A Aldeia
A Aldeia
Nasce uma estrela, é noite, e a seguir a lua cheia
Já começa a despontar, tocando a linha do horizonte.
Os grandes carros de bois vêm chiando pelo caminho
Grupos de moços e moçoilas, tão frescos como arminho
Vão cantando à desgarrada pelas quebradas do monte
E na aldeia sossegada, vê-se o luzir da candeia.
Já nos beirais do telhado repousa a andorinha dormente
Pia o mocho arrepiado, naquele seu choro dolente
E já de regresso à aldeia, o pastor trás seu rebanho
O cabreiro desce a serra.; do prado vindo é o boieiro,
Já na capoeira o galo, tem subido ao seu poleiro.
Só de vigia estão só cães a um movimento estranho.
E na aldeia sossegada, vê-se o luzir da candeia.
Rompe o dia, é manhã cedo, de novo começa a vida
Já a cotovia do prado é distraída e contente
Da chaminé do telhado, sai o fumo espessamente
No sino do campanário a badalada é repetida
E é este todo o fadário de uma aldeia adormecida...
Portugal 21/09/1959 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Ingratidão
Ingratidão
Cheia de cansaço a velha caminhava
Banhada de suor ao esforço que fazia
Arrastando carro de mão onde trazia
Armarinhos, que na feira negociava.
Um dia, o carro dum rico industrial
Cruzou com ela na rua e se deteve
E sem um cumprimento, ou um gesto leve
Pós nas suas mãos uma nota de cabral!
Após breve conversa, encabulado
Num gesto mudo, em seu carro se afastou.
Foi então, que a boa velhinha me contou:
Que é seu filho e vive dela envergonhado!
Mas se hoje é rico, poderoso, estudado,
Foi o seu suor e daquele humilde carro...
Que lançaram a semente que o tirou do barro
Onde não fosse por ela, ele estaria enterrado!
São Paulo, 30/03/1964 (data da criação)
Armando A.C. Garcia
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L á g r i m a s
L á g r i m a s
Lágrimas,
Caindo, caindo uma a uma
De faces veludíneas,
Rolando,
Rolando,
Olhos vermelhos,
Cansados, vão ficando ressequidos.
E as lágrimas,
Rolando, caindo!
Esperanças,
Quimeras,
Sonhos,
Ilusões,
Caindo,
Caindo,
Caindo!
Perdem-se,
Confundem-se,
Entrechocam-se,
Misturam-se com o pó.
As lágrimas,
Vão sulcando as faces,
Prateando os cabelos,
Sempre rolando,
Rolando sempre...
Ora de alegria,
Mais de tristeza.
Caindo, Caindo!
Vão tombando,
Como tombando
Vamos tu e eu!
São Paulo, 08/04/1964
Armando A. C. Garcia
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Fomentação ao mal
Fomentação ao mal
As grandes fortunas investem pesado
Nas bandeiras escarlate que se agitam
Prescindem da apostasia do legado
No apoio àqueles que mais gritam,
Subvertendo com esse entendimento
As ideologias diferentes de sua situação;
E com esse abjeto comportamento
Alimentam a torpeza da dominação
Abandonam a fé, triunfa o mal
O homem passa a ser escravo da facção
E é tratado como produto estatal
Sufocando a liberdade e a reação
É o declínio geral do ser humano
Subvertem os princípios legais
Aviltam a fé, apóiam o profano
Não há amor, são insentimentais.
Porque assim agem as grandes fortunas
Ironicamente contrarias à sua formação,
Do capital, amealhado em oportunas
Torpezas mil, de sua negociação
E é sempre o capital o gerador
do mal. Vejam o caso do bin Laden;
Das empreiteiras brasileiras, e o pior,
É que esse capital... produz o semên !
Porangaba, 12/03/2016 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Vagarosamente envelheceu (soneto)
Vagarosamente envelheceu (soneto)
Vagarosamente envelheceu
Conheceu a solidão, acordado,
E ao lado do sono se estendeu
Se apaixonou, sem nunca ser amado
Sem nenhum carinho, e sem ternura
Esvoaçou na idade, e o que sobrou
Não passou de momentos de ventura
Tão poucos, que nem os enumerou
Uma dor insolúvel e estranha
Se apoderou do seu ser e da alma
Que parece queimar as entranhas.
Fazendo-o sentir fisgadas lancinantes
Que não param, nunca param, nem acalma
- Coração apaixonado e conflitante
São Paulo, 05/09/2018 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Vivo num oceano, (soneto)
Vivo num oceano, (soneto)
Vivo num oceano, que me queima,
Tristes caminhos, rasgando meus versos,
Que sobre as ondas caminham dispersos
Decerto, viver deste jeito é uma toleima
Vencido e mil vezes desejando
A morte, tão estranha e honrosa
A esta vida, fingida cor de rosa,
Que mil segredos a dedo foi pintando
Nas entranhas da trama a solidão
Que o silêncio inacabável mudou
Num gesto desigual ao que passou
Empurrando pra longe o coração,
Escondendo no horizonte a lucidez
É isso, que ela fez, com sordidez !
São Paulo, 04/09/2018 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Tua ingratidão, (soneto)
Tua ingratidão, (soneto)
Tua ingratidão, é a dor que me consome
Já não posso mais pronunciar teu nome
Foste um cântico triste e lento que passou
Rompendo nas trevas aquele que te amou
Sutilmente, tu geraste o esquecimento
E foi a ele, que estendeste o meu tormento
Sonho entre visões, de um eterno bem
Que só tu, podias dar-me e mais ninguém !
Sofre o meu coração, esta imensa dor
Meu peito, não tolera a falta de amor
E só tu, podes entender esta amargura
Amortalhei na confiança o pensamento
E achei em vez de paz, esquecimento
Que levar-me-á por certo à sepultura!
São Paulo, 27/08/2018 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Niilismo imanente (soneto)
Niilismo imanente (soneto)
Ao *niilismo **imanente foi jogado
Aquele belo sonho, tão almejado
Que ocultei com ***pundonor da vida,
Ante o sofrimento da despedida
Segui rumo diferente ao almejado
Tu, caminhaste para um outro lado
Nossas estradas jamais se cruzaram
As lembranças, nunca te olvidaram
Nos perdemos, nos nadas da ilusão
De nada valeu tão grande paixão
Caminhei sem rumo, e tu ... também !
Perdi-me, pensando no amor d’alguém
Que as reminiscências usufruem
Sem atingir a ****insight compreensão !
*Redução a nada
**Que existe sempre em um dado objeto e inseparável dele
***Dignidade; brio; honra
****Compreensão repentina em geral intuitiva
São Paulo, 11/10/2016 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Foi um cheiro do céu (soneto)
Foi um cheiro do céu (soneto)
Dar-me-ei inteiramente ao teu amor
Tu, dar-te-ás ao meu desejo atreito
Porque amor, separar não teve jeito
O desejo de querer, criou a dor !
No intento estreito do vil destino
Dar-nos-emos satisfeitos, saber
Que num e noutro o âmago de viver
Consiste num amor de peregrino
Foi um cheiro do céu que evaporou
Deixando, porém, toda sua essência
Até quase final d’extinta existência
Inda se sente o olor inebriante
Da coisa mais linda, o teu semblante.
Pena amor, que o sonhou terminou !”
São Paulo, 17/10/2016 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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Na nudez do destino (soneto)
Na nudez do destino (soneto)
Acúleos espinhos perfurando o peito
A carne dilacerada exangue
Na nudez do destino imperfeito
No emaranhado de veias sem sangue
Madeiro moldado esta minha cruz
Dobra-me a cerviz o fardo pesado
Quem sabe um dia, se acenda uma luz
As trevas urdidas, serão o passado !
Vertem lágrimas do próprio coração
Ante tamanha prostração, abatimento
Resultante da doença na perna e mão.
Só quem pelo infortúnio já passou
Pode aquilatar a dor física e moral
De quem hoje, em si, vê o resto que sobrou
São Paulo, 14-09-2016 (data da criação)
Armando A. C. Garcia
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