as horas não serão possíveis enquanto em tua boca não vicejar o verbo em que me ouço
e arrancarei meus segundos na inadiável felicidade de perdurar em tua face em qualquer tarde
e as datas serão imprescindíveis apenas para conter na sua forma os risíveis instantes da vida em que me entornas
nenhum tempo constrangerá meu riso à vista do teu corpo
as horas mais enormes flutuarão e comeremos o tempo na frugal rebelião de todos os insones
e ainda por muitos corpos viajaremos amiúde na exasperante dialética de tudo aquilo que eu pude e assim por todos os momentos as datas fluirão solertes na ponta de nossos dedos
de teus olhos fugirá a bruma que embrulhará meu peito e afagará meu sangue
e em tua veia latejará impune meu riso de poeta amordaçado
calarei o sonho com a noite em riste e esquecerei que às vezes algum poeta é triste.
133
Ode a Marie Carida Roman (sobrevivente do Haiti)
a vida nem sempre é estrangeira há que cantá-la sempre com a intimidade tanta daqueles que fazem do riso a essência da esperança
dize-la assim avara sem jeito de caminho é não compreende-la em todos os seus vãos porque há de sabe-la qualquer um que a exercite pois cantos há que a encantam e os há mesmo quando triste basta dizer as palavras das vidas a que se permite
a vida quando em riste jeitos há de compreendê-la crise a inventar-se como tanto coisa de trazê-la em revoluções por caminhos inatos e bastantes
92
ode a Havana no 495o urbano tempo
assim espalhada nos ombros da américa argumentas um traço de urbana lógica: paredes serão o limite nas urgências da história
cidade não te contentas em ser um feixe de pedras que a teu povo convenha melhor te dares um campo medido assim impunemente como se fora um jeito de colorir seus viventes
Havana não reivindicas nada do que seja fato em tuas notícias antes te constatas lenda contadas em tuas esquinas de um povo que constrói um tempo com as certezas da vida
Havana estás presente em todas as manhãs daquilo que consentes
84
ode à amada em vésperas de eclipse
embora lua nenhum sol será tanto que desvencilhe teus olhos de tudo que em mim assiste
e se mesmo triste ousar a terra ser constante muito mais será meu canto por tudo que você é tanta.
66
o âmbito da vida e outras refregas
o âmbito da vida é a pátria humana e não há que tê-lo em limites frouxos antes é vê-lo numa ordem avessa a tudo que é pouco
o avulso da vida é o desengano o resto é apenas sonhar a possibilidade do sonho e derramá-lo pelos ossos sem espanto
o inverso da vida é um tempo plástico esgarça-se num espaço involuntário onde nada se mede pelos metros que abraça
o invólucro da vida é a mágica de construir a si própria na prática nada do que é retórico lhe constata a não ser o verso informal de quem soletra sonhos pela estrada
o espaço da vida é quase um não guardada a possibilidade da revolução e nem passos há de exatidão tudo que lhe caminha está à mão
62
Nascimento
deixo o líquido materno com a mesma urdidura da vida nada do que é interno mais me externa em contradita
voo rastejando como uma pipa inconstante que teima em ser ave de um mar ainda distante
vivo e já me combato como um infnito medido na constância exata da pauta que coordena meus sentidos.
75
na minha morte
na minha morte estarei presente mesmo que não a tenha compreendido habitarei o fogo em carne e ossos e desabitarei a vida o melhor que possa.
minha morte não existe os homens é que teimam em dize-la triste
na minha morte a vida estará presente. a minha e toda outra que leve de mim a compreensão do tarde e a não compreensão do que se sente.
na minha morte desarquiteto o limite deixo de ser só homem adredemente restrito e caibo na rebelião de todos os meus sentidos aqueles que trouxe à mão e todos os outros que nem tive
na minha morte me definitivo passo a ser um ego coletivo.
145
modernidade
como moderno o aparelho móvel é o tamanho exato do homem e seu interno o verbo que transmite é claro e desconexo nada do que ele é está interno antes se transmite alheio a seu ego nos programas em que a telefônica lhe externa
avançado o homem vira acessório do nada cada celular é um trânsito infecundo das palavras perdidas pelo mundo
cai-lhe a vida em programas que tecem um sonho e estabelecem o drama: o homem é sempre menor que aquele que o chama a iniciativa da chamada é o aval da dominância
apenso ao aparelho o homem alinha passos que nem são seus pelos caminhos falta-lhe pensar uma razão por que caminha guardada a desproporção da inumana companhia
de resto pela cidade o homem acompanha a solidão em direção a nada
135
Menção a Frederika
assim como Frederika cerzida ao coração holandes Filipéia quase se estanca com seu destino de rês
nem porque Frederika se ousasse menos urbana mas que se quisesse alegre no exercício do drama
porque galões encestados no seu ombro mais rural l he ditassem um ritmo lento qual vento em canavial
e Filipéia quer-se rápida na sua viagem sagaz que empreende como bolandeira nos engenhos do nunca mais.
pois mesmo sendo cidades em contrafortes definidos Filipéia nunca é Frederika apesar de todos os indícios
assim partida Filipéia em Frederika amordaçada nunca que uma palavra pesasse mais que um fardo
já quase Filipéia ainda tão Frederika o tempo lhe dita ordens como chefe de polícia
revolvida sua terra por pés tão passageiros onde os índios que amanhavam seu jeito de verdadeira?
é que lhes sobram os suores dos homens que lhes atiçam construindo uma história envoltos em seus ofícios
143
memória
A memória não preside apenas auxilia as dores que não tive é que vivê-la pode ser um jeito de trazer o fato pra dentro do peito e tê-la como assente no cartório da vida coisa de ser quase falsa mesmo objetiva pois tange a franja da alma como uma tristeza que apenas deixou de ser alegre por desnatureza.
A memória não existe é apenas um navio que teima em trafegar no fato dos mares que nem vivo. É que em suas ondas não navegam propriamente antes inventam águas em que nem se está presente.
A memória é um cabide em que toda a paciência está em riste cabe apenas trazê-la muito amiúde e consumi-la adredemente naquilo tudo que eu pude.
A memória não se anuncia antes é propaganda do que não vigia e esse seu jeito de fato é apenas alegoria que as sinapses jogam pelo vão dos dias.
A memória é sempre intacta basta não tê-la como matemática é preciso cabê-la sempre avulsa e em números em que se caiba.
A memória é uma gestão pacata nada lhe gerencia mais que a alma porque é de tê-la própria assim aos borbotões que se distingue quando em paz que se atinge quando não é maneira de viver morrendo inventando vivas as razões.
A memória enfim é quase um não que nem chega a ser exata quando próxima da razão.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.