Génese
Ouço dentro da água as calmas revoluções
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
Apenas Um Tremor
Vai-se tecendo a paz num caos contemplado
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
Dissipam-Se As Minhas Pétalas
Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.
Corpo Na Clareira
O sol repousa sobre os teus ombros, sobre as folhas
que te inundam, os teus pensamentos deslizam como a água
e há um silêncio há uma ferida há uma sombra que passa
o teu corpo na clareira é uma onda e um fruto.
É um sabor da luz é uma palavra e uma árvore.
Toco a tua pele de musgo, a cicatriz resplandecente.
És imensa e delicada entre incêndios errantes.
Como um desenho de água, como uma haste do tempo.
Que sossego o teu sexo entre pássaros e sombras!
Quero ouvir o que dizes, o teu silêncio de água,
quero ouvir o teu rio de sangue, o pulsar da tua noite.
Como um perfume que ascende, como uma onda que avança,
o teu silêncio é o teu grito, uma torre abandonada.
São quase palavras amantes de um alento sem destino,
são latidos negros que sobem numa espiral indecisa.
Nasceu Para Ser Centelha
Nasceu para ser centelha
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
A Casa
A casa em si pousa e esquecendo doura
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.
Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.
Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
O Encontro
Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
A Mulher Que Medita Aérea
Esparsa e prateada com a palma erguida
aérea e vagarosa no sono cintilante
em que medita a nudez de ser como uma lâmpada
até ao fundo em nostalgia ondeia
e a claridade irisa e abre-se ao silêncio.
Ilumina-se no círculo de um mistério verde.
É livre no ligeiro equilíbrio de um vigor
que vem das folhas e do ar e quase voa
em reverência ardente ao que está sendo
em transparência nua e em arcos de frescura.
Demora inclinada sobre as águas incandescentes
numa alegria branca e grita inteiramente.
Demora e respira a brisa que inebria
e limpa. Pelo espaço alarga a sua esfera
e decanta na penumbra a paz que se aclara.
Esta Alegria
Esta alegria
que de nada nasce
antes da palavra
sopro insubmisso
sortilégio do dia.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda