Manoel de Barros

Manoel de Barros

1916–2014 · viveu 97 anos BR BR

Manoel de Barros foi um poeta brasileiro cujos versos exploraram a infância, a natureza e o cotidiano com uma linguagem singular e inventiva. Sua obra é marcada por uma profunda sensibilidade para com o mundo rural e os elementos simples da vida, que ele elevava a um patamar lírico e filosófico. A capacidade de reinventar a palavra e de criar imagens surpreendentes a partir do banal o tornou um dos nomes mais queridos e originais da poesia brasileira contemporânea.

n. 1916-12-19, Cuiabá · m. 2014-11-13, Campo Grande

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Bernardo é quase uma árvore

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)
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Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Manoel de Barros **Data e local de nascimento:** 19 de dezembro de 1916, Cuiabá, Mato Grosso **Data e local de morte:** 13 de novembro de 2014, Campo Grande, Mato Grosso do Sul **Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem:** Nasceu em uma família de fazendeiros, no coração do Pantanal. Sua origem rural e a profunda conexão com a terra moldaram sua visão de mundo e, consequentemente, sua obra poética. **Nacionalidade e língua(s) de escrita:** Brasileiro, escreveu em português. **Contexto histórico em que viveu:** Viveu a maior parte do século XX e início do século XXI, um período de intensas transformações sociais, políticas e culturais no Brasil e no mundo, incluindo a Era Vargas, a ditadura militar e a redemocratização. No entanto, sua obra manteve um foco temático e estético particular, distante dos grandes eventos históricos.

Infância e formação

**Origem familiar e ambiente social:** Cresceu em uma fazenda, o que lhe proporcionou um contato íntimo e privilegiado com a natureza, os animais e a vida simples do campo. Essa experiência marcou profundamente sua formação e visão poética. **Educação formal e autodidatismo:** Frequentou o colégio em Recife e fez parte do curso de Direito no Rio de Janeiro. Contudo, sua formação literária foi em grande parte autodidata, nutrida pela leitura e pela vivência. **Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política):** Embora sua poesia tenha um caráter muito pessoal e original, as paisagens do Pantanal, a cultura popular, as narrativas orais e a observação atenta do mundo natural foram suas influências primordiais. A leitura de autores como Henri Michaux e Saint-John Perse também é citada como importante. **Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu:** Sua obra dialoga com o Modernismo brasileiro, especialmente em sua busca por uma linguagem nova e a valorização do cotidiano e do regional. No entanto, ele transcende rótulos, criando um estilo inconfundível. **Eventos marcantes na juventude:** A infância e juventude passadas no Pantanal, a experiência com a vida rural e a posterior mudança para o Rio de Janeiro para estudar.

Percurso literário

**Início da escrita (quando e como começou):** Começou a escrever poesia ainda jovem, motivado pela paisagem e pelas experiências de sua infância e juventude no Pantanal. Sua publicação inicial ocorreu em jornais e revistas literárias. **Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo):** Sua obra é marcada por uma notável consistência temática e estilística. Embora tenha havido um amadurecimento natural, os elementos centrais de sua poesia – a reinvenção da palavra, a exploração do universo infantil e da natureza – permaneceram presentes ao longo de toda a sua carreira. **Evolução cronológica da obra:** Publicou seu primeiro livro, "Poemas", em 1935. Seguiram-se obras como "O Guardador de Águas" (1941), "Poemas Plumários" (1952), "Livro sobre Nada" (1956), "Gramática de Deus" (1981), "O Poeta da Roda Gigante" (1987), entre muitos outros. **Colaborações em revistas, jornais e antologias:** Participou de diversas publicações literárias ao longo de sua vida, divulgando seus poemas e consolidando sua voz poética. **Atividade como crítico, tradutor ou editor:** Não se destacou nessas áreas, concentrando sua produção na poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais com datas e contexto de produção:** - "Poemas" (1935): Primeiras incursões poéticas. - "O Guardador de Águas" (1941): Exploração lírica do universo pantaneiro. - "Livro sobre Nada" (1956): Um marco na sua obra, consolidando um estilo singular. - "Gramática de Deus" (1981): Poesia de reflexão sobre o mundo e a existência. - "O Poeta da Roda Gigante" (1987): Título que reflete sua ludicidade e olhar infantil sobre o mundo. **Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, pátria, espiritualidade, etc.:** A natureza (especialmente o Pantanal), a infância, o tempo, os objetos do cotidiano, a linguagem em si, a poesia, a existência e o ser. Há uma constante busca pelo sentido das coisas simples. **Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica:** Predominantemente verso livre, com grande liberdade formal e estrutural. Sua experimentação se dá mais no campo léxico e semântico do que na métrica tradicional. **Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade):** Uso intensivo de metáforas inusitadas, neologismos, reinvenção de palavras e estruturas sintáticas. O ritmo é peculiar, muitas vezes quebrado e surpreendente, e a musicalidade surge da sonoridade das palavras e da cadência do verso. **Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional:** Predominantemente lírico, contemplativo, com um tom de descoberta e maravilhamento. Há também momentos de reflexão filosófica e uma dose de ironia sutil. **Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.):** Sua voz é marcadamente pessoal e confessional, mas, ao tratar do universal através do particular, atinge uma ressonância pública e existencial. **Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos:** Linguagem aparentemente simples, mas profundamente elaborada. Vocabulário rico em termos regionais, neologismos e palavras recriadas. Imagens vívidas e originais. Seus recursos preferidos incluem a metáfora, a metonímia e a personificação. **Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura:** Reinventou a forma de ver e descrever o cotidiano e a natureza, ressignificando objetos e elementos banais. Criou uma poética do fragmento, da palavra que se desdobra em múltiplos sentidos. **Relação com a tradição e com a modernidade:** Dialogue com a tradição pela profundidade lírica e pela contemplação da natureza, mas inova radicalmente na linguagem e na forma, alinhando-se à modernidade poética pela experimentação e pela busca de um registro autêntico. **Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo):** Modernismo, especialmente em suas vertentes mais experimentais e voltadas para o Brasil profundo. **Obras menos conhecidas ou inéditas:** Diversos poemas foram publicados postumamente ou em edições específicas, mas sua obra principal é amplamente conhecida.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico **Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes):** Sua obra se manteve relativamente alheia aos grandes acontecimentos políticos e sociais do Brasil, focando em temas existenciais e na contemplação da natureza. Ele viveu os períodos de instabilidade política, mas sua poesia não foi um reflexo direto desses eventos. **Relação com outros escritores ou círculos literários:** Embora tenha convivido com outros escritores e intelectuais, manteve uma postura um tanto reclusa e independente, desenvolvendo um universo poético muito próprio, com pouca aderência a grupos ou movimentos específicos. **Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo):** Frequentemente associado à Geração de 45 ou ao pós-Modernismo brasileiro, mas sua obra é considerada singular, transcendendo as classificações de época. **Posição política ou filosófica:** Não manifestou posições políticas explícitas em sua obra. Sua filosofia era a da contemplação, da valorização do ser e da existência, e da profunda conexão com o mundo natural. **Influência da sociedade e cultura na obra:** A cultura pantaneira, os costumes rurais e a paisagem natural do Mato Grosso são a base de sua obra. Ele absorveu o que era local e o universalizou. **Diálogos e tensões com contemporâneos:** Sua originalidade e independência criativa o colocavam em um diálogo singular com a produção literária de sua época. **Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo:** Teve reconhecimento crítico em vida, sendo um dos poetas mais celebrados de sua geração. O reconhecimento póstumo apenas consolidou sua importância e o colocou no cânone da literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal **Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra:** Sua relação com a terra e com a infância foi central. O casamento e a paternidade também inspiraram reflexões sobre o tempo e a existência. **Amizades e rivalidades literárias:** Manteve amizades com figuras como Adélia Prado, mas era conhecido por seu temperamento reservado e sua dedicação quase exclusiva à poesia. **Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos:** Sofreu de glaucoma, que o deixou parcialmente cego em uma fase da vida, mas que não o impediu de continuar escrevendo e observando o mundo de maneira peculiar. **Profissões paralelas (se não viveu só da poesia):** Foi fazendeiro, produtor rural e também atuou no ramo de pecuária. **Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas:** Sua obra revela uma profunda espiritualidade ligada à natureza e à existência, mais panteísta do que dogmática. Há uma busca pela transcendência nas coisas simples. **Posições políticas e envolvimento cívico:** Não teve envolvimento político direto ou explícito.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção **Lugar na literatura nacional e internacional:** Um dos poetas brasileiros mais importantes e originais do século XX e XXI. Sua obra tem sido cada vez mais traduzida e divulgada internacionalmente. **Prémios, distinções e reconhecimento institucional:** Recebeu diversos prémios literários ao longo de sua carreira, incluindo o Prêmio Jabuti, o mais importante prêmio literário do Brasil, em várias ocasiões. **Receção crítica na época e ao longo do tempo:** Foi amplamente elogiado pela crítica por sua originalidade e profundidade lírica desde o início de sua carreira. A recepção crítica se manteve positiva e crescente ao longo do tempo. **Popularidade vs reconhecimento académico:** Possui grande popularidade entre leitores de todas as idades, sendo um autor frequentemente estudado em escolas e universidades, o que atesta seu duplo reconhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado **Autores que o influenciaram:** Henri Michaux, Saint-John Perse, e também a cultura popular, a oralidade e a própria paisagem pantaneira. **Poetas e movimentos que influenciou:** Influenciou gerações de poetas brasileiros que buscaram uma linguagem mais autêntica, um diálogo mais profundo com o cotidiano e a natureza, e uma reinvenção das possibilidades da palavra. **Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas:** Seu impacto na literatura brasileira é imenso, consolidando a poesia do cotidiano e da natureza como vertentes importantes. Sua obra é vista como um exemplo de originalidade e força criativa. **Entrada no cânone literário:** É figura consolidada no cânone da literatura brasileira, sendo leitura obrigatória em muitos currículos escolares e universitários. **Traduções e difusão internacional:** Sua obra tem sido traduzida para diversas línguas, ampliando seu alcance internacional. **Adaptações (música, teatro, cinema):** Alguns de seus poemas foram musicados e sua obra tem sido objeto de estudos e adaptações. **Estudos académicos dedicados à obra:** Inúmeros estudos acadêmicos analisam sua poesia, sua linguagem, seus temas e seu lugar na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica **Leituras possíveis da obra:** A obra de Manoel de Barros pode ser lida como uma celebração da simplicidade, uma meditação sobre o tempo e a memória, uma redescoberta do olhar infantil sobre o mundo, ou uma profunda reflexão sobre a linguagem e a capacidade humana de criar e nomear o real. **Temas filosóficos e existenciais:** A efemeridade da vida, a beleza oculta nas coisas simples, a relação do homem com a natureza, a busca pelo sentido em meio ao cotidiano, a matéria do tempo, a fragilidade da existência. **Controvérsias ou debates críticos:** Poucas controvérsias significativas. O debate gira em torno da classificação de sua obra e de sua relação com as vanguardas, mas sua originalidade é amplamente reconhecida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos **Aspetos menos conhecidos da personalidade:** Apesar de sua poesia muitas vezes lúdica e acessível, Manoel de Barros era um poeta de profunda seriedade e rigor criativo. Era descrito como um homem reservado, avesso a badalações. **Contradições entre vida e obra:** A aparente simplicidade e o lirismo de sua obra contrastam com a complexidade e a experimentação linguística que ele empregava, mostrando que a simplicidade é, muitas vezes, o resultado de um trabalho árduo e sofisticado. **Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor:** Sua habilidade em inventar palavras e dar novos sentidos a objetos comuns era uma marca de seu processo criativo, inspirada pela observação atenta do mundo. **Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética:** A fazenda, o Pantanal, os objetos do cotidiano (pedras, água, árvores, animais), a observação minuciosa. Seus rituais eram os da contemplação e da reinvenção da linguagem. **Hábitos de escrita:** Escrevia de forma muito seletiva, passando longos períodos em contemplação e observação antes de registrar suas ideias em papel. O trabalho de lapidação da palavra era intenso. **Episódios curiosos:** A invenção de palavras como "ininnerApiCalls" (inúteis, mas belos) e "despropósito" (algo que não faz sentido, mas que tem beleza) exemplifica sua relação única com a língua. **Manuscritos, diários ou correspondência:** Sua correspondência e manuscritos são valiosos para entender seu processo criativo e a gênese de seus poemas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória **Circunstâncias da morte:** Faleceu pacificamente em sua residência, em Campo Grande, aos 97 anos. **Publicações póstumas:** Diversas coletâneas e edições de sua obra continuam a ser publicadas e relançadas, mantendo viva sua memória e seu legado poético.

Poemas

12

Bernardo é quase uma árvore

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)
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I Matéria da Poesia

1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
(...)

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

2.
Muito coisa se poderia fazer em favor da poesia:

a — Esfregar pedras na paisagem.
b — Perder a inteligência das coisas para vê-las.
(Colhida em Rimbaud)
c — Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.
d — Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em
Carlitos.
e — Perguntar distraído: — O que há de você na
água?
f — Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas
de Mário-pega-sapo era nua. Por isso as
crianças e as putas do jardim o entendiam.
g — Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos,
terens de rua e de música, cisco de olho, moscas
de pensão...
h — Aprender a capinar com enxada cega.
i — Nos dias de lazer, compor um muro podre para
caramujos
j — Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
deitados de barriga, até que eles possam carrear
para o poema um gosto de chão - como cabelos
desfeitos no chão — ou como o bule de Braque
— áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro
— um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de
folhas.
l — Jogar pedrinhas nim moscas...
(...)

Imagem - 00780001


Publicado no livro Matéria de Poesia (1974).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Sabiá com Trevas

IV

(a um Pierrô de Picasso)
Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 684

Infância

Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.

Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.

Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.


Publicado no livro Poesias (1956).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
7 964

O tema da minha poesia sou eu mesmo

Entrevista concedida a André Luís Barros

A natureza nunca mais foi a mesma depois de passar por suas frases. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que está lançando um novo ajuntamento de versos e vida, o Livro sobre nada (Editora Record) , se considera acima de tudo um "fazedor de frases": "A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia", ensina. Avesso a entrevistas, quanto mais por telefone, Manoel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, concordou em concedeu conversar com o caderno Idéias, por telefone, de sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde vive a quatro horas de sua fazenda de criação de gado e costuma sair à tarde para "desenferrujar" e bicar umas pingas com amigos. Com simplicidade, o autor de livros como Compêndio para uso dos pássaros (1960), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985) e O guardador de águas (1989) falou sobre paixões literárias, o gosto pelo ócio e por programas divertidos na televisão, como Os trapalhões e até o mexicano Chaves e lembrou até um insuspeitado passado no Partido Comunista. "Mas nunca fui afeito a grupos, gerações, não podia mesmo durar muito naquele partido. Hoje, conquistei o ócio, o que é muito importante para o poeta", comemora.
ANDRÉ LUÍS BARROS:
- O senhor só ficou famoso como um grande poeta depois dos 70 anos. Isso foi algo planejado, ou aconteceu por acaso?
- Isso é negócio do meu temperamento. Nunca tive projeto, só livro. Também nunca achei que precisasse me isolar no Pantanal para compor melhor. Sou pantaneiro, nasci aqui, só podia viver e escrever mesmo sobre as coisas daqui. Mas nunca tive preocupação em aparecer muito, ser uma pessoa conhecida, isso é sincero mesmo. Eu queria só fazer poesia. A minha vergonhez explica muita coisa. Sou tímido por temperamento, é possível que só seja poeta por causa disso. Sou um ser abúlico, tenho minhas contradições e tento me encontrar através da poesia. É claro que sucesso é bom, ser amado, admirado pela poesia é bom, quem disser que não está mentindo. Fui descoberto de repente, as pessoas começaram a me perceber. Nunca na minha vida fui de participar muito de grupo. Acho que em poesia também não pertenço a nenhuma geração, a tal geração de 1945 não é a minha, e vejo outros poetas, como João Cabral de Melo Neto, que não é de geração nenhuma. Aliás, como classificar o Rimbaud? Em que geração classificamos o Augusto dos Anjos? Eles são simplesmente grandes poetas.
- O senhor conheceu, tem uma grande admiração e até prometeu um livro sobre João Guimarães Rosa. O primeiro livro dele, o inédito Magma, será lançado em breve. Onde está o livro prometido?
- Foi adiado. O Ênio Silveira tinha me sugerido fazer esse livro e eu topei o negócio, fiquei animado. Mas quando fui escrever, em vez de ser minha, a frase que saía era do Rosa. É que eu tinha relido muita coisa dele e fiquei impregnado. Não convém isso, não é bom porque você acaba mergulhado mesmo na obra do autor, acaba afogado. Anos atrás eu tinha tentado fazer um ensaio quase lingüístico sobre o conto Cara-de-Bronze, do Rosa, de que gosto muito. Mas me embananei todo, no meio. Eu não falo mais que três línguas e o Rosa conhecia língua demais, achei que seria possível fazer o ensaio mas ficou muito difícil. Disseram que o Magma não é tão bom quanto os outros livros do Rosa. Realmente ele tinha talento mesmo era para a prosa, e o engraçado é que ele foi poeta no fim da vida. Geralmente o sujeito é poeta aos 18 anos, quando aparecem as espinhas, e depois pode virar prosador. Mas há versos perfeitos no livro Ave, palavra, seu último livro, e Tutaméia e A terceira margem do rio são pura poesia. Eu sou mais de fazer frases, sou bom em criar frases.
- O seu trabalho é mais fragmentado.
- Cada vez mais. O próprio mundo está obrigando a gente a se fragmentar. É uma falta de unidade, o homem moderno não tem mais as grandes unidades, como Deus. A gente não tem crença em mais nada, aliás, toda a arte deste século é fragmentada, ninguém defende mais uma ideologia, hoje. O homem não acredita mais nem em ideologia, as religiões estão se fragmentando, o protestantismo está se dividindo, o cristianismo.
- O senhor é religioso?
- Sim, tenho formação católica, estudei dez anos interno em colégio de padre. Evidente que depois de alguns anos eu era comunista. Foi minha fase libertária, fui filiado ao Partido. Foi ali que conheci o Carlos Lacerda. O Apolônio de Carvalho me botou lá, depois ele foi da dissidência do Partido. Fui companheiro do Lacerda, que na época era muito diferente do que ele se tornaria, era comunista mesmo.
- Até que ponto a despreocupação com o dinheiro é importante para o poeta?
- Levei vários anos até conquistar o ócio, isso é importante para o poeta, ele não pode ter a cabeça virada só para coisas a resolver. Fiquei muitos anos arrumando minha vida, saldando dívidas, atendendo papagaio. Há oito anos, cheguei aqui pra Mato Grosso, tomei pé aqui. Agora estou vagabundo, tenho direito a isso. Herdei uma fazenda, em campo aberto, terra nua, sou fazendeiro de gado, vaca, não sou "o rei do boi, do gado" mas vivo bem. Este é o meu caso: enquanto estava tomando pé da fazenda não escrevi uma linha. Mas sabemos de outros casos, como o Dostoiévski, que escreveu perseguido por dívidas, ou o Graciliano Ramos, que além das dívidas ainda tinha família pra criar.
- Qual é o tema do poeta?
- O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Nesse último livro meu, Livro sobre nada, tem muitos versos que vieram da infância. Tem um poema que se chama "A arte de infantilizar formigas". Num vídeo que fizeram sobre mim, o rapaz chega uma hora que pergunta: "Escuta aqui, o senhor escreveu que formiga não tem dor nas costas. Mas como é que o senhor sabe?". Outro rapaz me escreveu do Rio, diz que freqüenta as aulas de um professor muito inteligente em energia nuclear, física, poesia e romance, e ele fez a pergunta, que é um verso meu: "Professor, por que a 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso?". O professor, que tinha estudado Einstein e outros autores, disse: "Essa pergunta não vou responder, é absurda". Ou seja, encabulou. Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilógico. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.
- Como é seu dia-a-dia?
- Pela estrada, chego a minha fazenda em quatro horas, estou bem perto do Pantanal. Agora o clima é seco, e dá para correr de carro. Mas quando a estrada enche, só de avião. Fico em casa lendo, escutando músico, vejo televisão. De manhã, fico escrevendo, terminando livro, fazendo entrevista.
- Hoje, o senhor lê que autores?
- Já li muita coisa séria, além dos escritores, li filosofia, Nietszche, Kant, Walter Benjamim, Adorno, essas coisas. Mas hoje tô lendo mais porcaria mesmo, quero descansar a cabeça. E estou com a vista meio ruim. Vejo também muitas coisas engraçadas na TV, o Didi e o Dedé (Os trapalhões), o Chaves, sabe quem é?, aquele chato mexicano. E escuto muita música. De tarde, saio pra tomar umas pingas, enquanto meu fígado não arrebentou. Mas às vezes sofro aqui nessa cidade. A poesia faz da gente uma espécie de mito, e as pessoas acabam fazendo da gente uma imagem diferente da realidade. Tem gente aqui que pensa que eu vivo isolado, sozinho, sem amigos, falam que eu sou intratável. Não sou isolado, não.
- Como nasceu seu amor pelo trabalho da linguagem?
-<
5 511

7 A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)


Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
6 326

O Solitário

Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.

Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...

No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!

Seu corpo fazia uma curva diante das flores.


Publicado no livro Face Imóvel (1942).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 733

Glossário de Transnominações

(...)

Boca, s.f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto

(...)

Sol, s.m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
Se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém.

(...)


Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
2 850

Na Rua Mário de Andrade

Na Rua Mário de Andrade
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade

Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...

Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade

Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar

É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar

E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar

Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã

Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves

Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar

Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente

Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira

Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã

(...)

Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará

Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...

(...)

Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —

uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...

Rua Mário de Andrade...


Publicado no livro Poesias (1956).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Rome Page de Eduardo Lohmann

Uma Didática da Invenção

do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

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euskadia

Vai pois, poema, procura a voz literal que desocultamente fala sob tanta literatura. Se a escutares, porém, tapa os ouvidos, porque pela primeira vez estás sozinho. Regressa então, se puderes, pelo caminho das interpretações e dos sentidos. Mas não olhes para trás, não olhes para trás, ou jamais te perderás, e o teu canto, insensato, será feito só de melancolia e de despeito.... A partir de António Manuel Pina, eu redescrevi a essência daquilo que lhe perscrutei