Falo de Um Desequilíbrio
Falo de um desequilíbrio gracioso
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
Escrita Ou Corpo
Ele prepara os incertos lugares. Escreve
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
Perdi o Nascimento da Árvore
Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
Os Campos Paralelos
Que chuvas despertam os campos paralelos?
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
Entre Duas Páginas
Aqui as palavras chegam ou não chegam.
Entre duas páginas ninguém dorme, ninguém morre.
Apago com a tua pele a pele do muro.
Estou rodeado de indícios silenciosos.
Leio axilas, pedras, dorsos, mãos.
Há uma pedra enterrada na carne ou uma árvore.
Apunhalo um punhal que não se apaga.
Repito com um lábio o que o outro cala.
Escuto o rumor de feridas que não sangram.
Não canto a luz na pedra fecundada.
Queria dizer, queria dizer a nudez da tua pele,
os ventos afectuosos, a chuva nos teus ombros,
queria tocar, queria tocar-te, queria encontrar-me,
queria saciar a sede que inventa tantos nomes,
queria libertar a língua e ser o mundo.
Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
Um Discurso Transparente
Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
Violenta No Obscuro
Por ímpetos de acaso tacteias o obscuro
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
A Coisa Sem Nome
Um disco de uma negra densidade,
a coisa sem nome, irradiante embriaguez.
Terei tocado a sombra, a sequiosa luz?
Vibro no vazio do vento, vivo com as pedras,
em ondas oscilantes, entre pequenas ilhas.
Uma coisa germina, volúvel, subtil,
da guerra silenciosa à silenciosa música.
Um tranquilo relâmpago, um gesto da paisagem.
Ainda não um nome. Uma dança. Um desenho.
Uma poeira de ferrugem na água transparente.
Este é o lugar do meu desejo, na leveza
de uma estrela. O obscuro liberta-se em miríades
fosforescentes. As linhas cantam ao primeiro álcool
da respiração. O corpo completa-se
no vermelho sono de uma vibrante folha.
Aniquilado, vagaroso rosto, que se forma no centro
da folha inicial. As pedras ouvem, o arbusto vê.
O mar, não uma lâmpada, acende a mão deserta.
Ninguém separa já a palavra dos meus dedos.
A presença é o esquecimento no seio do abandono.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda