Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Abandono da Luta

cometeram seu primeiro erro quando
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
1 129

Tristeza no Ar

aqui estou eu sentado sozinho
feito um frouxo
ouvindo Chopin
o vento notumo soprando
através das
cortinas rasgadas.
hoje ganhei 546 dólares nas corridas mas
agora estou pensando que
morrer é uma coisa tão
estranha e ordinária.
só espero nunca precisar
de uma dentadura postiça antes de
ir embora.
Wm. Holden arrebentou sua cabeça
em uma mesa de café
quando bêbado e
sangrou até morrer;
duro e teso por 4 dias
antes de ser encontrado.
pergunto-me: como Chopin se foi?
as coisas passam, isso não é
novidade.
aqui em L.A.
vi tantos bons
lutadores mexicanos
chegarem e irem
subindo pelas
cordas
jovens e cintilantes de
ambição
e depois
se desvanecerem.
para onde eles vão?
onde estão esta noite
enquanto ouço Chopin?
quem sabe se eu não estou em um negócio
melhor?
eu não acho.
escritores também vão embora
depressa
esquecem como criar
uma
frase reta e firme.
então dão aulas
escrevem artigos de crítica
lamentam-se
ficam estragados
somem.
Holden escorregou em
uma passadeira
sua cabeça batendo no criado-mudo
ele tinha um nível de álcool
de .22 no sangue.
quanto a mim
já desabei
muitas vezes usualmente
sobre um fio de telefone.
odeio telefones
de todo modo
sempre que algum toca
eu dou um pulo.
pessoas me perguntam: "por que você
dá um pulo quando o telefone
toca?"
se elas não sabem
você não pode responder
está esfriando.
eu vou fechar a janela.
eu fecho a janela.
Chopin continua.
quando você bebe sozinho
como Wm. Holden
às vezes você tem
alguma coisa em mente
que não se pode contar
a ninguém.
em muitos casos é
melhor ficar
quieto.
não fomos colocados aqui para
gozar dias e noites
tranquilas.
e quando o telefone
toca
você também saberá que
todos nós
estamos no negócio errado.
e se você não souber
o que isso significa
você não sentirá a
tristeza no ar.
1 026

A Camiseta de Bandeira Americana

agora cada vez mais
toda essa gente por aí
usando a Camiseta de Bandeira Americana
e era mais ou menos suposto
(eu acho mas não tenho certeza)
que usar uma C.B.A. significa que você está mijando
nela
mas agora
eles continuam a fazê-las
e todo mundo continua a comprá-las
e a usá-las
e as caras são todas iguais
à Camiseta de Bandeira Americana -
esse aí tem essa cara e aquela camisa
esse aí tem aquela camisa e essa cara -
e alguém está gastando dinheiro
e alguém está ganhando dinheiro
e à medida que os patriotas ficarem
cada vez mais na moda
será bonito
quando todo mundo olhar ao redor
e achar que todos agora são patriotas
e daí
quem vai sobrar para
persegui-los
exceto seus
filhos?
787

Nota Sobre Alguém Que Bate À Porta

é? eu disse, é isso
mesmo?
sim, ele disse, ela mora em
Malibu, vou vê-la esta
noite.
ah, eu disse, foi uma relação
duradoura?
diabo, não, ele disse, não sou um
masoquista.
ele mexia em sua corrente de ouro
e falava sobre
poesia. ele falou sobre poesia
por uma
hora.
não sou um masoquista, tampouco, eu disse,
então você poderia
cair fora
daqui?
ele foi embora. mas eu sabia que ele
voltaria.
ele falava sobre
poesia. eu a
escrevia.
ele não conseguia entender
que isso e nós
não éramos
iguais.
1 097

9 Da Manhã

em chamas como um forte incendiado
a primeira nota de "impromptu" -
luz do sol -
agressora traidora
irrompendo através de beijos e perfume e nylon,
mostrando uma cidade com dentes quebrados
e leis loucas,
trazendo um beco em ruínas ao olho,
este diamante bruto;
e na palma da minha mão
uma pequena ferida
vermelho-cereja
que nem Cristo iria ignorar
enquanto as mulheres passam
arranhando suas mudanças de marcha arrebentadas
e cercas vivas e cães mimados
soltando fogo enquanto
você queima:
o sol das 9 da manhã
nos dá maçãs e putas
e agora agradecido
posso novamente me lembrar
de quando eu era jovem
de quando eu caminhava em ouro
de quando rios tinham espelhos
e não havia fim.
1 039

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 149

Uma Entrevista aos 70

o entrevistador se inclina na minha
direção, "alguns dizem que você não é mais
tão selvagem como costumava
ser",
"bem", eu disse, "não posso continuar para
sempre escrevendo poemas sobre
derramar cerveja no colo das
putas.
um homem amadurece e se move em direção a outras
coisas."
"mas alguns ainda querem o mesmo
velho Chinaski!"
"e isso é o que eles
têm", eu digo.
"conte-nos sobre as corridas
de cavalos", ele sugere.
"não há nada para
contar."
"você tem que esperar
até ele ficar legal
até depois da meia-noite
para ouvir as coisas realmente
boas",
diz minha mulher.
o entrevistador não está
acostumado a esperar.
ele olha suas
anotações.
ele quer algumas
grandes declarações, algumas
grandes conclusões,
algo grande que
aconteça agora.
ele está confuso devido a seus
equívocos e
preconceitos.
e a pior coisa
nele?
ele não é
selvagem
o bastante.
1 242

Você Escreve Poemas Demais Sobre A Morte

sim, € aqui vai mais um
que talvez possa até mesmo acabar em um dos meus
livros.
e
o livro estará parado em uma
prateleira de estante
esperando por você
muito tempo depois de eu ter
partido.
pense nisto:
em um sentido eu estarei falando outra vez
só para Você.
e lembre-se disto:
a página para a qual você está olhando
agora,
certa vez eu datilografei as palavras
com cuidado
pensando em você
sob uma luz
amarela
com o rádio
ligado.
se você pensar sobre a morte
por bastante tempo
eu descobri
que ela pertence
que ela faz sentido
assim como
esta máquina de escrever
esta caixa de fósforos
este clipe de papel
e
a próxima página
e o próximo poema
depois deste
aqui.
1 151

O Bombardeio de Berlim

os americanos e ingleses atacavam, ele me contou,
nada podia detê-los,
tinham luzes vermelhas e azuis em seus aviões
e estavam à vontade,
e era engraçado, você sabe,
uma bomba acabava com um quarteirão inteiro
e deixava o quarteirão ao lado em pé,
intocado.
uma vez, depois de um ataque aéreo, ouvimos um piano tocando
debaixo dos destroços
e lá estava uma velha senhora debaixo daquilo tocando piano,
o prédio havia desabado ao redor dela,
e a havia soterrado ali e ela continuava a tocar o
piano.
depois de um tempo, quando os aviões chegavam e chegavam de novo
não nos dávamos mais ao trabalho de ir ao abrigo subterrâneo,
só ficávamos onde quer que estivéssemos
no primeiro e segundo andares e olhávamos para cima
e observávamos
as luzes vermelhas e azuis e pensávamos,
malditos!
bem, ele disse, servindo-se de sua cerveja com um suspiro,
nós perdemos a guerra, e é só isso
mesmo.
1 052

Outra das Minhas Críticas

não escrevo um bom poema
há semanas. ela tem 15
e entra.
"seu filho da mãe, quando é que você vai
sair da cama?"
são dez para o meio-dia
então eu me levanto e vou até a máquina de escrever.
ela entra com um boné de beisebol dos Yankees e
me encara.
"NÃO ME ENCHE?", eu grito. "EU ESTOU ESCREVENDO!"
"imbecil", ela diz e sai da sala.
olhando para aquela página de papel em branco
começo a achar que alguns dos meus críticos têm
razão.
ela entra de novo na sala e olha para
mim.
"babaca", ela diz, "olá, babaca."
eu a ignoro.
ela chega perto e puxa a minha barba.
"ei, quando é que você vai tirar essa máscara?
estou cheia dessa máscara."
em seguida ela vai ao banheiro
e com a porta aberta ela caga na privada.
ela se esforça: "urrg, urrg, urrg..."
dou uma olhada.
"ouça, você supostamente deveria
fechar a porta do banheiro quando você faz isso."
"bem, então feche, panaca", ela diz.
levanto e fecho a porta.
conheço um escritor que gastou 2 mil dólares
para ter um quarto revestido de cortiça para
ele mas isso não adiantou nada para melhorar seu
trabalho. acho que vou tentar a sorte
desse jeito.
1 045

Citações

2

Obras

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Mário Quintana
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