qualquer lugar é sempre onde curso que se queira perto mesmo longe.
é que ao homem é dada essa sintonia de querer-se pleno mesmo baldio por derramar-se pela vida em desfastio.
117
encruzilhada
saio da inércia em que me acho a encruzilhada é uma véspera do abraço
não é preciso que a tenhamos como um caminho que deixou de definir-se apenas mas há que compreendê-la na sua gesta insana de conduzir a todas as razões porque se chama aliás porque chama a encruzilhada sempre é de quem ama nunca está onde se chega nunca chega onde desama porque é por tê-la na alma que se é humano
há que sê-la na compreensão de que a vida é problema que sabe a solução em cada dilema e que se perde nas trocas que o homem manipula como se dar fosse moeda que encontrasse recusa
na encruzilhada me apercebo que a coragem é um tipo escancarado de medo que nem chega a ser diferente de todos os seus outros enredos.
90
em torno do meu país
na favela as balas vão aquelas do coração e as da guerra
na favela chora-se em dobro as lágrimas de pedra e as do choro
líquidas as últimas são mares em que se afoga a vida e seus pesares
sólidas as de pedra são os gritos de quem luta melhor dizê-las verbos pela rua suja
na favela o poema se escreve com o sangue e a vontade de quem deve
poema em dobro retroativo que teima em ser de pedra apesar dos sentidos
na favela a palavra medra como o sacrifício semente que não plantada pergunta que nem se diga
na favela a morte habita uma intimidade comedida parente que nem seja íntima da vida.
104
em pássara consciência
de bólide não se avoque por pássaro se ter mais a molde enseje continência quando infinita e se preste mais a pulso quando incontida tenha no jeito a concisão e a urgência de um sonho gravado no vão da paciência
do tempo não se provoque a ser apenas fração que me console que seja bólide e que não seja engastada na conveniência de toda a natureza.
50
eletrocardiograma
nenhuma agulha discursará meu pulso na proporção do amor na pauta do meu susto nem se dirá nervosa apesar do meu soluço antes se queira rosa de todo esse meu uso porque mecânica na sua estadia avara poupe meu coração da brutalidade da máquina.
nenhum coração de propriedade tão exata restará na ponta da agulha nessa estranha matemática que reduz meu peito impune a se fazer de tão frequente que me jogue as emoções pelo vão incauto dos dentes.
70
elegia prosaica ao caldo-de-cana com pão doce
o rio verde é quase uma alegria que amolga o instinto na garganta e como porto tange a língua como as mulheres tangiam as panelas gerais da minha infância
pão invente-se pão menos por ser pasto mas por trazer-nos à mão um sentimento arcaico e um gosto transeunte e laico dos enredos disformes da razão
e ainda que pasto seja a condição pra se ter o peito livre grávido da nação
157
elegia com vegetais e outros tantos
I
miosótis quem te baste que desate o escândalo azul de toda face
II
margarida que te lida rosa maior te queira do que a vida
III
jasmim porque assim é bastante ser só para estar sem mim.
IV
açucena vale a pena truncar o jeito de flor em ser, apenas
V
dália que te vista teu vestido de planta reprimida VI
boa noite que te traga o tempo escancarado em que caibas
VII
girassol que te deságuas em ser um quê do sol a que te abraças
VIII
flor-de-lis porque te quis rasgo das tranças que te fiz
IX
sempre-vivas quando queiras inventar o sangue das horas que incendeias
X
lirios porque qui-los estreitos assim em mim os meus sentidos
XI
petúnias assim forjadas na dança maior da vida desatadas
XII
rosedás porque me dás a culpa mais urgente que me traz
XIII
orquídea porque tanta a desavisada floresta da garganta
XIV
verbena que te quisera um tanto menos que flor e muitas léguas
XV
trevo porque me atrevo a gerir meu riso mesmo medo ?
XVI
espada de são Jorge porque vige esse jeito de ingratidão em que se vive ? XVII
antúrio assim pacato quem te prende no sonho que me faço ?
XVIII
palmeira por que tal aprumo em apontar o nunca como rumo ?
XIX
araçá por quem será a razão de quem não é porque está ?
XX
avenca despenteada quem te lavra tão basta em quase nada
XXI
alfinete nem te prezas assim em vão lançado para a terra
XXII
maracujá por quem está traçado um destino que já nem há ?
XXIII
vagalume quem te pune a ser candeia de mundo tão sem rumo ?
XXIV
grilo que desandas a gritar um amor que nem proclamas
XXV
rosa quem nervosa rasgou o ventre do chão por que se goza?
XXVI
pardal por que do verbo nunca te fizeste carne apesar de tão sincero?
XXVII
jibóia quem te apóia a ser compasso de um mundo que nem notas ?
XXVIII
papoula do teu ócio quem te fez ofício do que mostras ?
XXIX
capim santo que nem tanto te pareces maior que meu espanto.
XXX
vitória régia que nem é tanta como se tamanha fosse se não planta.
XXXI
homem, jardim de tudo quem plantará as flores nos ombros do mundo?
108
dos vôos do povo nos ombros do futuro
garças tecerão o céu entre as palavras do povo e os ventos abrirão as avenidas de todos
e o tempo estará nas algibeiras com a solicitude inata de quem constrói as horas nos desvãos da prática
todos estarão em todos pela lógica exata de que a razão dos homens permanece intacta como se fora procissão de todas as almas
88
dos viveres das gentes
quando se vive humanamente a vida sempre inventa de inventar a gente é que lhe invade um jeito de ser completamente.
48
dos verbos e sua andança
meu verso apenas tenta derramar nas palavras minha crença
não que o verbo nas trincheiras da vida tenha os mesmos metros do que se acredita antes delibera nas esquinas do novo aquilo que a palavra mede em todos
meu poema apenas convoca todos os meus afetos todas as minhas portas e se os prolato e se as invoco é por ser o futuro aquilo que eu posso.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.