Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
Os Sapatos de Jane
meus sapatos no armário como lírios
esquecidos,
meus sapatos agora sós
como cães andando por ruas mortas,
e eu recebi uma carta de uma
mulher em um hospital,
amor, ela diz, amor,
mas eu não lhe respondo,
eu não me entendo,
ela me envia fotografias
dela mesma
tiradas no hospital
e eu me lembro dela em outras
noites,
não morrendo,
seus sapatos com saltos como punhais
ao lado dos meus
no armário;
como aquelas noites fortes
mentiram para nós,
como aquelas noites ficaram quietas
enfim,
meus sapatos agora sós no armário,
sobrevoados por casacos e
camisas amassadas,
e eu olho para a abertura deixada
pela porta
e as paredes, e não
escrevo
uma resposta.
Como Uma Flor Na Chuva
cortei a unha do dedo médio
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia para cama com mulher nenhuma. Não tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher – mesmo em termos não-sexuais – estava além da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima de seis anos. Vivia com a mãe e eu pagava pensão alimentícia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divórcio. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta também, embora eu não tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divórcio. Nunca as respondi...
Não tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrás, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionário dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixei como objetivo uma média de dez páginas por noite, mas nunca sabia antes da manhã seguinte quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, então ia até a sala e dava uma olhada no sofá para ver quantas páginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Às vezes eram 17, 18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que não prestava, jogado fora. Foram necessárias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietários do condomínio onde eu morava então viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhãs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteúdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles até as quatro ou cinco da manhã. O velho apagava, e a velha e eu ficávamos de mãos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era católica e ficava uma gracinha quando botava seu chapéu cor-de-rosa e saía para ir à igreja domingo de manhã.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
– Porra – ele me disse –, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem à Índia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, então pedi um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridão. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. Então, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mãos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que não combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade – era impossível não notá-la. Podia sentir as vibrações circulando entre a gente. Algumas das vibrações eram confusas, não eram boas, mas também estavam lá. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
– Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aí!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer às mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saí, guiando de volta para casa.
– Mulheres
Unhas; Narinas; Cadarços
a tubulação de gasolina está vazando, o pássaro fugiu da
gaiola, a linha do horizonte está salpicada de urubus;
Benny finalmente largou a droga e Betty agora tem um emprego
de garçonete; e
o limpa-chaminés foi tão delicado enquanto
dava risadinhas no meio da
fuligem.
caminhei milhas pela cidade e não reconheci
nada enquanto uma garra gigante comia meu
estômago e o interior da minha cabeça estava
aéreo como se eu estivesse a ponto de ficar
louco.
nem é tanto por nada fazer sentido
algum, porém mais por continuar não fazendo sentido
nenhum.
não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer.
até mesmo os melhores livros são serragem seca.
eu assisto às lutas de boxe e tomo notas
copiosas sobre futilidade.
então as portas se abrem novamente
e há esses lindos e poderosos cavalos
sedosos galopando
contra o céu.
tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação.
na minha mão jaz o último pássaro azul.
as cortinas rugem como leões e as paredes
chocalham, dançam em volta da minha
cabeça.
então seus olhos me olham, o amor parte meus
Ossos e eu
dou risada.
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
Conselho Amigável Para Muitos Jovens
Vá para o Tibet.
Monte em um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra à prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas não escreva poesia.
Para acalmar Lydia, concordei em ir até Muleshead, Utah. Sua irmã estava acampando nas montanhas. As irmãs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmãs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmãs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. Tínhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negócio pavoroso.
Na manhã seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o café da manhã. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluíam uma quantidade razoável de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o café. Ajudei com os pratos e então Glendoline trouxe sua novela e começou a lê-la para nós. Não era de todo má, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tão fascinados quanto ela por sua própria vida – o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei até a fonte e voltei com três garrafas de cerveja. As garotas disseram não, não queriam beber. Eram bastante contrárias à cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo não era o velho beijo da morte, não sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela já ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
– SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERÁ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente não estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
– Vamos dar uma caminhada.
– Não – ela disse –, quero ler este livro. – Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionário para a realização sexual.
– Tudo bem – eu disse –, vou dar uma caminhada então.
Caminhei até a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por não falarem de outra coisa o tempo todo. Eu também gostava de foder, mas não fazia disso minha religião. Havia uma série de coisas ridículas e ao mesmo trágicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. Então transformaram o negócio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na água. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flácido. Entrei na água gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fôlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à água lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a água voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e então lá estava: minha primeira cachoeira de verdade. A água simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliência na pedra. Era uma coisa linda. A água não parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia três ou quatro córregos que era bem provável que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, também, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rápido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e então prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta à procura do lago. Não conseguia encontrá-lo, não sabia mais onde ele estava. De súbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor árvores e mato. Não havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexão entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? Lá um homem poderia chamar um táxi, dar um telefonema. Havia soluções razoáveis para problemas razoáveis.
Vance Pastures se estendia à minha volta por quilômetros e quilômetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! Já podia ver a notícia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionário dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo também foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os últimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa área pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertá-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu não devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia não haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lá em cima, fiz uma concha com minhas mãos ao redor da boca e gritei:
– LYDIA!
Não houve resposta.
Tentei novamente:
– LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
– Ei, essa música é ótima para dançar! Quem está querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otário.
Mais adiante avistei um portão do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portão era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele só aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
– LYDIA!
Não havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portão. Tudo o que eu precisava fazer era contorná-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portão, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Será que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu já tenha visto. Era inacreditável. Estávamos a um metro de distância, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de água corrente. Eu precisava de água. Não se podia viver por muito tempo sem água. Abandonei a estrada e segui na direção do som da água corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lá estava: água corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e então para um tipo de reservatório. Sentei-me à beira do reservatório e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na água. Então despejei água sobre minha cabeça. Depois a bebi – mas não muito ou muito depressa –, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num píer que se projetava sobre o reservatório. Caminhei até ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do píer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provável que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca não cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Às vezes eu errava o golpe e minha mão atingia o cadeado ou a própria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um último golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. Não tinha nenhum telefone lá dentro. Havia uma série de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mão ali, toquei num dos fios e levei um choque terrível. Então acionei um dos comandos. Escutei o rugir das águas. De três ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de água. Puxei outro dos comandos. Mais três ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de água. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar água. Fiquei ali parado, assistindo a água se espalhar. Talvez eu pudesse dar início a uma inundação, de modo que os caubóis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. Já podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu já não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradável e digno de confiança.
– Não fuja, garotinha. Não vou machucar você. ESTOU PERDIDO! Onde estão seus pais? Garotinha, me leve até seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
– EI, ESTOU PERDIDO! – gritei. – POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCÊ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
– Vamos lá, garoto da cidade – ela disse. – Me siga até em casa.
– Estou tão feliz em ver você, baby, me beija!
– Não. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difícil acompanhá-la.
– Perguntei pro pessoal aí se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas – ela gritou, por sobre o ombro. – E eles disseram: não.
– Lydia, eu te amo!
– Vamos, você parece uma lesma!
– Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu não consegui. Fiquei preso. Não podia me mover. Era como uma vaca presa.
– LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
– Eu segui você. Encontrei o seu caderninho vermelho. Você se perdeu de propósito só porque estava puto da cara.
– Não, eu me perdi por causa da minha ignorância, do meu medo. Não sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, não tenho absolutamente nada a oferecer.
– Jesus – ela disse –, você acha, por acaso, que eu não sei disso?
Libertou-me do último arame. Lancei-me atrás dela. Eu estava outra vez com Lydia.
– Mulheres
Enfeitiçado em Nova York
a senhora foi a mais infiel e terrível que eu jamais havia
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”