Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
Mediadora Vazia
Já deslembrada, perdida
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.
Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.
Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.
Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.
Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.
Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?
Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.
Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
Reconhecê-La É Feri-La Travejá-La
Reconhecê-la é feri-la Travejá-la
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
Vejo o Fogo
Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
A Palavra
A palavra é a cor que de súbito deslumbra
e cega, brancura da surpresa, surpresa
da brancura. Terra e vento, o espaço sem palavras,
o sopro que se alarga, lâmpada desagregada,
matéria de pálpebras, tremor de ombros.
Destruída, mas erecta, simples e negra,
rosto que se retempera na verdura das árvores
e busca o esquecimento aberto da presença.
Escrevo onde a palavra ainda não se diz
entre o desejo e a água, com a língua do vento.
A palavra volátil, a palavra densa, a palavra vazia
esvai-se. Só o acaso irradia algum suporte.
Chamo a mão vazia, adiro aos fundamentos
onde o ar começa e o solo ilimitado.
Na folha uma figura aparece com uma ferida aberta.
Escrevo-Te Com o Fogo E a Água
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
Mediadora do Espaço
Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
Entre Pequenos Tumultos Brancos
Entre pequenos tumultos brancos, entre os cabelos do ar,
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
O Desejo do Início E do Silêncio
O desejo do início e do silêncio
para que o instante seja a fábula do instante
O silêncio para dizer as palavras anteriores
É o centro talvez a suspensão a perda
o fundo: a ausência de cor
fundo incessante que procuro defender
do assédio do sentido contra
as presenças acidentais e a agitação da superfície
Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:
como transpor a parede circular
das coisas?
Lá fora a forma opaca
e provisória do ar as mesmas marcas
coloridas a distraída escrita
do acontecimento As pessoas passam
inscritas na janela com as casas e as árvores
e a árvore negra na curva, o céu oblíquo
Um olhar geral penetra-me e na ausência
de uma perspectiva já não sou
uma visão do mundo mas a subterrânea
corrente das intensidades do desejo
Aqui reina a imagem de um olho global
e é aqui que invento a metáfora da Figura
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda