Como Você Não Está Fora da Lista?
os homens ligam e me perguntam isto.
você é realmente Charles Bukowski
o escritor?
sou escritor de vez em quando, eu digo,
na maior parte do tempo eu não faço nada.
escute, eles dizem, eu gosto das suas
coisas – se importa se eu aparecer aí
com uma dúzia de latinhas?
você pode trazê-las, eu digo
desde que não entre...
quando as mulheres ligam, eu digo,
ó, sim, escrevo, sou um escritor
apenas não estou escrevendo nada neste exato momento.
me sinto tola ligando para você,
elas dizem, e fiquei surpresa
de achar seu nome na lista telefônica.
tenho meus motivos, eu digo,
a propósito, por que você não aparece
pra tomar uma cerveja?
você não se importaria?
e elas chegam
mulheres lindas
boas de corpo e mente e olho.
frequentemente não há sexo
mas estou acostumado
ainda assim é bom
bom demais apenas olhar para elas...
e em alguns raros momentos
tenho uma maré inesperada de sorte
para variar.
para um homem de 55 que não transou
até os 23
e não muitas vezes mais até os 50
creio que deva continuar listado
na Pacific Telephone
até conseguir o mesmo número de mulheres
que os homens normais conseguiram.
claro, terei que continuar
escrevendo poemas imortais
mas a inspiração está lá.
Um Caso de Estetoscópio
meu médico recém entrou em sua sala
vindo da cirurgia.
ele me encontra no banheiro masculino.
“puta que pariu”, ele me diz,
“onde você a encontrou? oh, como é bom
olhar para garotas como esta!”
eu lhe digo: “é minha especialidade: corações de
cimento e corpos esculturais. se conseguir ouvir um
batimento, me avise.”
“vou cuidar dela direitinho”, ele diz.
“sim, e por favor lembre-se de todos os códigos
de ética de sua honorável profissão”, eu lhe disse.
fechou primeiro a braguilha e depois lavou as mãos.
“como está a sua saúde?” ele pergunta.
“fisicamente funciono como um relógio. mentalmente estou perdido, condenado, carregando minha pequena
[cruz, toda
essa merda.”
“cuidarei bem dela.”
“sim. e me avise a respeito dos batimentos cardíacos.”
ele saiu.
terminei, fechei a braguilha e também saí.
mas não lavei minhas mãos.
estou muito à frente dessas preocupações.
Um Bom Sujeito
recebo telefonemas
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
Mercedes Vermelha
naturalmente, nós todos caímos em
baixo-astral, é uma questão de
desequilíbrio químico
e uma existência
que, por vezes,
parece impossibilitar
qualquer chance real de
felicidade.
eu estava num baixo-astral
quando um ricaço escroto
acompanhado de sua inexpressiva
namoradinha
numa Mercedes vermelha
cortou
a minha frente
no estacionamento do hipódromo.
o estalo lampejou
no meu íntimo:
vou arrancar o filho da puta
de seu carro e
arrebentar a
cara dele!
segui o sujeito
até os manobristas
estacionei atrás
e saltei do meu
carro
corri até a
porta dele
e puxei.
estava
trancada.
as
janelas estavam
levantadas.
eu bati na janela
do lado
dele:
“abre! eu vou
arrebentar a sua
cara!”
ele ficou sentado
olhando reto
em frente.
a mulher dele fazia
o mesmo.
eles não me
olhavam.
ele era 30 anos
mais novo,
mas eu sabia que podia
encarar,
ele era molenga
e mimado.
eu bati na janela
com meu
punho:
“sai daí, seu merda,
ou eu começo a
quebrar
o vidro!”
ele acenou de leve a cabeça
para sua
mulher.
eu a vi estender
o braço
abrir o
porta-luvas
e passar para ele o
.32
eu o vi segurar a arma
junto ao assento
e soltar a
trava de segurança.
fui andando
em direção ao
clube, o programa
parecia uma
beleza
naquele
dia.
tudo que eu precisava fazer
era
estar lá.
Entorpeça Seu Rabo E Seu Cérebro E Seu Coração...
eu estava saindo de um caso que havia terminado mal.
francamente, eu deslizava em direção ao fundo do poço
sentindo-me realmente desprezível e acabado
quando tive sorte com essa dama em sua enorme cama
coberta por um dossel enfeitado de joias
mais
vinho, champanhe, cigarros, boletas e
tevê a cores.
ficamos na cama e
bebemos vinho, champanhe, fumamos, detonamos as
[boletas
às dúzias
enquanto eu (sentindo-me desprezível e acabado)
tentava superar o caso que havia terminado mal.
assistia à tevê tentando embotar meus sentidos,
mas a coisa que realmente ajudou
foi esse drama muito longo
(especialmente escrito para a televisão) sobre
espiões...
espiões americanos e espiões russos, e
todos eram tão espertos e
bacanas...
até mesmo seus filhos não sabiam
suas esposas não sabiam, e
de certo modo
eles mesmos quase não sabiam...
e logo vieram os contraespiões, os agentes duplos:
caras que trabalhavam para os dois lados, e
e então um deles passou de agente duplo
a agente triplo,
e tudo se tornou agradavelmente confuso...
acho que nem o cara que tinha escrito o roteiro
sabia o que estava acontecendo...
aquilo seguiu por horas!
hidroplanos se chocando contra icebergs,
um padre em Madison, Wisc. matou seu irmão,
um bloco de gelo foi despachado num cofre para o Peru
no lugar do maior diamante do mundo, e
loiras entravam e saíam de quartos comendo
nozes e doces recheados com creme;
o agente triplo passou a
agente quádruplo e todo mundo amava
todo mundo
e eu segui vendo aquilo
e as horas passaram e
e tudo finalmente desapareceu como um clipe de papel em
meio a uma cesta de lixo e eu
me aproximei do aparelho e o desliguei e
pela primeira vez em uma semana e meia
dormi bem.
Introdução do Autor
Os poemas das três primeiras partes deste livro são dos anos de 1955 a 1968, e os poemas da última parte correspondem aos trabalhos novos de 1972 a 1973. O leitor poderá se perguntar o que aconteceu entre os anos de 1969 e 1971, uma vez que o autor desapareceu (literalmente) entre os anos de 1944 e 1954. Mas não desta vez. The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills (Black Sparrow Press, 1969) contém os poemas escritos ao fim de 1968 e em boa parte de 1969, mais uma seleta de cinco poemas que haviam saído em edições caseiras não cobertas pelas três primeiras partes do presente livro. Mockingbird Wish me Luck (Black Sparrow Press, 1972) traz impressos poemas escritos do fim de 1969 até o início de 1972. Assim, para os críticos, leitores, amigos, inimigos, ex-amantes, novas amantes, o presente volume, junto com Days e Mockingbird, contém o que considero ser o melhor de meu trabalho escrito nos últimos dezenove anos.
Cada uma das partes faz ressurgir lembranças caras. Para Meu coração tomado em suas mãos me pediram para fazer uma viagem a Nova Orleans. O editor tinha que, em primeiro lugar, certificar-se de que eu era uma pessoa decente. Ao apanhar o trem na Union Station logo na sequência do Terminal Anexo aos Correios onde eu trabalhava para o Tio Sam, sentei-me no vagão-restaurante e comecei a beber uísque com água e voei para Nova Orleans para ser julgado e avaliado por um ex-presidiário que dirigia uma antiga casa editorial. Jon Webb acreditava que a maioria dos escritores (e ele conhecera alguns bons, incluindo Sherwood Anderson, Faulkner, Hemingway) eram seres humanos detestáveis quando estavam longe de suas máquinas de escrever. Cheguei, eles me conheceram, Jon e sua esposa, Louise, bebemos e conversamos por duas semanas, então Jon Webb disse, “Você é um canalha, Bukowski, mas vou publicá-lo assim mesmo”. Fui embora da cidade. Mas isso não foi tudo. Logo os dois estavam em Los Angeles com seus dois cães em um hotel ecológico que ficava nos limites da periferia. Ele queria uma confirmação. Bebemos e conversamos. Eu seguia sendo um canalha. Adeus. Muitos acenos pela janela do trem. Louise chorava por detrás do vidro. Meu coração foi publicado...
O grosso dos poemas de Crucifixo em uma mão morta foi escrito durante um mês extremamente quente e lírico em Nova Orleans no ano de 1965. Eu caminhava pela rua e tonteava, sóbrio eu tonteava, ouvir os sinos das igrejas, os cachorros feridos, feria a mim, tudo isso me feria. Eu tinha mergulhado em uma depressão, sofrera um apagão depois de publicar Meu coração e Jon e Louise haviam me trazido de volta para Nova Orleans. Eu vivia em uma esquina perto da casa deles com uma mulher gorda e gentil cujo ex-marido (que já estava morto) tinha quase chegado a ser campeão mundial dos pesos médios ou dos leves, esqueci ao certo. Todas as noites eu visitava Jon e Louise, e bebíamos até o amanhecer junto à pequena mesa da cozinha secundada por baratas que não paravam de subir e descer na parede a nossa frente (elas gostavam, em especial, de se mover em círculo ao redor de um bico de luz que brotava diretamente da parede) enquanto conversávamos e bebíamos.
Eu voltava para o meu canto e acordava por volta das dez e meia da manhã, bastante enjoado. Eu me vestia e seguia até a casa de Jon. A editora ficava abaixo do nível da rua e eu dava uma olhada para ver se ele estava por ali antes de bater. Podia vê-lo pela janela, calmo, relaxado, sem qualquer sinal de ressaca, murmurando e alinhando as páginas de Crucifixo na prensa.
“Trouxe algum poema, Bukowski?”, ele perguntava, assim que eu entrava. (É preciso ter cuidado: alimentar uma prensa à espera de material com poemas pode facilmente reduzir-se a jornalismo.)
Jon desconcertava-se de imediato se eu não tivesse trazido um punhado de poemas. Não era tão bom ficar ao lado daquele puto nessas ocasiões, e eu logo me via de volta ao meu quarto trabalhando na máquina de escrever. À noite, se eu lhe trouxesse algumas páginas de poesia, seu humor melhorava de modo considerável.
Então eu seguia escrevendo poemas. Bebíamos com as baratas, o lugar era pequeno, e as páginas 5, 6, 7 e 8 ficavam enfiadas na banheira, ninguém tomaria banho, e as páginas 1, 2, 3 e 4 ficavam em um grande baú, e logo não havia espaço para colocar qualquer outra coisa. Havia páginas até o teto. Com muita cautela, nos moviámos entre elas. A banheira tinha sido útil, mas a cama se tornou um problema. Então Jon construiu uma espécie de elevação com umas sobras de madeira. Mais uma escada. E Jon e Louise passaram a dormir ali sobre um colchão e a cama foi descartada. Assim havia mais espaço no chão para espalhar as folhas. “Bukowski, Bukowski por toda parte! Vou ficar louca!”, disse Louise. As baratas circulavam e nós bebíamos e a prensa engolia meus poemas. Um tempo muito estranho, e lá estava Crucifixo...
Eu costumava ir à casa de John Thomas e ficar por lá a noite inteira. Tomávamos boletas e bebíamos e conversávamos. Quero dizer, John tomava as boletas e eu as tomava junto com a bebida, e nós conversávamos. John tinha então o hábito de gravar tudo, fosse bom ou não, estúpido ou interessante, inútil ou aproveitável. Escutaríamos nossas conversas no dia seguinte, e era um processo válido, ao menos para mim. Eu percebia o quão imbecil, insuportável e desfocado seguidamente me tornava, ao menos quando estava bêbado. E algumas vezes mesmo quando não estava.
Certa vez, durante essas gravações, John pediu que eu levasse uns poemas e os lesse. Eu o fiz. E deixei os poemas por lá e esqueci que existiam. Os poemas foram jogados fora junto com o lixo. Meses se passaram. Um dia, Thomas me ligou. “Aqueles poemas, Bukowski, dariam um bom livro.” “Que poemas, John?” Ele disse que tinha pegado a fita com os meus poemas e a tinha ouvido de novo. “Eu teria que transcrevê-los, isso daria muito trabalho”, eu disse. “Eu transcrevo para você.” Concordei, e logo tinha os poemas mais uma vez datilografados.
Desta vez, um homem careca e ruivo, com uma testa alta e lustrosa, meticuloso e gentil, com um sorriso escarninho quase imperceptível e constante, estava por aparecer. Trabalhava como gerente em uma firma de móveis e suprimentos e era colecionador de livros raros. Seu nome era John Martin. Havia publicado alguns de meus poemas em edições caseiras. Ele assinava uns cheques em meu nome enquanto eu me sentava a sua frente na cozinha e assinava aqueles panfletos. Ali estava começando a Black Sparrow Press, uma editora que logo começaria a publicar uma grande parcela da poesia de vanguarda na América, mas nenhum de nós sabia disso então.
Mostrei a John os poemas que Thomas tinha transcrito para mim. Eu havia revisado as transcrições e ele fizera um trabalho muito cuidadoso e acurado. John Martin levou os poemas consigo e me ligou alguns dias depois: “Você tem um livro aí e eu mesmo vou publicá-lo”. E foi assim que alguns poemas quase perdidos foram reencontrados e impressos em livro e a Black Sparrow alçou voo. Chamei o livro de Na rua do terror e no caminho da agonia.
Dando uma olhada nesses poemas escritos entre 1955 e 1973, gosto mais (por uma ou outra razão) daqueles escritos por último. Isso é algo que me agrada. Não faço a mais vaga ideia, claro, da forma que meus poemas futuros terão, sequer se escreverei outros mais, porque não posso garantir nem mesmo que vá seguir vivendo, mas uma vez que comecei a escrever poesia tarde na vida, por volta dos 35, gosto de pensar que eles me darão alguns anos a mais nessa reta final. Enquanto isso, os poemas que agora seguem terão de cumprir essa missão.
Charles Bukowski
30 de janeiro de 1974
Uma Assassina
a consistência é impressionante:
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros
ela segue de homem em homem
oferecendo carícias
ela fala de amor
então submete os homens
à sua vontade
boca fedorenta
podre por dentro
vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás
sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
Vidas No Lixo
o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
Aprisionado
no inverno caminhando em meu
teto meus olhos do tamanho de luzes de
poste. tenho quatro patas como um rato mas
lavo minhas roupas íntimas – barbeado e
de ressaca e de pau duro e sem advogado.
tenho cara de esfregão. canto
canções de amor e carrego aço.
preferiria morrer a chorar. não suporto
a matilha não posso viver sem ela.
inclino minha cabeça contra o refrigerador
branco e quero gritar como
o último lamento de vida para todo sempre mas
sou maior do que as montanhas.
A Corrida
é assim que funciona
quando você vai desacelerando,
parando como uma daquelas vitrolas a manivela
(lembra delas?)
e você vai para o centro
e assiste às lutas dos garotos
mas as loiraças sentam
com outras pessoas
e você envelheceu como um bandido de filme:
crânio com charuto, pança,
mas nenhum dinheiro,
sem saber os atalhos, sem mundanidade,
mas como sempre
a maior parte das lutas é ruim,
e depois disso
de volta ao estacionamento
você se senta e os vê partir,
acende o último charuto,
e então dá a partida no carro velho,
carro velho, e um homem já não tão jovem
percorrendo as ruas
detido por um sinal vermelho
como se o tempo não fosse um problema,
e eles encostam em você:
um carro cheio de jovens,
às gargalhadas,
e você os vê partir
até
que alguém atrás buzina
e você é trazido de volta
ao que restou
de sua vida.
penuriosa, pena de si próprio,
e você gruda o pé no acelerador
e você alcança os jovens,
você ultrapassa os jovens
e aferrado ao volante como a todo amor perdido
você corre até a praia
com eles
brandindo seu charuto e sua lataria,
gargalhando,
você vai levá-los para o oceano
até a última sereia,
algas marinhas e tubarão, baleia faceira,
fim da carne e da hora e do horror,
e por fim eles param
e você segue em frente
em direção ao seu oceano,
o charuto mordendo seus lábios
do jeito que o amor costumava fazer.