Crônica de Janeiro
Onde está o janeireiro
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
A Um Senhor de Barbas Brancas
Inscreves-te no concurso em Brasília e és aprovado
(línguas, noções de turismo, comunicabilidade),
chegas de locomotiva à festa dos portuários,
desces de helicóptero na Colônia Juliano Moreira,
passeias equipado de robô na rua da Alfândega,
vais de jato a Lisboa cumprimentar o cardeal Cerejeira,
fundas a Fundação que perpetuará teu nome,
e dizem, Papai Noel, que não existes?
Garotos podem apertar-te a mão na rua do Ouvidor.
Sessent’anos marcados pela vida
e pelo dente do salário mínimo.
És gordo. Estás suado. Tens cecê.
Também, com este calor de patropi,
queriam que recendesses a lavanda?
És mito, estás por fora do contexto?
O mito,
cada vez mais concreto em toda parte,
motiva os homens, cria o novo real.
A floresta de mitos desenrola
verdinegra folhagem sobre a Terra.
Por eles, vida e morte se defrontam
no combate de imagens.
Outro Natal, nos ossos velhos do Natal,
impõe seu rito, a força de seu mito.
Dás (vendes) geladeiras que teu gelo
vai vestindo de neve e crediário.
Vendes
o relógio, a peruca, o blended scotch,
o biquíni, o recheio do biquíni,
vendes rena e trenó (carro hidramático),
a ideia de Natal & outras ideias.
Ladino corretor,
vendes a ideia prístina de amor.
Só não creem em ti os visionários,
que agrides com teu estar perto e pegável.
Sonhavam-te incorpóreo: bruma de alma,
dar sem mãos, no ar aberto em vilancicos:
tudo que o aposentado do Correio
ou da Central ou da Sursan
ao preço de um biscate de dezembro
ou mesmo o concursado poliglota
não pode ser
nem parecer
nem dar.
Se Eliot despreza
the social, the torpid, the patently commercial
attitude towards Christmas, que importa?
Não és criador; és o criado,
que na bandeja trazes o mistério
trocado em coisas. Uma ternura antiga,
um carinho mais velho do que Cristo
reparte os bens a Cristo recusados.
Se não reparte justo,
se nega, esconde, furta
o anel à namorada que o pedia,
se estende a muitos um pudim de pedra
& sangue, sob a glace,
que culpa tens do feixe de pecados,
em prendas nos teus ombros convertido?
Père Noël, Father Christmas, Papai
adocicadamente brasileiro,
velhacamente avô de dez milhões de netos
alheios e informados,
tão afeito à mentira que mentimos
o ano inteiro e em dobro no Natal,
não te cansas, velhinho,
de jogar nosso jogo, de vender-nos
uma xerox da infância com borrões?
Não te enfada
ser mensageiro da mensagem torta
com método apagada
tão logo transmitida?
Sob o veludo amarfanhado
de teu uniforme de serviço,
na rosa rubra de dezembro,
junto ao berço de palha de um menino,
percebo a tristeza do mito
que aos homens se aliou para iludir
nossa fome de Deus na hora divina.
25/12/1969
Versos Negros (Mas Nem Tanto)
Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.
Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.
À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.
O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.
Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.
A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.
Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.
E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.
Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?
Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.
Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.
Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.
O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.
Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.
Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.
Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.
Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.
Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.
Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
Na Escada Rolante
do Edifício Avenida Central, ao voltar da livraria onde encontrei o exemplar no 9 de 10 poemas em manuscrito, editado por João Condé em 1945, com ilustrações de Portinari, Santa-Rosa e Percy Deane e textos de Cecília Meireles, Augusto Meyer, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Abgar Renault, Mário de Andrade, Vinícius de Morais e o autor desta cantiguinha joco-nostálgica.
Destes dez, já não vivem dois.
Quedê Mário, Macunaíma?
Estás no céu, Jorge de Lima?
Dos pintores, um só nos resta.
Candinho e Santa, pelo cosmo,
estarão fazendo seresta?
Pois ficamos nós. Protegei-nos
nossa, de olhos verdes, Cecília,
que sois a verde maravilha.
Caro Vinícius, tem cautela,
e, marinheiro, poupa o casco
de teu airoso barco a vela.
Longe Murilo, eis que de Roma
teu verso chega, e sou romano
ao menos uma vez por ano.
O mano Abgar, este se esconde.
Faz muito bem. É em segredo
que se goza de paz avonde.
Augusto Meyer, porcelana
que deixa filtrar o crepúsculo:
o coração é flor ou músculo?
De Schmidt contam-nos as folhas
mais e melhor que a cantilena
desta mal informada pena.
Manuel, a estrela matutina
e a da tarde brilham igual?
Viver em luz é tua sina.
No mais, o poeta sem poesia,
de invisível texto paleógrafo,
aqui rabisca novo autógrafo.
Éramos dez em manuscrito.
Oito, carregamos no alforje
a saudade de Mário e Jorge.
Que lá perpetuam um livrinho
só deles, com Santa e Candinho.
25/05/1963
Poeta Emílio
Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
Em Louvor da Miniblusa
Hoje vai a antiga musa
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.
12/01/1969
No Festival
Na janela Carolina
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
Na Semana
Eis que o inverno chegou, de meias pretas
nas pernas jovens… Oi, não te derretas
demais, ante o espetáculo da moda,
que dura um mini-instante, velho, e roda
como ao vento da praia, sobre a areia,
essa acobreada folha de amendoeira.
Da minissaia posso ser devoto,
mas como aceitarei o minivoto
da eleição que se chama de indireta
— mágica de sabido ou de pateta?
Tão mais simples dizer: “Fica nomeado
Fuão de Tal capitão-mor do Estado,
porque é, entre todos, excelente,
na conspícua opinião do Presidente”.
Meu caro João Brandão, esqueça a Arena
e siga em busca de outra mais amena
diversão popular: boliche, ou
(tome cuidado) o Circo de Moscou,
que mostra luluzinho trapezista
e urso bicicletando pela pista.
Se há coisa mais barata? Este lembrete:
visitar o Palácio do Catete.
É de graça, e, na velha mansão pública,
você vê o fantasma da República
circulando entre fardas e decretos,
revoluções, proclamações, secretos
conchavos, dores, tudo mais que a História
não conta ou conta mal: a pobre glória,
o poder que era férreo e vira-lata,
teia-cinza-de-aranha, vil sucata…
A casa faz cem anos ou cem mil?
O tempo é uma ilusão no céu de anil,
que por sinal anda não mui cerúleo,
encoberto, tristinho, neste julho.
Que importa a chuva, se na tarde fria
há fila para entrar na Academia?
Eis que se assusta o grupo de aspirantes:
e se não vogam mais as normas de antes?
Se se adotar o modo severino
que hoje serve ao Brasil de figurino:
escolha, sob a vara de marmelo,
numa lista de três, pelo Castelo?
O Amigo da Onça espalha este boato,
desfeito logo após pelo Viriato,
enquanto o povo, preso ao transistor,
com angústia, impaciência, febre, amor,
nosso escrete acompanha pela Europa:
Não nos deixes, Pelé, sem esta Copa!
03/07/1966
Luar Para Alphonsus
Hoje peço uma lua diferente
para Ouro Preto
Conceição do Serro
Mariana.
Não venha a lua de Armstrong
pisada, apalpada
analisada em fragmentos pelos geólogos.
Há de ser a lua mágica e pensativa
a lua de Alphonsus
sobre as três cidades de sua vida.
Comemore-se o centenário do poeta
com uma lua de absoluta primeira classe
bem mineira no gelado vapor de julho
bem da Virgem do Carmo do Ribeirão
dos menestréis de serenata
bem simbolista bem medieval.
Haja um luar de prata escorrendo sobre montanhas
inundando as prefeituras
os bancos de investimento de Belo Horizonte
a própria polícia militar
de modo que ninguém se esqueça, ninguém possa alegar:
Eu não sabia
que ele fazia
cem anos.
Mas não é para soltar foguete nem fazer
os clássicos discursos ao povo mineiro
dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta
numa vida banal sem esperança.
É para sentir o luar
extra que envolve
Ouro Preto, Mariana, Conceição
filtrado suavemente
da poesia de Alphonsus, no silêncio
de sua mesa de juiz municipal
meritíssimo poeta do luar.
Algum estudante, sim, espero vê-lo
debruçado sobre a Pastoral aos crentes
do amor e da morte, penetrando
o cerne doceamargo
de um verso alphonsino cem por cento.
Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?
Onde o poeta assiste, não há cocks
autógrafos, badalos, gravações.
Está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même
enfin l’éternité le change…)
e descobri-lo é quase um nascimento
do verbo:
cada palavra antiga surge nova
intemporal, sem desgaste vanguardista, lua
nova, na página lunar.
E essa lua eu peço: aquela mesma
barquinha santa, gôndola
rosal cheio de harpas
urna de padre-nossos
pão de trigo da sagrada ceia
lua dupla de Ismália enlouquecida
lua de Alphonsus que ele soube ver
como ninguém mais veria
de seus mineiros altos miradouros.
O poeta faz cem anos no luar.
05/07/1970
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!