Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

1 061 788 Visualizações

Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Nunca Trago Minha Mulher

estaciono, saio, tranco o carro, é um dia perfeito, calmo
e agradável. eu me sinto bem, começo a caminhar em direção à
entrada e um gordinho se junta a mim. ele caminha a meu lado.
não sei de onde saiu.
"oi", ele diz, "como vai você?"
"tudo bem", eu digo.
ele diz, "acho que você não se lembra de mim. você me viu
talvez duas ou três vezes".
"pode ser", eu digo. "venho às pistas todo dia."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
"qual você prefere para a ponta?", ele pergunta.
eu lhe digo que ainda não comprei meu boletim do turfe.
seguimos e eu ando mais depressa. ele se esforça para me acompanhar.
"onde você fica?", ele pergunta.
eu lhe digo que fico em diversos lugares.
"esse maldito Gilligan", ele diz, "é o pior
jóquei aqui. eu perdi uma nota nele o outro dia. por que
eles o usam?"
eu digo a ele que Whittingham e Longden acham que está tudo certo
com ele.
"com certeza, eles são amigos", ele responde. "sei alguma coisa sobre
Gillingan. quer saber?"
eu lhe digo para esquecer.
estamos chegando perto da banca de jornal junto da entrada
e me viro na direção dela como se fosse comprar
um jornal.
"boa sorte", eu digo e desvio.
ele parece perplexo. seus olhos parecem chocados. ele me lembra
uma mulher que só se sente segura quando o polegar de alguém está
em seu rabo.
ele olha ao redor, acha um homem de cabelo grisalho que
manca, apressa-se, alcança o velho e começa
a conversar com ele.
compro meu ingresso, acho um lugar longe de todo mundo, sento.
tenho sete ou oito bons minutos sossegados, então escuto um
movimento: um cara senta-se perto de mim, não a meu
lado mas a um assento de distância embora haja centenas de
assentos vazios.
outro Mickey Mouse, eu penso. por que será que eles sempre me
acham?
continuo a fazer meus cálculos.
então ouço a voz dele: "Blue Baron vai levar
a ponta."
faço uma nota para riscar aquele cachorro e dou uma olhada e
me parece que essa observação me foi dirigida; não há
mais ninguém em 15 jardas ao redor.
vejo a cara dele.
ele tem uma cara que a maioria das mulheres adoraria: extremamente
macia e
branca.
ele permaneceu quase intocado pelas circunstâncias, é um
milagre do zero.
eu o encaro encantado.
é como olhar um lago de leite
nunca perturbado nem por uma pedrinha.
volto a olhar para meu boletim.
"qual você prefere?", ele pergunta.
"senhor", eu lhe digo, "prefiro não falar."
ele me olha por trás de seu bigode negro perfeitamente
aparado, não há nenhum pelo fora do lugar;
eu tentei bigodes; nunca liguei o bastante para espelhos
para deixar um bigode parecer tão antinatural.
ele diz, "ouvi falar de você. você não gosta de falar
com ninguém".
levanto, pego meus papéis, caminho por três fileiras para baixo e 16
assentos adiante. chego a meu último refúgio, pego meus
protetores de ouvido vermelhos, enfio-me neles.
ser o guardião de meu irmão só iria fazer com que eu me recolhesse
entre muros em um lugar
onde tudo é a mesma coisa.
sinto pelos solitários, sinto por suas necessidades, mas também sinto
que os solitários são feitos uns para os outros e que eles deveriam se
encontrar
uns aos outros e me deixar em paz.
assim, de protetores de ouvido, perco a cerimônia de hasteamento da
bandeira, mergulhado no boletim.
eu teria gostado de ser humano
se eles deixassem que eu fosse.
ir às pistas de corrida é como ir a qualquer outro lugar exceto,
falando genericamente,
que há mais pessoas solitárias por lá, o que não adianta muito.
elas têm o direito de estar lá e eu tenho o direito de estar lá.
isto é uma democracia e todos nós fazemos parte de uma
família infeliz.
1 073

Neblina

pior neblina
que já vi
estava voltando de carro da
praia
com meu chapa Desmond
quando
ela
chegou
era tão grossa
que dava
para cortá-la com
a proverbial
faca.
e nós estávamos um bocado
bêbados.
não podíamos sair
fora da estrada porque tínhamos
medo de
bater nos carros já estacionados
no
acostamento
mas paramos por
um momento e
Desmond subiu
no capô
e se ajoelhou nele
e disse, "está bem,
vamos, vou
guiar você!"
e eu arranquei
e
Desmond berrava,
"MERDA! NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e ele começou
a rire eu
comecei a rir.
eu mal podia
ver sua bunda
enfiada lá
no capô
e então ele
disse
de novo: "MERDA!
NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e nós dois começamos
a rir cada vez
mais
uma risada que
não conseguíamos parar
toda aquela neblina
ao nosso redor
enquanto
seguíamos
só continuávamos
a dirigir e
a rir
passamos por
cruzamento após
cruzamento
frequentemente ouvindo
motores e buzinas
mas sem ver
nada
até que em um
cruzamento a
neblina se desfez
um pouco
consegui entrever
um posto de gasolina
uma lanchonete
e havia uma
luz verde
e
Desmond estava
ausente
saí fora
e estacionei no
posto de gasolina e
esperei
e lá veio
Desmond a pé
através da
neblina
berrei e
acenei e ele me
viu
correu até o carro
e entrou
dirigimos para
L.A.
uma semana mais tarde
ele foi para
Hlinois para ver
a mulher com a qual
havia
rompido
e eu
nunca mais
o vi.
1 078

Cachorro Morto

Bartkowski completou um arremesso a gol de 58 jardas
para derrotar o Packers no último minuto.
eu ouço pelo rádio
é domingo e estou a caminho das pistas de corrida
devo chegar para o terceiro páreo.
o Falcons segura a vitória e isso é bom.
desligo o rádio.
depois, quando a Harbor Freeway se ramifica
na Pasadena
vejo um cachorro na rampa
é dos grandes e é manco
mas ainda respira
sua cabeça está esmagada.
pessoas que levam cachorros em seus carros
e os deixam dependurados para fora da janela
quando esses cachorros caem na rodovia
muitas vezes elas apenas continuam a dirigir.
eu sei entrar no túnel.
você pega a pista mais à direita quando
as outras pistas desviam à esquerda.
eu sigo e cruzo.
quando saio do túnel
deslizo de volta para a via expressa.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
chego ao hipódromo à 1:20 da tarde.
vou ao estacionamento preferencial
acho uma vaga no F-5
tranco
e enquanto caminho entre os carros
vejo dois homens que
arrombaram um carro.
eles tiraram o rádio,
o estéreo e os alto-falantes.
eles me veem e eu os vejo.
"não diga nada, cara!
se você fizer isso, lembre-se de que nós o veremos
de novo algum outro dia!"
entro no hipódromo
são quatro minutos para apostar
no terceiro páreo que vem aí
a multidão apostou em Shameen
com Delahousseye montando
dando de 4 para 2 a 1.
Song for Two dá uma linha de 2
es.
avalio os cavalos
e aposto 10 em Song for Two na ponta.
Song for Two ganha no fotochart
o Shoe ainda sabe montar
e estou $31 à frente.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
perco o 4o, 50 e 60 páreos.
no 70 eles jogam Back"n Time para baixo
de 3 para 5 em uma tabela de 99
nos cinco quartos de milha em Del Mar
mas o potro tem 3 anos
competindo com cavalos mais velhos
e nunca correu a milha.
posso vê-lo entrando na reta
com uma liderança de 4 corpos e sendo batido
na chegada
por outro.
mas quem vai batê-lo?
ainda há 6 outros cavalos.
eu ponho $50 em Back"n Time na ponta
e assisto à corrida.
o potro tem quatro corpos de vantagem ao entrar
na reta
então Don F.
o menos provável no páreo
começa a chegar perto
e é cabeça a cabeça na chegada.
eles vão ver a foto
nós esperamos
então eles põem Don. F.
com 19 para 1.
eu pego $2.80 pelo placê
assim faço $20
perco o 80
aí fico apenas com $18.
no Jo
aposto 10 na ponta em Fleet Ruler
e 2 na ponta em Forecast
então deixo o hipódromo
fico no estacionamento
escutando o locutor
que está berrando
Forecast está na frente
e aí vem Fleet Ruler
é Fleet Ruler e Forecast
chegando juntos.
é evidentemente no fotochart.
vou até meu carro para sair
antes da multidão.
eu estou com o rádio
na estação dos resultados das corridas.
ainda estou na Pasadena Freeway
quando ouço o resultado:
é Forecast
e Forecast pagou $90.70
assim
o dia não foi de todo desperdiçado.
porém mais tarde
quando entro na via de acesso
lá está aquele gato de Manx
com sua cauda rudimentar e
com sua língua dependurada para fora.
ele se recusa a dar passagem para o carro.
eu desço.
pego-o e
o jogo no banco da frente.
entramos na garagem
juntos.
saímos do carro
e os outros dois gatos estão à espera
(amantes de cabeças de peixes, sonhadores com
pássaros)
abro a porta
e todos os gatos entram junto
comigo.
eles correm para a cozinha
eu noto que Dallas e San Diego estão jogando
agora. Danny White é zagueiro no
Dallas.
eu sempre gostei de Danny White,
esse é um jogador.
eu poderia assistir a algumas rodadas.
domingo é um dia de descanso.
todas as coisas importantes deveriam ser esquecidas.
decido que sequer vou alimentar os gatos
por algum tempo.
e na terça ou quarta-feira vou começar a trabalhar
em meu romance sobre a infância
outra vez.
695

Abandono da Luta

cometeram seu primeiro erro quando
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
1 136

Tristeza no Ar

aqui estou eu sentado sozinho
feito um frouxo
ouvindo Chopin
o vento notumo soprando
através das
cortinas rasgadas.
hoje ganhei 546 dólares nas corridas mas
agora estou pensando que
morrer é uma coisa tão
estranha e ordinária.
só espero nunca precisar
de uma dentadura postiça antes de
ir embora.
Wm. Holden arrebentou sua cabeça
em uma mesa de café
quando bêbado e
sangrou até morrer;
duro e teso por 4 dias
antes de ser encontrado.
pergunto-me: como Chopin se foi?
as coisas passam, isso não é
novidade.
aqui em L.A.
vi tantos bons
lutadores mexicanos
chegarem e irem
subindo pelas
cordas
jovens e cintilantes de
ambição
e depois
se desvanecerem.
para onde eles vão?
onde estão esta noite
enquanto ouço Chopin?
quem sabe se eu não estou em um negócio
melhor?
eu não acho.
escritores também vão embora
depressa
esquecem como criar
uma
frase reta e firme.
então dão aulas
escrevem artigos de crítica
lamentam-se
ficam estragados
somem.
Holden escorregou em
uma passadeira
sua cabeça batendo no criado-mudo
ele tinha um nível de álcool
de .22 no sangue.
quanto a mim
já desabei
muitas vezes usualmente
sobre um fio de telefone.
odeio telefones
de todo modo
sempre que algum toca
eu dou um pulo.
pessoas me perguntam: "por que você
dá um pulo quando o telefone
toca?"
se elas não sabem
você não pode responder
está esfriando.
eu vou fechar a janela.
eu fecho a janela.
Chopin continua.
quando você bebe sozinho
como Wm. Holden
às vezes você tem
alguma coisa em mente
que não se pode contar
a ninguém.
em muitos casos é
melhor ficar
quieto.
não fomos colocados aqui para
gozar dias e noites
tranquilas.
e quando o telefone
toca
você também saberá que
todos nós
estamos no negócio errado.
e se você não souber
o que isso significa
você não sentirá a
tristeza no ar.
1 043

A Palavra Final

sempre no poema
nós erramos por pouco.
ah,
para dizer a palavra final
você precisa
matar o peixe,
jogar fora a
cabeça e o rabo
(especialmente os olhos)
e comer o restante.
há essa fome
de sair pela estrada
procurando aquilo
em um Cadillac 1998,
árvores ao longo da rodovia,
uma lua manchada de estrume,
e passar por cima dele
e sair e
olhar aquilo,
segurar em sua mão
e olhar aquilo,
examiná-lo
(especialmente os olhos)
então jogar fora
e
s'imbora de Cadillac.
648

Os Cães Latem Facas

jesus cristo os cães latem facas
e nos elevadores
homens como brinquedos de armar
decidem minha vida e minha morte;
os falcões são vesgos
e não há nada para salvar;
saibamos o impossível
saibamos que homens fortes morrem aos magotes,
saibamos que o amor é comprado e criado
como um cão de estimação - um cão que late facas
ou um cão que late amor;
saibamos que viver uma vida
entre bilhões de idiotas com a sensibilidade de moléculas
é em si uma arte;
saibamos manhãs e noites e
perfídia;
partamos com as andorinhas
linchemos a última esperança
encontremos o cemitério dos elefantes
e o cemitério dos loucos;
e aqueles que cantam suas próprias canções
que as cantem para os idiotas e os mentirosos
e os planejadores de estratégias
em um jogo chato demais para as crianças;
só existe um modo de viver
que é estar só,
e só um modo de morrer, que é o mesmo;
ouvi a marcha de seus exércitos
por todos esses anos;
que aborrecido -
o que eles querem e o que eles ganharam;
que aborrecido eles serem meus donos
e provavelmente me seguirem na morte
trazendo mais morte à morte;
o caminho todo é oco -
eu toco um pequeno anel no meu dedo
e respiro o ar
derrotado.
1 125

Outra das Minhas Críticas

não escrevo um bom poema
há semanas. ela tem 15
e entra.
"seu filho da mãe, quando é que você vai
sair da cama?"
são dez para o meio-dia
então eu me levanto e vou até a máquina de escrever.
ela entra com um boné de beisebol dos Yankees e
me encara.
"NÃO ME ENCHE?", eu grito. "EU ESTOU ESCREVENDO!"
"imbecil", ela diz e sai da sala.
olhando para aquela página de papel em branco
começo a achar que alguns dos meus críticos têm
razão.
ela entra de novo na sala e olha para
mim.
"babaca", ela diz, "olá, babaca."
eu a ignoro.
ela chega perto e puxa a minha barba.
"ei, quando é que você vai tirar essa máscara?
estou cheia dessa máscara."
em seguida ela vai ao banheiro
e com a porta aberta ela caga na privada.
ela se esforça: "urrg, urrg, urrg..."
dou uma olhada.
"ouça, você supostamente deveria
fechar a porta do banheiro quando você faz isso."
"bem, então feche, panaca", ela diz.
levanto e fecho a porta.
conheço um escritor que gastou 2 mil dólares
para ter um quarto revestido de cortiça para
ele mas isso não adiantou nada para melhorar seu
trabalho. acho que vou tentar a sorte
desse jeito.
1 054

Adolf

tenho um amigo que tem um
álbum de recortes dedicado a Hitler
e seus companheiros nazistas
e as paredes estão
cobertas de velhos
instantâneos de Al Capone
Fatty Arbuckle
Roy Rogers e
muitos muitos outros.
as paredes estão tortas de cola apodrecendo
e memórias, e há
interruptores escondidos que disparam
um frenesi de luzes
coloridas -
cada padrão diferente, nunca
o mesmo -
e descendo até seu porão há toneladas de
papéis inchados pela chuva
e comidos pelos
ratos: é muito
escuro lá embaixo
e há muitas pinturas meio inacabadas com
um olho que o encara
do assoalho.
saímos e
subimos por uma
escada sifilítica e voltamos
à cozinha onde
uma cabeça de porco está nadando
em uma panela branca
muito grande junto com
cebolas
cenouras
batatas,
uma cebola pequena flutuando em um
olho vazio,
e aí está a
filha dele
com a altura de 65 centímetros
que se lembra de mim
do outro
dia.
ela nos diz algumas coisas genuinamente
divertidas
depois se retira para
um quarto de dormir
no andar de cima
enquanto seu pai e eu ficamos por lá
ouvindo antigas canções
alemãs de marchas
e fumando
Picayunes.
666

Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha

rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
974

Citações

2

Livros

11

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