Aposta Arriscada
claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
Emily Bukowski
minha avó sempre frequentava o culto de Páscoa
ao nascer do sol
e o desfile de ano-novo
do Rose Bowl.
ela também gostava de ir à
praia, sentar naqueles bancos
de frente para o mar.
ela achava que os filmes eram
pecaminosos.
ela devorava pratos com montanhas de
comida.
ela rezava por mim
constantemente.
“pobre menino: o diabo está no
seu corpo.”
dizia que o diabo estava no
corpo do marido dela
também.
embora não fossem divorciados
os dois viviam
separadamente
e não tinham visto um ao
outro
por 15 anos.
ela dizia que hospitais eram
bobagem
nunca se valia deles
ou
de médicos.
aos 87
morreu certa noite
enquanto alimentava o
canário.
ela gostava de
soltar o alpiste
na gaiola
enquanto fazia uns
barulhinhos
de pássaro.
ela não era muito
interessante
mas poucas pessoas
são.
Aprisionado
no inverno caminhando em meu
teto meus olhos do tamanho de luzes de
poste. tenho quatro patas como um rato mas
lavo minhas roupas íntimas – barbeado e
de ressaca e de pau duro e sem advogado.
tenho cara de esfregão. canto
canções de amor e carrego aço.
preferiria morrer a chorar. não suporto
a matilha não posso viver sem ela.
inclino minha cabeça contra o refrigerador
branco e quero gritar como
o último lamento de vida para todo sempre mas
sou maior do que as montanhas.
Mercedes Vermelha
naturalmente, nós todos caímos em
baixo-astral, é uma questão de
desequilíbrio químico
e uma existência
que, por vezes,
parece impossibilitar
qualquer chance real de
felicidade.
eu estava num baixo-astral
quando um ricaço escroto
acompanhado de sua inexpressiva
namoradinha
numa Mercedes vermelha
cortou
a minha frente
no estacionamento do hipódromo.
o estalo lampejou
no meu íntimo:
vou arrancar o filho da puta
de seu carro e
arrebentar a
cara dele!
segui o sujeito
até os manobristas
estacionei atrás
e saltei do meu
carro
corri até a
porta dele
e puxei.
estava
trancada.
as
janelas estavam
levantadas.
eu bati na janela
do lado
dele:
“abre! eu vou
arrebentar a sua
cara!”
ele ficou sentado
olhando reto
em frente.
a mulher dele fazia
o mesmo.
eles não me
olhavam.
ele era 30 anos
mais novo,
mas eu sabia que podia
encarar,
ele era molenga
e mimado.
eu bati na janela
com meu
punho:
“sai daí, seu merda,
ou eu começo a
quebrar
o vidro!”
ele acenou de leve a cabeça
para sua
mulher.
eu a vi estender
o braço
abrir o
porta-luvas
e passar para ele o
.32
eu o vi segurar a arma
junto ao assento
e soltar a
trava de segurança.
fui andando
em direção ao
clube, o programa
parecia uma
beleza
naquele
dia.
tudo que eu precisava fazer
era
estar lá.
Agnóstico
li outro dia
que um homem queria exorcizar o demônio
de seus dois filhos
por isso ele os amarrou numa grade da calefação e os
torrou até a morte.
imagino que para acreditar no demônio
seja preciso acreditar em Deus
antes.
aprendi a escrever “Deus” com maiúscula
e alguns diriam
que esse fato
é prova suficiente.
enquanto isso, uso minha Calefação para ficar
aquecido
e fujo de
Discussões.
Sapatos
sapatos no armário como lírios de Páscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
Um Bom Sujeito
recebo telefonemas
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
Centro de L.A.
você atira seu sapato às 3 da manhã quebrando a janela, depois enfia
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”
você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que
você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.
outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!
você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”
ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...
no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.
para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.
vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”
ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.
eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.
fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.
na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque
ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.
então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...
enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.
ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.
desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.
“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”
ela continua, termina...
de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.
caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.
pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”
lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
Entorpeça Seu Rabo E Seu Cérebro E Seu Coração...
eu estava saindo de um caso que havia terminado mal.
francamente, eu deslizava em direção ao fundo do poço
sentindo-me realmente desprezível e acabado
quando tive sorte com essa dama em sua enorme cama
coberta por um dossel enfeitado de joias
mais
vinho, champanhe, cigarros, boletas e
tevê a cores.
ficamos na cama e
bebemos vinho, champanhe, fumamos, detonamos as
[boletas
às dúzias
enquanto eu (sentindo-me desprezível e acabado)
tentava superar o caso que havia terminado mal.
assistia à tevê tentando embotar meus sentidos,
mas a coisa que realmente ajudou
foi esse drama muito longo
(especialmente escrito para a televisão) sobre
espiões...
espiões americanos e espiões russos, e
todos eram tão espertos e
bacanas...
até mesmo seus filhos não sabiam
suas esposas não sabiam, e
de certo modo
eles mesmos quase não sabiam...
e logo vieram os contraespiões, os agentes duplos:
caras que trabalhavam para os dois lados, e
e então um deles passou de agente duplo
a agente triplo,
e tudo se tornou agradavelmente confuso...
acho que nem o cara que tinha escrito o roteiro
sabia o que estava acontecendo...
aquilo seguiu por horas!
hidroplanos se chocando contra icebergs,
um padre em Madison, Wisc. matou seu irmão,
um bloco de gelo foi despachado num cofre para o Peru
no lugar do maior diamante do mundo, e
loiras entravam e saíam de quartos comendo
nozes e doces recheados com creme;
o agente triplo passou a
agente quádruplo e todo mundo amava
todo mundo
e eu segui vendo aquilo
e as horas passaram e
e tudo finalmente desapareceu como um clipe de papel em
meio a uma cesta de lixo e eu
me aproximei do aparelho e o desliguei e
pela primeira vez em uma semana e meia
dormi bem.