Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia para cama com mulher nenhuma. Não tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher – mesmo em termos não-sexuais – estava além da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima de seis anos. Vivia com a mãe e eu pagava pensão alimentícia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divórcio. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta também, embora eu não tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divórcio. Nunca as respondi...
Não tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrás, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionário dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixei como objetivo uma média de dez páginas por noite, mas nunca sabia antes da manhã seguinte quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, então ia até a sala e dava uma olhada no sofá para ver quantas páginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Às vezes eram 17, 18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que não prestava, jogado fora. Foram necessárias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietários do condomínio onde eu morava então viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhãs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteúdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles até as quatro ou cinco da manhã. O velho apagava, e a velha e eu ficávamos de mãos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era católica e ficava uma gracinha quando botava seu chapéu cor-de-rosa e saía para ir à igreja domingo de manhã.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
– Porra – ele me disse –, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem à Índia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, então pedi um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridão. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. Então, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mãos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que não combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade – era impossível não notá-la. Podia sentir as vibrações circulando entre a gente. Algumas das vibrações eram confusas, não eram boas, mas também estavam lá. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
– Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aí!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer às mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saí, guiando de volta para casa.
– Mulheres
Aposta Arriscada
claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
Meu Velho
16 anos de idade
durante a depressão
cheguei em casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias –
pastas, e páginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mãe estava me
esperando atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, leu
suas histórias...”
“posso chutar a
bunda dele...”
“Henry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para você.”
mas o que o preocupava era
que eu talvez não
terminasse o colegial
então eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, “este é
um grande conto”.
eu disse, “o.k.”
e ele me alcançou
e eu li.
era uma história sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrás de uma xícara de café
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi então que voltou
para seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a história em suas mãos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
não tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
então eu lhe disse,
“o.k., velho, você pode
ficar com ela”.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais próximo
que jamais estivemos.
Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
– Meu filho, cada homem, durante seu período de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. Então, esse filho também compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. Já são duas. Este último compraria uma nova e aí seriam três casas...
A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, misture com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você teria o necessário.
Olhei para meu pai, para suas mãos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mãe simplesmente não existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu não enxergava nada além de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. Séculos de sangue de camponês e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma série de camponeses servis que haviam aberto mão de suas vidas reais em troca da ilusão de lucros esporádicos e ilusórios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
– Não quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivência pudessem me moldar, enquanto eu assistia àqueles garotos ricos desfilarem em seus cupês cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achá-los até um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, através dos séculos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupês creme com os rapazes sorridentes. Elas não podiam fazer nada, é claro, muito embora você sempre acabe pensando que talvez... Mas não, não havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitória, e vitória era a única realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei não pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressão de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginásio feminino com música ao vivo, uma banda de verdade. Não sei bem por que, mas andei até lá naquela noite, os quatro quilômetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, através das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adoráveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase não as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a música vinha alta e límpida e boa, potente.
Então vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirá-los – marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
Então ouvi um barulho às minhas costas.
– Ei, o que você está fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
– Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
– Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
– Quem é você? – perguntei.
– Sou o guarda noturno. Tire seu rabo já daqui antes que eu chame a polícia!
– Por quê? Esse é o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
– Não vem com essa – ele disse. – Você tem pelo menos uns 22 anos!
– Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
– Por que você não está lá dentro dançando?
– Esqueça. Estou indo pra casa.
– Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradável e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas não tive certeza.
– Misto-quente
Brilho Roxo
vejo os sapatos
de salto alto e uma rosa branca murcha
que jaz no bar
como um punho
cerrado.
uísque faz o coração bater mais depressa
mas com certeza não ajuda a
mente e não é engraçado como você pode sentir dor
só com o mortífero rumor da
existência?
vejo essa
dançarina de striptease correndo ao longo do balcão
do bar
rebolando aquilo que ela acha
mágico
com todas aquelas caras encarando
por cima dos drinques
caros demais.
e eu? aqui? porra nenhuma,
realmente, não ligava para
ela mas amo a pulsação da
música alta e chapada tamborilando
no brilho roxo, qualquer
coisa sobre isso tudo: dificilmente
me senti melhor alguma vez.
eu a olho, a boneca
roxa tão
triste tão barata tão
triste, você nunca iria querer ir
para a cama com ela ou mesmo escutar sua
conversa, no entanto naquele lugar bêbado
você iria
gostar de passar seu coração para ela
e dizer
toque-o
mas depois
devolva-o.
ela dança tão vigorosamente agora no
brilho roxo,
o roxo mexe comigo de modo estranho:
houve uma noite
30 anos atrás
eu estava bêbado, é verdade, e havia
um Cristo roxo em uma caixa de vidro
do lado de fora de uma igrejinha e eu
arrebentei o vidro, eu quebrei
o vidro, e aí alcancei e toquei
Cristo mas
Ele era apenas um boneco e eu escutei as
sirenes em seguida e comecei
a correr.
bem, minha mente nunca mais foi €a mesma
desde então e bater à máquina ajuda mas você não pode
bater à máquina o tempo todo, assim a dançarina de striptease agora
parte o que sobrou do meu coração e eu
não sei por que mas começo a dar dinheiro
para todo mundo no bar, dou uma nota de cinco para esse
cara, uma de dez para aquele, acho que talvez possa
despertá-los para a sabedoria
disso tudo
mas eles nem sequer dizem
"obrigado", acham que sou apenas um
louco.
o gerente chega e diz
que estou expulso dali, passo-lhe uma nota de
vinte, ele a
pega.
dois amigos
estavam sentados em uma mesa
dos fundos, eles me ajudam a levantar e sair do
bar.
acho a situação muito
engraçada mas eles estão
furiosos:
cadê o seu carro?
cadê a porra do seu
carro?
eu digo, eu
sei lá.
que merda, eles
dizem e
me deixam sentado sozinho
nos degraus de
um prédio
de apartamentos.
acendo e fumo um cigarro.
depois me levanto e começo a longa
caminhada, uma caminhada que sei
que levará pelo menos umas duas
horas
até eu achar meu carro (experiência anterior)
mas eu sei que ao
encontrá-lo o turbilhão de
felicidade será
tudo de que preciso
e serei capaz de
recomeçar
a minha vida
mais uma vez.
Unhas; Narinas; Cadarços
a tubulação de gasolina está vazando, o pássaro fugiu da
gaiola, a linha do horizonte está salpicada de urubus;
Benny finalmente largou a droga e Betty agora tem um emprego
de garçonete; e
o limpa-chaminés foi tão delicado enquanto
dava risadinhas no meio da
fuligem.
caminhei milhas pela cidade e não reconheci
nada enquanto uma garra gigante comia meu
estômago e o interior da minha cabeça estava
aéreo como se eu estivesse a ponto de ficar
louco.
nem é tanto por nada fazer sentido
algum, porém mais por continuar não fazendo sentido
nenhum.
não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer.
até mesmo os melhores livros são serragem seca.
eu assisto às lutas de boxe e tomo notas
copiosas sobre futilidade.
então as portas se abrem novamente
e há esses lindos e poderosos cavalos
sedosos galopando
contra o céu.
tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação.
na minha mão jaz o último pássaro azul.
as cortinas rugem como leões e as paredes
chocalham, dançam em volta da minha
cabeça.
então seus olhos me olham, o amor parte meus
Ossos e eu
dou risada.
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
40 Anos Atrás Naquele Quarto de Hotel
na Union Avenue, 3 da manhã, Jane e eu estávamos
bebendo vinho barato desde o meio-dia e eu andava de pés descalços
pelos tapetes, recolhendo cacos de vidro
(à luz do dia você conseguia vê-los embaixo da pele,
protuberâncias azuis abrindo caminho rumo ao coração) e eu andava usando
meus calções rasgados, colhões feiosos balançando pra fora, minha retorcida e
rasgada camisa de baixo pontilhada por buracos de cigarro de diversos
tamanhos. parei diante de Jane, que estava sentada em sua cadeira
bêbada.
então gritei para ela:
“SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
ela sacudiu a cabeça, riu com escárnio e balbuciou por entre os
lábios:
“caralho! você é um idiota
de merda!”
eu andei à espreita pelo piso, dessa vez recolhendo um
fragmento de vidro bem maior do que o normal, e estiquei a mão
e o arranquei: um adorável e grande naco em forma de lança, pingando
com o meu sangue, eu o arremessei no espaço, me virei e fuzilei Jane
com os olhos:
“você não sabe nada, sua
puta!”
“VÁ SE FODER!”, ela
gritou.
então o telefone tocou e eu atendi e
gritei: “SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
era o recepcionista: “Sr. Chinaski, eu lhe adverti
diversas vezes, o senhor não está deixando nossos
hóspedes dormirem...”
“HÓSPEDES?”, eu ri, “VOCÊ QUER DIZER ESSES BEBUNS
DE MERDA?”
então Jane apareceu e agarrou o telefone e
gritou: “EU SOU UM MALDITO GÊNIO TAMBÉM E SOU A
ÚNICA PUTA QUE SABE DISSO!”
e ela desligou.
então fui até a porta e
prendi a corrente.
então Jane e eu empurramos o sofá na
frente da porta
desligamos as luzes
e ficamos sentados na cama
esperando por eles,
tínhamos pleno conhecimento da
localização da cadeia
de bebuns: North Avenue
21 – um endereço que soava tão
pomposo.
nós tínhamos, cada um, uma cadeira ao
lado da cama,
e cada cadeira continha cinzeiro,
cigarros e
vinho.
eles vieram com muito
ruído:
“esta é a porta
certa?”
“é”, ele disse,
“413”.
um deles bateu com
a ponta de seu
cassetete:
“DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE L.A.!
ABRAM AÍ!”
nós não
abrimos aí.
então ambos bateram com
seus cassetetes:
“ABRAM! ABRAM
AÍ!”
agora todos os hóspedes estavam
acordados com certeza.
“vamos lá, abram”, um deles
falou com mais calma, “nós só queremos
conversar um pouco, nada mais...”
“nada mais”, disse o outro,
“a gente pode até tomar uma bebidinha
com vocês...”
30-40 anos atrás
North Avenue 21 era um lugar terrível,
40 ou 50 homens dormiam no mesmo piso
e havia um banheiro no qual ninguém ousava
excretar.
“sabemos que vocês são gente boa, nós só
queremos conhecer vocês...”,
um deles disse.
“é”, disse o outro.
então os ouvimos
sussurrando.
não os ouvimos indo
embora.
não tínhamos certeza quanto à
partida dos dois.
“puta que o pariu”, Jane perguntou,
“você acha que eles
foram embora?”
“shhhh...”,
eu chiei.
ficamos ali sentados no escuro
bebericando nosso
vinho.
não havia nada a fazer
exceto observar dois letreiros de neon
através da janela ao
leste
um ficava perto da biblioteca
e dizia
em vermelho:
JESUS SALVA.
o outro letreiro era mais
interessante:
era um enorme pássaro vermelho
que batia suas asas
sete vezes
e então um letreiro se acendia
abaixo
anunciando
SIGNAL GASOLINE.
era uma vida tão boa
quanto conseguíamos
bancar.
Sapatos
sapatos no armário como lírios de Páscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.