Traços
Eu não vos sei dizer
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
Ocupação do Espaço
Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
É Breve o Dia
As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
A Mulher a Casa
A casa é viva
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio
Planos brancos
e cores lisas
Dorme no vidro
tranquilo
Dorme viva
*
A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores
A própria cidade é branca
*
A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco
O puro nó
do silêncio
*
Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo
A casa é ela
em espiral
rodando
branca
*
É fino o ar
quase sem pó
Uma árvore dá
uma curta sombra
Uma brisa lava
a casa fresca
A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar
*
A varanda é nua
A mulher é nua
*
Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu
mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul
*
Uma vela branca
de minúcia fresca
dá ao olhar a brisa
dá ao silêncio o mar
*
A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio
O Nascimento do Poema
O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
A Pedra
A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.
Um Outro Sol, Um Outro Pão
Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
No Vagar da Terra
Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
Princípio de Estação
Venho do sol (uma cortina de bruma
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda