Inútil Amor
Ó Onda
de Luz !...
Porque não mais me carregas,
Se sopra tanto o vento estas minhas velas
Para que retorne a meu Cais?
Assoma... grita tanto em mim um poeta,
Em insano e dolente apego!
- Mas de que me serve este amor inútil,
Se é turvo e tortuoso rio
Que nasce e morre em mim mesmo?
Sei que quem me espera é o mar...
E que o oceano por detrás de teus olhos
Não conseguem ver-me
E careço chorar letras...
Verto estes tristes cantos
Por uma rosa e seu espinho
Desfolhando-me em quimeras
Ou em interiores guerras..
Delírio e inspiração de longínqua terra,
E se é por ti que assoma este poeta,
Assomas e cantas por ti mesma,
branca rosa portuguesa.
Mas que te guarde bem... Espinho
Pois não trazes os que te guardem.
Só minha saudade é o que te cerca,
Pois ela é também espera
Na poesia contida em branca rosa...
musa flor de longínqua terra.
Vira-Latas
Somos de
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
Enchente
Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
Segredo
Tenho que lhe contar um segredo,
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
Aquele Olhar
Clamei
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou
Parecendo demais para meus anseios
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
E perdi o meu recurso derradeiro,
Ilhado pela visão dessa luminosa manhã
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia desfecho igual
E parecias cantar em silencio
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste parta dar o nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar
Pressenti que me perderia
Mergulhando nas suas vagas
Mesmo sabendo que elas ora alçam
Ora destroiem o coração de um homem
Crucificado
Abre a
cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Agora tenho que ser crucificado
Devo morrer e ser ressuscitado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
De alma na mão fui coroado
Tive o peito perfurado
Nessa dor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Fui três vezes nesse amor negado
Saudade, dor e desprezo cravados.
Sangrando fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Em teu amor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Nesse abraço posso ser ressuscitado
Contido
Algo ofendeu a vida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
O Tempo
Silêncio
que grita e espera
Por uma voz que assoma e apega
De fazer poemas na espera
Desse amor que a mim se apega
Não saber desse amar a espera
E de uma dor que só agora se apega
Que pela alma se espalha, dilacera.
De só sofrer na espera
E quando à noite, finda a espera.
Há em mim um torpor que se agrega
Por um amor que assoma e se apega
Chegou o amor que de ha muito se espera
E de toda uma vida de espera
De uma dor que se agrega
De um torpor que dilacera
Nada mais importa.
Chegas-te.
Fim da Dor e da Espera
Sol
De desconforto
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
Pássaros Presos
Chorarei
por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por ti meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por ti meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorarei por ti meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por ti meninas,
Mais só chorarei.
Diante de ti sou Fraca,
Sociedade Parca,
Sou vossa Mãe Pátria.