Encontro
Como nasceste? Amadurecia o mundo. Ó impaciência
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
Escrevo Para o Teu Corpo
Escrevo para os teus olhos errantes, para o teu corpo
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
A Verdade
A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.
Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede
e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitectura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.
Estendida Sobre a Idade
Estendida sobre a idade sente-se germinar
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
O Reino Está Aqui
O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
Na Transparência da Sombra
Dorme na transparência da sombra ignorante
de ser a própria fonte inebriante e a área
que é um estremecimento do centro até ao círculo.
Vê-la é ver do fundo olvido a nudez ardente.
Ilumina-se um sabor e a inteligência é de vento.
Que volúvel é o brilho de tudo quanto vê!
Contempla em vivas curvas a liberdade do fogo.
Forma o mundo de si, no seu vagar maravilhoso.
Está feliz vendo e em cada coisa repousando
cada vez mais terra numa inocência vegetal.
Andar com ela será ser a transparência intacta
ou sereno errar num espaço de atenção.
Em torno dela o mundo é um pomar unânime.
Quem se abre mais imóvel mais fluido
à magnífica ubiquidade do seu silêncio?
Oscilando Na Ligeireza
Urdindo talvez a água e as lâmpadas de madeira.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
A Diferença de Um Outro Corpo
A diferença de um outro corpo que erra
e ensombrece e arde e inicia longe
o perto transformando em residência fulva
subindo as fluentes margens do silêncio
onde as veredas e as clareiras se iluminam.
Nada se diz que não seja a vibração idêntica
do espaço e o sono aéreo da folhagem.
A indivisível, a inapreensível salamandra
dorme sobre a pedra verde. É o encontro
da obscura luz que vai abrindo arcadas
vermelhas. No tremor das árvores, no rumor das águas
um movimento de palavras e de folhas se conjuga
e se dispersa nulo na espiral nocturna.
Mas o que se desvanece retorna, lâmpada ou chama branca
ou o animal que escreve com a boca cintilante.
A Casa
A casa em si pousa e esquecendo doura
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.
Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.
Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
A Nudez Das Palavras
A nudez das palavras como o único caminho,
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda