Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

O Caixão da Criação

o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
870

Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha

rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
970

Nunca Trago Minha Mulher

estaciono, saio, tranco o carro, é um dia perfeito, calmo
e agradável. eu me sinto bem, começo a caminhar em direção à
entrada e um gordinho se junta a mim. ele caminha a meu lado.
não sei de onde saiu.
"oi", ele diz, "como vai você?"
"tudo bem", eu digo.
ele diz, "acho que você não se lembra de mim. você me viu
talvez duas ou três vezes".
"pode ser", eu digo. "venho às pistas todo dia."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
"qual você prefere para a ponta?", ele pergunta.
eu lhe digo que ainda não comprei meu boletim do turfe.
seguimos e eu ando mais depressa. ele se esforça para me acompanhar.
"onde você fica?", ele pergunta.
eu lhe digo que fico em diversos lugares.
"esse maldito Gilligan", ele diz, "é o pior
jóquei aqui. eu perdi uma nota nele o outro dia. por que
eles o usam?"
eu digo a ele que Whittingham e Longden acham que está tudo certo
com ele.
"com certeza, eles são amigos", ele responde. "sei alguma coisa sobre
Gillingan. quer saber?"
eu lhe digo para esquecer.
estamos chegando perto da banca de jornal junto da entrada
e me viro na direção dela como se fosse comprar
um jornal.
"boa sorte", eu digo e desvio.
ele parece perplexo. seus olhos parecem chocados. ele me lembra
uma mulher que só se sente segura quando o polegar de alguém está
em seu rabo.
ele olha ao redor, acha um homem de cabelo grisalho que
manca, apressa-se, alcança o velho e começa
a conversar com ele.
compro meu ingresso, acho um lugar longe de todo mundo, sento.
tenho sete ou oito bons minutos sossegados, então escuto um
movimento: um cara senta-se perto de mim, não a meu
lado mas a um assento de distância embora haja centenas de
assentos vazios.
outro Mickey Mouse, eu penso. por que será que eles sempre me
acham?
continuo a fazer meus cálculos.
então ouço a voz dele: "Blue Baron vai levar
a ponta."
faço uma nota para riscar aquele cachorro e dou uma olhada e
me parece que essa observação me foi dirigida; não há
mais ninguém em 15 jardas ao redor.
vejo a cara dele.
ele tem uma cara que a maioria das mulheres adoraria: extremamente
macia e
branca.
ele permaneceu quase intocado pelas circunstâncias, é um
milagre do zero.
eu o encaro encantado.
é como olhar um lago de leite
nunca perturbado nem por uma pedrinha.
volto a olhar para meu boletim.
"qual você prefere?", ele pergunta.
"senhor", eu lhe digo, "prefiro não falar."
ele me olha por trás de seu bigode negro perfeitamente
aparado, não há nenhum pelo fora do lugar;
eu tentei bigodes; nunca liguei o bastante para espelhos
para deixar um bigode parecer tão antinatural.
ele diz, "ouvi falar de você. você não gosta de falar
com ninguém".
levanto, pego meus papéis, caminho por três fileiras para baixo e 16
assentos adiante. chego a meu último refúgio, pego meus
protetores de ouvido vermelhos, enfio-me neles.
ser o guardião de meu irmão só iria fazer com que eu me recolhesse
entre muros em um lugar
onde tudo é a mesma coisa.
sinto pelos solitários, sinto por suas necessidades, mas também sinto
que os solitários são feitos uns para os outros e que eles deveriam se
encontrar
uns aos outros e me deixar em paz.
assim, de protetores de ouvido, perco a cerimônia de hasteamento da
bandeira, mergulhado no boletim.
eu teria gostado de ser humano
se eles deixassem que eu fosse.
ir às pistas de corrida é como ir a qualquer outro lugar exceto,
falando genericamente,
que há mais pessoas solitárias por lá, o que não adianta muito.
elas têm o direito de estar lá e eu tenho o direito de estar lá.
isto é uma democracia e todos nós fazemos parte de uma
família infeliz.
1 061

A Velha

ela vivia na última casa velha
do quarteirão -
você conhece o tipo: coberta de trepadeiras, escura, quieta.
seus vizinhos haviam ido embora -
nada a não ser prédios de apartamentos de muitos andares por todo lugar.
era vista duas ou três vezes por semana
empurrando seu carrinho de compras sobre duas rodas;
depois ela voltava com coisas empacotadas,
entrava na casa, e era só
isso. nunca falou com ninguém.
foi na semana passada por volta das 3:30 da tarde
que a casa dela começou a deslizar sobre os alicerces.
era um deslizamento muito lento
passando a impressão de que a casa só estava dando um passo
à frente para dar um passeio rua abaixo -
exceto por algumas tábuas que começaram a estalar -
soava como tiros de espingarda, e a casa gemeu só um
pouco - um sombrio gemido verde.
alguém chamou o corpo de bombeiros
e homens corriam ao redor desligando o gás
e berrando uns com os outros
e dizendo à multidão para se afastar
e logo veio um desses caminhões da TV
e eles filmaram a casa
inclinando-se para a rua.
então a porta da frente se abriu e a velha
senhorinha saiu.
miraram a câmera nela e uma mulher veio correndo com um
microfone.
"há quanto tempo a senhora mora nesta casa?"
"5o anos."
"a senhora tem seguro?"
Nao 33
"o que a senhora vai fazer
agora?"
"voltar para a Irlanda", ela disse.
então ela saiu andando e deixou todos eles parados
lá.
1 072

4 Quarteirões

levei minha filha de carro até o auditório da escola
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
1 033

Dois Tipos de Inferno

frequentei o mesmo bar por 7 anos, das 6 da manhã
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
1 242

Cachorro Morto

Bartkowski completou um arremesso a gol de 58 jardas
para derrotar o Packers no último minuto.
eu ouço pelo rádio
é domingo e estou a caminho das pistas de corrida
devo chegar para o terceiro páreo.
o Falcons segura a vitória e isso é bom.
desligo o rádio.
depois, quando a Harbor Freeway se ramifica
na Pasadena
vejo um cachorro na rampa
é dos grandes e é manco
mas ainda respira
sua cabeça está esmagada.
pessoas que levam cachorros em seus carros
e os deixam dependurados para fora da janela
quando esses cachorros caem na rodovia
muitas vezes elas apenas continuam a dirigir.
eu sei entrar no túnel.
você pega a pista mais à direita quando
as outras pistas desviam à esquerda.
eu sigo e cruzo.
quando saio do túnel
deslizo de volta para a via expressa.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
chego ao hipódromo à 1:20 da tarde.
vou ao estacionamento preferencial
acho uma vaga no F-5
tranco
e enquanto caminho entre os carros
vejo dois homens que
arrombaram um carro.
eles tiraram o rádio,
o estéreo e os alto-falantes.
eles me veem e eu os vejo.
"não diga nada, cara!
se você fizer isso, lembre-se de que nós o veremos
de novo algum outro dia!"
entro no hipódromo
são quatro minutos para apostar
no terceiro páreo que vem aí
a multidão apostou em Shameen
com Delahousseye montando
dando de 4 para 2 a 1.
Song for Two dá uma linha de 2
es.
avalio os cavalos
e aposto 10 em Song for Two na ponta.
Song for Two ganha no fotochart
o Shoe ainda sabe montar
e estou $31 à frente.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
perco o 4o, 50 e 60 páreos.
no 70 eles jogam Back"n Time para baixo
de 3 para 5 em uma tabela de 99
nos cinco quartos de milha em Del Mar
mas o potro tem 3 anos
competindo com cavalos mais velhos
e nunca correu a milha.
posso vê-lo entrando na reta
com uma liderança de 4 corpos e sendo batido
na chegada
por outro.
mas quem vai batê-lo?
ainda há 6 outros cavalos.
eu ponho $50 em Back"n Time na ponta
e assisto à corrida.
o potro tem quatro corpos de vantagem ao entrar
na reta
então Don F.
o menos provável no páreo
começa a chegar perto
e é cabeça a cabeça na chegada.
eles vão ver a foto
nós esperamos
então eles põem Don. F.
com 19 para 1.
eu pego $2.80 pelo placê
assim faço $20
perco o 80
aí fico apenas com $18.
no Jo
aposto 10 na ponta em Fleet Ruler
e 2 na ponta em Forecast
então deixo o hipódromo
fico no estacionamento
escutando o locutor
que está berrando
Forecast está na frente
e aí vem Fleet Ruler
é Fleet Ruler e Forecast
chegando juntos.
é evidentemente no fotochart.
vou até meu carro para sair
antes da multidão.
eu estou com o rádio
na estação dos resultados das corridas.
ainda estou na Pasadena Freeway
quando ouço o resultado:
é Forecast
e Forecast pagou $90.70
assim
o dia não foi de todo desperdiçado.
porém mais tarde
quando entro na via de acesso
lá está aquele gato de Manx
com sua cauda rudimentar e
com sua língua dependurada para fora.
ele se recusa a dar passagem para o carro.
eu desço.
pego-o e
o jogo no banco da frente.
entramos na garagem
juntos.
saímos do carro
e os outros dois gatos estão à espera
(amantes de cabeças de peixes, sonhadores com
pássaros)
abro a porta
e todos os gatos entram junto
comigo.
eles correm para a cozinha
eu noto que Dallas e San Diego estão jogando
agora. Danny White é zagueiro no
Dallas.
eu sempre gostei de Danny White,
esse é um jogador.
eu poderia assistir a algumas rodadas.
domingo é um dia de descanso.
todas as coisas importantes deveriam ser esquecidas.
decido que sequer vou alimentar os gatos
por algum tempo.
e na terça ou quarta-feira vou começar a trabalhar
em meu romance sobre a infância
outra vez.
683

Meu Pai

meu pai gostava de regras e de fazer as coisas
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
1 436

Porrada Importada

eles seguem trazendo lutadores para cá
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
922

Meu Fiel Servo Índio

eu me virei para acender
a luz. a luz já estava
acesa. eu não estava legal. "Hudnuck!"
berrei para meu fiel servo
índio. "vá chupar meu saco," ele respondeu.
na luz mortiça
eu o vi no sofá com
minha mulher. eu saí
e toquei minha corneta.
3 camelos responderam a meu chamado e vieram
correndo atravessando o quintal.
"Hudnuck!", eu berrei.
"segure a sua onda, paizinho", ele respondeu,
"até eu acabar."
toquei minha corneta. nada aconteceu.
estava cheia de cuspe e
lágrimas.
Hudnuck apareceu na
varanda, fechando seu zíper.
"quero um aumento", ele disse,
"estou trabalhando para nada."
"e eu estou vivendo para nada, Hud:
você não percebe que
eu estou acabado?"
"não fale assim", ele disse,
"você tem uma boa mulher."
minha mulher apareceu na
varanda, "o que você vai querer para
o desjejum, querido?", ela
perguntou.
"bacon e ovos", eu respondi.
"você não, seu maluco!", ela gritou.
"bife e salsicha de fígado", disse
Hudnuck.
"obrigada, querido", disse minha boa
mulher, retornando a nosso
ninho.
toquei minha corneta. um corvo respondeu.
Hudnuck arrancou a corneta
da minha mão. ele a esfregou
na frente da minha melhor
camisa. (ele a estava
usando.)
ele tocou "Hearts and Flowers"
na maldita coisa. meus olhos
ficaram marejados de lágrimas.
resolvi dar-lhe um
aumento. olhando sobre o ombro, eu o vi
retorcer minha cometa até que ela
tomasse a forma de uma cruz
enquanto ele tocava "It Ain't Gonna
Rain No More".
ele tinha mãos fortes, delicadas,
belas. olhei para minhas próprias
mãos, primeiro não consegui achá-las, então
rapidamente
eu as tirei dos meus bolsos
eo
aplaudi.
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Mário Quintana
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