Tangência No Centro
Até à terra, sem me inclinar, inclinando-me,
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
Nascimento
Na sua pele azulada e branca de astros
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
O Abrigo
Enigma vivo, avança na busca impenetrável
sobre o abismo ou sobre a maravilha. Só há um movimento
de descida à nascente. Vivo, eu vou também
para o lugar que me aspira, verde coincidência
de um abrigo que é espaço de descanso e de encontro.
Estamos no fundo incessante, na espessura materna
da figura submersa em profusão harmoniosa.
Ela não é ainda real, mas já é um ritmo, uma cintilação,
o fulgor de uma folha, um queixume exultante.
Que movimentos lentos, que pensamentos suaves!
Alguma vez se abriram as portas do início?
Uma voz se eleva entre o pressentido e o sentido.
As frases não se distinguem das sílabas da folhagem.
O que não cessa apaga-se e desaparecendo nasce.
A água adormece. A sombra declina.
Violenta No Obscuro
Por ímpetos de acaso tacteias o obscuro
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
Um Rio
Um rio entre as nuvens, um rio que tu ignoras,
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
A Palavra
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
Perdi o Nascimento da Árvore
Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
A Força Alegre
É alegre a força que ainda não tem sinal
a não ser o veludo de um gesto sem ruído
e alta e animal se eleva no seu curso
e no lúcido furor de uma clara onda
se distende e enrola na vibração do vento
que lhe arredonda o sangue na festa rapidíssima
que não se inventa ou inventa na surpresa
da evidência viva à superfície lúcida,
e musical, eléctrica, constrói volume e linha
e espaço. Espraia-se ligeira a formosura
em transparentes paisagens que estremecem
tão altas e lisas que se espelham
em repouso de sombras e azuis. E qual
um voo oculto no silêncio, um círculo calmo
resume em si a inércia feliz do movimento.
A Mulher do Espaço
Tua ardente harmonia, tua felicidade aérea
é o sonho súbito do ser, o seu sangue perfeito.
Estendes-te muito alto, muito baixo: nascente
subterrânea, sopro de asas. Suavidade oval.
Vibras repentina na fluência perfumada.
És um sonho do ar e uma palavra que inicia
com um sabor completo. As coisas aparecem
como dentro de ti, veladas, luminosas.
Como se dissipam lentas as tuas órbitas ligeiras!
Num acto puro rodas à volta do vazio
tão fundo e tão azul e nem sequer estremeces
e és uma ausência branca que acalma e que deslumbra.
Que hálitos, que rumores flexíveis e sedosos!
Em círculos a nudez demora-se em desejos
onde tudo é abolido e tudo principia.
A Casa do Mar
Esta é a casa na areia incerta e fresca.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda