Morda-Se de Raiva
vim até aqui, ela diz, para lhe falar
que está tudo acabado. não estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofá olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça –
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus –
então ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mãos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
está tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. você
tem alguma borrachinha?
não sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que você me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
não, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das árvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
Agnóstico
li outro dia
que um homem queria exorcizar o demônio
de seus dois filhos
por isso ele os amarrou numa grade da calefação e os
torrou até a morte.
imagino que para acreditar no demônio
seja preciso acreditar em Deus
antes.
aprendi a escrever “Deus” com maiúscula
e alguns diriam
que esse fato
é prova suficiente.
enquanto isso, uso minha Calefação para ficar
aquecido
e fujo de
Discussões.
Um Bom Sujeito
recebo telefonemas
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
Emily Bukowski
minha avó sempre frequentava o culto de Páscoa
ao nascer do sol
e o desfile de ano-novo
do Rose Bowl.
ela também gostava de ir à
praia, sentar naqueles bancos
de frente para o mar.
ela achava que os filmes eram
pecaminosos.
ela devorava pratos com montanhas de
comida.
ela rezava por mim
constantemente.
“pobre menino: o diabo está no
seu corpo.”
dizia que o diabo estava no
corpo do marido dela
também.
embora não fossem divorciados
os dois viviam
separadamente
e não tinham visto um ao
outro
por 15 anos.
ela dizia que hospitais eram
bobagem
nunca se valia deles
ou
de médicos.
aos 87
morreu certa noite
enquanto alimentava o
canário.
ela gostava de
soltar o alpiste
na gaiola
enquanto fazia uns
barulhinhos
de pássaro.
ela não era muito
interessante
mas poucas pessoas
são.
Centro de L.A.
você atira seu sapato às 3 da manhã quebrando a janela, depois enfia
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”
você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que
você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.
outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!
você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”
ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...
no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.
para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.
vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”
ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.
eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.
fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.
na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque
ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.
então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...
enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.
ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.
desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.
“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”
ela continua, termina...
de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.
caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.
pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”
lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
462-0614
agora recebo muitas chamadas de telefone.
todas iguais.
“é Charles Bukowski,
o escritor?”
“sim,” eu lhes respondo.
e eles dizem que entendem minha
escrita,
alguns deles são escritores
ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e
horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite...
querem alguém com quem possam
conversar,
não podem acreditar
que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
não podem acreditar
que agora mesmo
me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas
e dizendo
“Jesus Jesus Jesus,
de novo não!”
eles não podem acreditar
que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas.
e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o
jogo.
não escrevo a partir da sabedoria.
quando o telefone toca
eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma
dessas coisas.
é por isso que meu nome está na
lista.
Sapatos
sapatos no armário como lírios de Páscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
Meu Velho
16 anos de idade
durante a depressão
cheguei em casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias –
pastas, e páginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mãe estava me
esperando atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, leu
suas histórias...”
“posso chutar a
bunda dele...”
“Henry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para você.”
mas o que o preocupava era
que eu talvez não
terminasse o colegial
então eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, “este é
um grande conto”.
eu disse, “o.k.”
e ele me alcançou
e eu li.
era uma história sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrás de uma xícara de café
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi então que voltou
para seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a história em suas mãos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
não tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
então eu lhe disse,
“o.k., velho, você pode
ficar com ela”.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais próximo
que jamais estivemos.
Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
– Meu filho, cada homem, durante seu período de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. Então, esse filho também compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. Já são duas. Este último compraria uma nova e aí seriam três casas...
A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, misture com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você teria o necessário.
Olhei para meu pai, para suas mãos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mãe simplesmente não existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu não enxergava nada além de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. Séculos de sangue de camponês e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma série de camponeses servis que haviam aberto mão de suas vidas reais em troca da ilusão de lucros esporádicos e ilusórios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
– Não quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivência pudessem me moldar, enquanto eu assistia àqueles garotos ricos desfilarem em seus cupês cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achá-los até um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, através dos séculos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupês creme com os rapazes sorridentes. Elas não podiam fazer nada, é claro, muito embora você sempre acabe pensando que talvez... Mas não, não havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitória, e vitória era a única realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei não pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressão de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginásio feminino com música ao vivo, uma banda de verdade. Não sei bem por que, mas andei até lá naquela noite, os quatro quilômetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, através das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adoráveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase não as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a música vinha alta e límpida e boa, potente.
Então vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirá-los – marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
Então ouvi um barulho às minhas costas.
– Ei, o que você está fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
– Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
– Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
– Quem é você? – perguntei.
– Sou o guarda noturno. Tire seu rabo já daqui antes que eu chame a polícia!
– Por quê? Esse é o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
– Não vem com essa – ele disse. – Você tem pelo menos uns 22 anos!
– Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
– Por que você não está lá dentro dançando?
– Esqueça. Estou indo pra casa.
– Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradável e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas não tive certeza.
– Misto-quente
Minha Ambição Não Ambiciosa
meu pai tinha pequenos provérbios que ele compartilhava sobretudo
durante as sessões de jantar; a comida o fazia pensar na
sobrevivência:
“quem não batalha come palha...”
“o passarinho madrugador é o mais comedor...”
“homem que dorme cedo e acorda cedo (etc.) ...”
“qualquer um que quiser pode se dar bem na América...”
“Deus ajuda quem (etc.) ...”
eu não entendia direito para quem ele falava,
e pessoalmente o considerava um
brutamontes estúpido e demente
mas minha mãe sempre intercalava nossas
sessões com: “Henry, ouça o seu
pai”.
naquela idade eu não tinha qualquer
escolha
mas conforme a comida descia com os
provérbios
o apetite e a digestão desciam
junto.
me parecia que eu nunca tinha conhecido
na terra uma pessoa
tão desencorajadora da minha felicidade
quanto meu pai.
e aparentemente eu tinha
o mesmo efeito sobre
ele.
“Você é um vagabundo”, ele me dizia, “e será
sempre um vagabundo!”
e eu pensava, se ser um vagabundo é ser o
oposto do que esse filho da puta
é, então é isso que vou
ser.
e é uma pena ele ter morrido
há tanto tempo
pois agora não pode ver
o quão magnificamente eu
me dei bem
nisso.
Um Caso de Estetoscópio
meu médico recém entrou em sua sala
vindo da cirurgia.
ele me encontra no banheiro masculino.
“puta que pariu”, ele me diz,
“onde você a encontrou? oh, como é bom
olhar para garotas como esta!”
eu lhe digo: “é minha especialidade: corações de
cimento e corpos esculturais. se conseguir ouvir um
batimento, me avise.”
“vou cuidar dela direitinho”, ele diz.
“sim, e por favor lembre-se de todos os códigos
de ética de sua honorável profissão”, eu lhe disse.
fechou primeiro a braguilha e depois lavou as mãos.
“como está a sua saúde?” ele pergunta.
“fisicamente funciono como um relógio. mentalmente estou perdido, condenado, carregando minha pequena
[cruz, toda
essa merda.”
“cuidarei bem dela.”
“sim. e me avise a respeito dos batimentos cardíacos.”
ele saiu.
terminei, fechei a braguilha e também saí.
mas não lavei minhas mãos.
estou muito à frente dessas preocupações.