanto em mim um poeta,
Em insano e dolente apego!

- Mas de que me serve este amor inútil,
Se é turvo e tortuoso rio
Que nasce e morre em mim mesmo?
Sei que quem me espera é o mar...
E que o oceano por detrás de teus olhos
Não conseguem ver-me
E careço chorar letras...

Verto estes tristes cantos
Por uma rosa e seu espinho
Desfolhando-me em quimeras
Ou em interiores guerras..
Delírio e inspiração de longínqua terra,
E se é por ti que assoma este poeta,
Assomas e cantas por ti mesma,
branca rosa portuguesa.

Mas que te guarde bem... Espinho
Pois não trazes os que te guardem.
Só minha saudade é o que te cerca,
Pois ela é também espera
Na poesia contida em branca rosa...
musa flor de longínqua terra.

735

Náufrago

Trago desde
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.

Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.

Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.

E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou  gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.

Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.

1 018

Apenas Cartas

Sumir
de ti
Já não mais posso.
E se mesmo assim de mim sumir
Já não suporto.

Desse amar que nunca vi
Já não mais posso.
De um sofrer que já senti
Não mais suporto

De não tocar o que não vi
Será que posso
Amar um sonho?
Não posso
Já não suporto.

Se não sumir de mim
Verás que posso.
Amar, amar somente posso
Pois sofrer sem ti
Já não suporto.

704

Matéria

dos Sonhos

Material
estranho esse do amor e o do Sonho
Vivo, sinto um amor desse mesmo material.
Estranho!

Etéreo esse amor que já é um sonho
Deus, amor e sonho, tudo etéreo.
Estranho.

E nem viram os olhos meu estranho sonho
De um amar que sonho, etéreo, eterno.
Estranho!

E Deus, os Anjos, Meu Amor, Meu Sonho.
Etéreo? Não. Apenas ...
Estranhos!

1 024

Enchente

Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço

Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço

Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.

Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.

Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.

Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.

Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.

Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.

Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.

1 347

Um Velho Fado

Uma velha
casa, em uma estrada,
Toda de terra, empoeirada.
Era tão bela, aquela casa!
Feita de pedra, tão bem trajada,
Teto de palha.
Que meu caminho, só me levava,
A dita casa.

E bem mais perto, da velha casa.
Na mesma estrada, já tão pisada,
Toda sem graça, desengonçada.
Escuto algo, ou será nada?
Naquela estrada,
Um velho fado!
Na dita casa.

Já na soleira, da velha casa.
Olhando agora, pra sua alma,
Toda singela, despenteada,
Cantava um fado,
Uma velha.
Chapéu de palha,
Dona da casa.

Senti saudades de outra casa,
De outra era, em outra estrada,
Toda molhada, feita de água.
De minha mãe,
Que lá cantava,
Um velho fado, que me ninava.
Na minha casa.

1 072

Vira-Latas

Somos de
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.

Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.

E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.

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Amor de Amigo

Amigo,
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...

Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.

Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
1 195

O Lago

Estranho
Lago!
Num lugar ermo,
Seco, triste, árido,
Feito de algo reluzente e claro
Onde a lua...
Na melancolia do sol à tarde,
Na solidão da noite,
Ou no desespero da madrugada
Chora uma dor,
Naquele lago.
Mais que dele não se bebe,
Apenas se consente o pranto,
Ao vê-lo como espelho de almas.
E que parecendo límpido,
É salobro, insalubre e amargo,
De certos gostos e desgostos,
Que de mim, de ti, de tantos...
Emprestamos nossas dores
Para àquele lago.
Onde não se pode mergulhar,
Por não haver fundo nem volta,
Só os profundos e obscuros sentimentos,
De todos os dilapidados,
Restos de almas quase mortas,
Que pulsam e agonizam,
Como a dor de meu peito,
Sendo então feito àquele lago.
De fragmentos de vidas e lágrimas.

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Identificação e contexto básico

Silvaney Paes é um poeta brasileiro, cuja obra se destaca no cenário da poesia contemporânea.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Silvaney Paes não são detalhadas em fontes públicas.

Percurso literário

O percurso literário de Silvaney Paes é marcado pela publicação de livros de poesia que têm recebido atenção crítica e do público. Sua escrita explora temas sociais e existenciais com profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Silvaney Paes geralmente abordam a condição humana, a identidade, a realidade social e a busca por significado. Seu estilo é conhecido por ser expressivo, direto e por vezes impactante, com uma linguagem que busca a força imagética e a musicalidade. A voz poética de Silvaney Paes tende a ser reflexiva e engajada, convidando à introspeção e à crítica social. A poesia explora as complexidades da vida e a relação do indivuga com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Silvaney Paes reflete as preocupações do Brasil contemporâneo, abordando questões sociais e existenciais que emergem do contexto cultural e histórico atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Silvaney Paes não são amplamente divulgados em fontes públicas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Silvaney Paes vem da qualidade e relevância de sua produção poética, que tem conquistado leitores e críticos pela sua expressividade e profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a obra de Silvaney Paes se insere numa linha de poesia que valoriza a conexão com a realidade e a exploração da identidade, contribuindo para a diversidade da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Silvaney Paes pode ser interpretada como um espelho das inquietações humanas e sociais, convidando à reflexão sobre a existência, a identidade e o lugar do indivíduo na sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Não há informações amplamente disponíveis sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida ou obra de Silvaney Paes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Silvaney Paes é um autor contemporâneo, e sua memória literária está em construção através de sua obra.