Na Transparência da Sombra
Dorme na transparência da sombra ignorante
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
Em Todo o Corpo Lúcido
Em todo o corpo lúcido
a luz e a música
com o brilho da brisa
e os véus vegetais.
É No Vazio Que Alcanço a Identidade
É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
Há Um Amor
Há um amor que ainda não ama na ausência
em que perdido está em insondável tristeza
e tão fundo e tão longe que perde os montes
e as árvores e o inefável reino
que de súbito dourasse à passagem de uma nuvem.
À volta dele ninguém, uma varanda vazia
e o halo do esquecimento, o silêncio sem lugar.
Perdeu-se o timbre das coisas e a sombra violeta.
E dilacera-se sem espaço em cada imagem.
Tudo dói, tudo passa. Já não se acende estar.
O mundo não assenta. O amor não principia.
Onde é nascer? Onde o corpo ao longe se ilumina.
Onde a própria tristeza deslumbra e se constela.
O sonho está nas pedras, o sonho está nas folhas.
O amor descobre em tudo a substância aberta.
Viver Em Ti
Vivo sem ti. Tu mesma, em ti mesma, quem és tu? Inexpugnável, no círculo de ti mesma, tu mesma em ti dentro, quem és tu? A minha ignorância do teu ser é completa. É a distância de uma total separação. Porque eu nada sei, nada, nunca saberei de ti um lábio, um impulso, um ardor de ser, um sossegado olhar, uma sensação feliz, uma sílaba viva do teu corpo. Queria ser-te, queria estar em ti, no mistério vivo e absoluto que tu és. Queria ser o deus fascinado de ti, no centro de ti, vendo-te, cheirando-te, sabendo-te, ouvindo-te, todo redondo e cheio, dentro e fora de ti, no vazio de ti, na espessura ardente e obscura do teu ser. Como te quero assim, no inteiro contacto, tocando-te e respirando-te, ardendo onduladamente em tuas veias! Esta é a mais perfeita glória, o gozo mais pleno, a mais maravilhosa identidade. Estou em ti e já nada me distancia ou me separa do que tu és dentro de ti e fora de ti. Estou dentro de ti, cego e luminoso, sou o teu espaço interno, o teu permanente renascer. Sou agora o que tu és, um caos suave e tumultuoso, um movimento permanente de sombras e de luzes, de ritmos e de cores. Estou dentro do teu corpo, maravilhosamente dentro, no sol do teu sexo, no centro da tua consciência. Sinto-me extremamente vivo em todos os teus poros. Toco o que tu tocas, ardo onde tu ardes, respiro o que tu respiras. Tudo o que eu disser é a tua própria palavra, a tua confiança vertiginosa, o teu alento de fulgurante ignorância.
Extremamente Nua
Extremamente nua. E através dela a sombra
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
O Espelho do Invisível de José Terra
O teu canto orienta-se entre deuses e monstros,
tenso e lúcido, com a força explosiva
da flecha que penetra no incógnito. É um tumulto,
um fogo comprimido e fulge rigoroso
em palavras nuas que cindem o obscuro.
Procuras o claro dia, a noite intacta
e o espaço em que te abras e a alegria
que não é dos deuses, procuras sob o sono
e sob a pele da noite, o obscuro fogo
ou talvez um rumor subterrâneo e lúcido.
Escreves sobre a pedra, incides na espessura
da pedra. Aderes ao objecto com um toque
subtil e grave, e um núcleo arde
para além de tudo o que detectam nossos dedos,
um sopro, uma chama, um rosto, um amoroso sono.
O Tempo
Que dizer quando o tempo se esquece e há um nimbo
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
Folha Após Folha
Folha após folha
no fulgor do vento
sigo o trânsito da luz
através das sombras
do teu corpo.
No Ovo da Sombra
Escrevo não para abrir um espaço, escrevo talvez para me fechar num grande ovo de sombra com árvores imensas e lâmpadas de pedra. Longe, longe, longe, na amplitude, no compacto, na ignorância cálida, na perfeição fechada do enigma. Eis que encontro o encontro na cegueira azul, no silêncio da afasia, na boca apagada e escura, na imobilidade vegetal. É o regresso ao sim do sono e à densidade terrestre. Conheço agora a palavra que não vibra, a palavra imersa no sal da sua sombra. Longínquo, longínquo é o espaço onde nada ressoa, onde tudo flui obscuro e aéreo, onde nada se diz, onde nada se perde.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda