Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Centro de L.A.

você atira seu sapato às 3 da manhã quebrando a janela, depois enfia
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”

você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que

você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.

outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!

você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”

ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...

no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.

para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.

vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”

ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.

eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.

fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.

na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque

ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.

então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...

enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.

ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.

desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.

“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”

ela continua, termina...

de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.

caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.

pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”

lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
1 421

Enfeitiçado em Nova York

a senhora foi a mais infiel e terrível que eu jamais havia
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
1 131

Putrefação

nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.

temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.

estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.

desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.

agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
775

Vidas No Lixo

o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.

é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.

é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.

nós simplesmente esquecemos
os nossos.

nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 520

40 Anos Atrás Naquele Quarto de Hotel

na Union Avenue, 3 da manhã, Jane e eu estávamos
bebendo vinho barato desde o meio-dia e eu andava de pés descalços
pelos tapetes, recolhendo cacos de vidro
(à luz do dia você conseguia vê-los embaixo da pele,
protuberâncias azuis abrindo caminho rumo ao coração) e eu andava usando
meus calções rasgados, colhões feiosos balançando pra fora, minha retorcida e
rasgada camisa de baixo pontilhada por buracos de cigarro de diversos
tamanhos. parei diante de Jane, que estava sentada em sua cadeira
bêbada.
então gritei para ela:
“SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
ela sacudiu a cabeça, riu com escárnio e balbuciou por entre os
lábios:
“caralho! você é um idiota
de merda!”
eu andei à espreita pelo piso, dessa vez recolhendo um
fragmento de vidro bem maior do que o normal, e estiquei a mão
e o arranquei: um adorável e grande naco em forma de lança, pingando
com o meu sangue, eu o arremessei no espaço, me virei e fuzilei Jane
com os olhos:
“você não sabe nada, sua
puta!”
“VÁ SE FODER!”, ela
gritou.
então o telefone tocou e eu atendi e
gritei: “SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
era o recepcionista: “Sr. Chinaski, eu lhe adverti
diversas vezes, o senhor não está deixando nossos
hóspedes dormirem...”
“HÓSPEDES?”, eu ri, “VOCÊ QUER DIZER ESSES BEBUNS
DE MERDA?”
então Jane apareceu e agarrou o telefone e
gritou: “EU SOU UM MALDITO GÊNIO TAMBÉM E SOU A
ÚNICA PUTA QUE SABE DISSO!”
e ela desligou.
então fui até a porta e
prendi a corrente.
então Jane e eu empurramos o sofá na
frente da porta
desligamos as luzes
e ficamos sentados na cama
esperando por eles,
tínhamos pleno conhecimento da
localização da cadeia
de bebuns: North Avenue
21 – um endereço que soava tão
pomposo.
nós tínhamos, cada um, uma cadeira ao
lado da cama,
e cada cadeira continha cinzeiro,
cigarros e
vinho.
eles vieram com muito
ruído:
“esta é a porta
certa?”
“é”, ele disse,
“413”.
um deles bateu com
a ponta de seu
cassetete:
“DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE L.A.!
ABRAM AÍ!”
nós não
abrimos aí.
então ambos bateram com
seus cassetetes:
“ABRAM! ABRAM
AÍ!”
agora todos os hóspedes estavam
acordados com certeza.
“vamos lá, abram”, um deles
falou com mais calma, “nós só queremos
conversar um pouco, nada mais...”
“nada mais”, disse o outro,
“a gente pode até tomar uma bebidinha
com vocês...”
30-40 anos atrás
North Avenue 21 era um lugar terrível,
40 ou 50 homens dormiam no mesmo piso
e havia um banheiro no qual ninguém ousava
excretar.
“sabemos que vocês são gente boa, nós só
queremos conhecer vocês...”,
um deles disse.
“é”, disse o outro.
então os ouvimos
sussurrando.
não os ouvimos indo
embora.
não tínhamos certeza quanto à
partida dos dois.
“puta que o pariu”, Jane perguntou,
“você acha que eles
foram embora?”
“shhhh...”,
eu chiei.
ficamos ali sentados no escuro
bebericando nosso
vinho.
não havia nada a fazer
exceto observar dois letreiros de neon
através da janela ao
leste
um ficava perto da biblioteca
e dizia
em vermelho:
JESUS SALVA.
o outro letreiro era mais
interessante:
era um enorme pássaro vermelho
que batia suas asas
sete vezes
e então um letreiro se acendia
abaixo
anunciando
SIGNAL GASOLINE.
era uma vida tão boa
quanto conseguíamos
bancar.
1 202

Unhas; Narinas; Cadarços

a tubulação de gasolina está vazando, o pássaro fugiu da
gaiola, a linha do horizonte está salpicada de urubus;
Benny finalmente largou a droga e Betty agora tem um emprego
de garçonete; e
o limpa-chaminés foi tão delicado enquanto
dava risadinhas no meio da
fuligem.
caminhei milhas pela cidade e não reconheci
nada enquanto uma garra gigante comia meu
estômago e o interior da minha cabeça estava
aéreo como se eu estivesse a ponto de ficar
louco.
nem é tanto por nada fazer sentido
algum, porém mais por continuar não fazendo sentido
nenhum.
não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer.
até mesmo os melhores livros são serragem seca.
eu assisto às lutas de boxe e tomo notas
copiosas sobre futilidade.
então as portas se abrem novamente
e há esses lindos e poderosos cavalos
sedosos galopando
contra o céu.
tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação.
na minha mão jaz o último pássaro azul.
as cortinas rugem como leões e as paredes
chocalham, dançam em volta da minha
cabeça.
então seus olhos me olham, o amor parte meus
Ossos e eu
dou risada.
892

Emily Bukowski

minha avó sempre frequentava o culto de Páscoa
ao nascer do sol
e o desfile de ano-novo
do Rose Bowl.

ela também gostava de ir à
praia, sentar naqueles bancos
de frente para o mar.

ela achava que os filmes eram
pecaminosos.

ela devorava pratos com montanhas de
comida.

ela rezava por mim
constantemente.

“pobre menino: o diabo está no
seu corpo.”

dizia que o diabo estava no
corpo do marido dela
também.

embora não fossem divorciados
os dois viviam
separadamente
e não tinham visto um ao
outro
por 15 anos.

ela dizia que hospitais eram
bobagem
nunca se valia deles
ou
de médicos.

aos 87
morreu certa noite
enquanto alimentava o
canário.

ela gostava de
soltar o alpiste
na gaiola
enquanto fazia uns
barulhinhos
de pássaro.

ela não era muito
interessante
mas poucas pessoas
são.
1 240

Um Caso de Estetoscópio

meu médico recém entrou em sua sala
vindo da cirurgia.
ele me encontra no banheiro masculino.
“puta que pariu”, ele me diz,
“onde você a encontrou? oh, como é bom
olhar para garotas como esta!”
eu lhe digo: “é minha especialidade: corações de
cimento e corpos esculturais. se conseguir ouvir um
batimento, me avise.”
“vou cuidar dela direitinho”, ele diz.
“sim, e por favor lembre-se de todos os códigos
de ética de sua honorável profissão”, eu lhe disse.

fechou primeiro a braguilha e depois lavou as mãos.
“como está a sua saúde?” ele pergunta.
“fisicamente funciono como um relógio. mentalmente estou perdido, condenado, carregando minha pequena
[cruz, toda
essa merda.”

“cuidarei bem dela.”

“sim. e me avise a respeito dos batimentos cardíacos.”

ele saiu.
terminei, fechei a braguilha e também saí.
mas não lavei minhas mãos.

estou muito à frente dessas preocupações.
1 178

Morda-Se de Raiva

vim até aqui, ela diz, para lhe falar
que está tudo acabado. não estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.

sento no sofá olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça –
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus –
então ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.

vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mãos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.

ela se levanta.

está tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. você
tem alguma borrachinha?

não sei.

achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.

me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que você me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
não, quero um par
vermelho.

vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das árvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
1 195

Introdução do Autor

Os poemas das três primeiras partes deste livro são dos anos de 1955 a 1968, e os poemas da última parte correspondem aos trabalhos novos de 1972 a 1973. O leitor poderá se perguntar o que aconteceu entre os anos de 1969 e 1971, uma vez que o autor desapareceu (literalmente) entre os anos de 1944 e 1954. Mas não desta vez. The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills (Black Sparrow Press, 1969) contém os poemas escritos ao fim de 1968 e em boa parte de 1969, mais uma seleta de cinco poemas que haviam saído em edições caseiras não cobertas pelas três primeiras partes do presente livro. Mockingbird Wish me Luck (Black Sparrow Press, 1972) traz impressos poemas escritos do fim de 1969 até o início de 1972. Assim, para os críticos, leitores, amigos, inimigos, ex-amantes, novas amantes, o presente volume, junto com Days e Mockingbird, contém o que considero ser o melhor de meu trabalho escrito nos últimos dezenove anos.
Cada uma das partes faz ressurgir lembranças caras. Para Meu coração tomado em suas mãos me pediram para fazer uma viagem a Nova Orleans. O editor tinha que, em primeiro lugar, certificar-se de que eu era uma pessoa decente. Ao apanhar o trem na Union Station logo na sequência do Terminal Anexo aos Correios onde eu trabalhava para o Tio Sam, sentei-me no vagão-restaurante e comecei a beber uísque com água e voei para Nova Orleans para ser julgado e avaliado por um ex-presidiário que dirigia uma antiga casa editorial. Jon Webb acreditava que a maioria dos escritores (e ele conhecera alguns bons, incluindo Sherwood Anderson, Faulkner, Hemingway) eram seres humanos detestáveis quando estavam longe de suas máquinas de escrever. Cheguei, eles me conheceram, Jon e sua esposa, Louise, bebemos e conversamos por duas semanas, então Jon Webb disse, “Você é um canalha, Bukowski, mas vou publicá-lo assim mesmo”. Fui embora da cidade. Mas isso não foi tudo. Logo os dois estavam em Los Angeles com seus dois cães em um hotel ecológico que ficava nos limites da periferia. Ele queria uma confirmação. Bebemos e conversamos. Eu seguia sendo um canalha. Adeus. Muitos acenos pela janela do trem. Louise chorava por detrás do vidro. Meu coração foi publicado...
O grosso dos poemas de Crucifixo em uma mão morta foi escrito durante um mês extremamente quente e lírico em Nova Orleans no ano de 1965. Eu caminhava pela rua e tonteava, sóbrio eu tonteava, ouvir os sinos das igrejas, os cachorros feridos, feria a mim, tudo isso me feria. Eu tinha mergulhado em uma depressão, sofrera um apagão depois de publicar Meu coração e Jon e Louise haviam me trazido de volta para Nova Orleans. Eu vivia em uma esquina perto da casa deles com uma mulher gorda e gentil cujo ex-marido (que já estava morto) tinha quase chegado a ser campeão mundial dos pesos médios ou dos leves, esqueci ao certo. Todas as noites eu visitava Jon e Louise, e bebíamos até o amanhecer junto à pequena mesa da cozinha secundada por baratas que não paravam de subir e descer na parede a nossa frente (elas gostavam, em especial, de se mover em círculo ao redor de um bico de luz que brotava diretamente da parede) enquanto conversávamos e bebíamos.
Eu voltava para o meu canto e acordava por volta das dez e meia da manhã, bastante enjoado. Eu me vestia e seguia até a casa de Jon. A editora ficava abaixo do nível da rua e eu dava uma olhada para ver se ele estava por ali antes de bater. Podia vê-lo pela janela, calmo, relaxado, sem qualquer sinal de ressaca, murmurando e alinhando as páginas de Crucifixo na prensa.
“Trouxe algum poema, Bukowski?”, ele perguntava, assim que eu entrava. (É preciso ter cuidado: alimentar uma prensa à espera de material com poemas pode facilmente reduzir-se a jornalismo.)
Jon desconcertava-se de imediato se eu não tivesse trazido um punhado de poemas. Não era tão bom ficar ao lado daquele puto nessas ocasiões, e eu logo me via de volta ao meu quarto trabalhando na máquina de escrever. À noite, se eu lhe trouxesse algumas páginas de poesia, seu humor melhorava de modo considerável.
Então eu seguia escrevendo poemas. Bebíamos com as baratas, o lugar era pequeno, e as páginas 5, 6, 7 e 8 ficavam enfiadas na banheira, ninguém tomaria banho, e as páginas 1, 2, 3 e 4 ficavam em um grande baú, e logo não havia espaço para colocar qualquer outra coisa. Havia páginas até o teto. Com muita cautela, nos moviámos entre elas. A banheira tinha sido útil, mas a cama se tornou um problema. Então Jon construiu uma espécie de elevação com umas sobras de madeira. Mais uma escada. E Jon e Louise passaram a dormir ali sobre um colchão e a cama foi descartada. Assim havia mais espaço no chão para espalhar as folhas. “Bukowski, Bukowski por toda parte! Vou ficar louca!”, disse Louise. As baratas circulavam e nós bebíamos e a prensa engolia meus poemas. Um tempo muito estranho, e lá estava Crucifixo...
Eu costumava ir à casa de John Thomas e ficar por lá a noite inteira. Tomávamos boletas e bebíamos e conversávamos. Quero dizer, John tomava as boletas e eu as tomava junto com a bebida, e nós conversávamos. John tinha então o hábito de gravar tudo, fosse bom ou não, estúpido ou interessante, inútil ou aproveitável. Escutaríamos nossas conversas no dia seguinte, e era um processo válido, ao menos para mim. Eu percebia o quão imbecil, insuportável e desfocado seguidamente me tornava, ao menos quando estava bêbado. E algumas vezes mesmo quando não estava.
Certa vez, durante essas gravações, John pediu que eu levasse uns poemas e os lesse. Eu o fiz. E deixei os poemas por lá e esqueci que existiam. Os poemas foram jogados fora junto com o lixo. Meses se passaram. Um dia, Thomas me ligou. “Aqueles poemas, Bukowski, dariam um bom livro.” “Que poemas, John?” Ele disse que tinha pegado a fita com os meus poemas e a tinha ouvido de novo. “Eu teria que transcrevê-los, isso daria muito trabalho”, eu disse. “Eu transcrevo para você.” Concordei, e logo tinha os poemas mais uma vez datilografados.
Desta vez, um homem careca e ruivo, com uma testa alta e lustrosa, meticuloso e gentil, com um sorriso escarninho quase imperceptível e constante, estava por aparecer. Trabalhava como gerente em uma firma de móveis e suprimentos e era colecionador de livros raros. Seu nome era John Martin. Havia publicado alguns de meus poemas em edições caseiras. Ele assinava uns cheques em meu nome enquanto eu me sentava a sua frente na cozinha e assinava aqueles panfletos. Ali estava começando a Black Sparrow Press, uma editora que logo começaria a publicar uma grande parcela da poesia de vanguarda na América, mas nenhum de nós sabia disso então.
Mostrei a John os poemas que Thomas tinha transcrito para mim. Eu havia revisado as transcrições e ele fizera um trabalho muito cuidadoso e acurado. John Martin levou os poemas consigo e me ligou alguns dias depois: “Você tem um livro aí e eu mesmo vou publicá-lo”. E foi assim que alguns poemas quase perdidos foram reencontrados e impressos em livro e a Black Sparrow alçou voo. Chamei o livro de Na rua do terror e no caminho da agonia.
Dando uma olhada nesses poemas escritos entre 1955 e 1973, gosto mais (por uma ou outra razão) daqueles escritos por último. Isso é algo que me agrada. Não faço a mais vaga ideia, claro, da forma que meus poemas futuros terão, sequer se escreverei outros mais, porque não posso garantir nem mesmo que vá seguir vivendo, mas uma vez que comecei a escrever poesia tarde na vida, por volta dos 35, gosto de pensar que eles me darão alguns anos a mais nessa reta final. Enquanto isso, os poemas que agora seguem terão de cumprir essa missão.
Charles Bukowski
30 de janeiro de 1974
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Mário Quintana
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