haverá manhãs em que meu pai me faltará e eu, jogando à vida, inventarei as tardes em que ele esteja
haverá manhãs em que me faltarei e caminharei pelas noites como um falido vagalume
haverá manhãs em que as manhãs faltarão e os homens caminharão sem tempo pelos sovacos do mundo
haverá espaços em que as noites faltarão e a estrela da manhã adormecerá encoberta nas dobras do teu vestido de tule
haverá corações engordurados e a estranha sensação de vãos pecados
haverá razões desencontradas e a urgente razão dos astronautas
haverá senões em cada face e haverá um verbo que me baste
haverá um caos em cada esforço e o exato ângulo do peito em que me morro
haverá vontades que não se aprestem a remoer os fatos através dos séculos
haverá soluções de problemas não postos e uma leve fímbria de tarde em cada nesga de remorso
haverá manhãs em que meu pai me faltará e eu amolgarei os tempos em que ele estivesse
haverá desusos frequentemente e a leve compreensão do que se sente
haverá multidões que se farão sozinhas e canções de mil invernos nas esquinas dos dias
97
discurso da morte
o morto navega quase impunemente na balsa dos olhos de quem sente
e trai um tempo com jeito de arma molhados passos e prantos que se amontoam na alma
a carne de dureza tanta rasga o vão da vida como uma lâmina
as mãos dormem lânguidas como pássaros inúteis e sem dramas
o morto navega ainda impunemente a balsa do seu corpo nos olhos dos presentes
rasga objetivo a íris mais urgente num rio de saudade que se comprime nos dentes
sem vau o morto bóia os quilos de passado nos ombros da memória
e do transeunte portador da vida salta um cheiro de dó informalmente reprimido
a morte sempre esquece de esquecer a vida
121
Desmedidas
desconfie dos tempos postos em medidas nada do que é exato é totalmente a vida
sua matemática é de estranha lida nunca se contém números mas em desmedidas
suas infinitudes são tão restritas que cabem quase sempre nos bolsos da camisa
suas multiplicações apenas recomeçam as divisões que as horas ensejam em seus tropeços coisa de nem ser avaro porque pleno e avesso
desconfie dos absolutos e dos sempres invioláveis por trás de cada infinito há um susto mensurável não com os metros do que se possa mas com as réguas da vontade
desconfie dos relativos e das vicissitudes dos espaços tudo cabe num metro apesar de incontrolável é que a vida é quase absoluta quando nela se cabe
desconfie da desconfiança usada como arma ela apenas se presta à razão de quem se amarga é que a vida não é dada às incertezas de quem a traga
desconfie das manhãs arrazoadas postas num tempo sem debates nada do que é o tempo resvala apenas em palavras
desconfie das amarguras um tanto adredemente nada que não respingue na condição de contente e na informalidade dos anos que se tem como vivente
mas, sobretudo, desconfie do tempo e dos verbos em que se esteja navegando sem os mares por perto.
121
Desmedida II
não é de ser absoluta a parte que se tenha infinita antes é de tê-la provisória coincidente ao modo de uma luta travada sempre entre o um e o todo e tudo que equilibra essa disputa
não é de ser também restrita a parte que se tenha assim medida antes é de tê-la infinita avara, porque inconseqüente, no rol de suas desmedidas.
141
Descaminho
a ponte estava lá entre mim e a verdade quanto menos pudesse mas havia a possibilidade não que a houvesse definitiva como um estatuto que contivesse a saída mas um tênue indício de que a vida pode, às vezes, ser vivida ex oficio
a ponte estava lá dentro de mim inconstruída como se fosse um caminho de inventar a vida
a ponte estava lá e, no entanto, distraída permanecia assim como uma lembrança esquecida.
116
De viver
a vida em vão é intifada do coração
e é difícil sê-la assim à pulso e dar-se jeito melhor de mantê-la em uso
a vida é rio de nado duvidoso nas braçadas gerais desse meu povo
e é tardio vê-la não obstante o que desregra o modo de sê-la avante
a vida é piracema de exercício adrede e que não cabe numa lógica onde não seja breve
e é não se ter tempo de consumi-la vasta guardada a desproporção porquanto tê-la baste
a vida é reticência da grave compleição da paciência
e é difícil tê-la individida e levá-la plena nos bolsos da camisa
melhor é tê-la no peito quase completa numa certidão exarada em muitos et ceteras
a vida é navio e gaivota nas âncoras gerais em que aporta
e é constante vê-la em voo conjugado com os sonhos que se traz em grandes cachos
a vida é absurda onde não exercê-la em desculpas
e é trânsito de rara urdidura nas esquinas que o peito em vão atura
a vida é genérica mesmo que seja única sua matéria
e é de dar-se ao homem na proporção exata de toda sua fome.
137
Da saudade como futuro
Ah! saudade que prende o tempo no peito e joga a manhã pelo mundo que brinca nos olhos da vida que salta nos ombros de tudo
Ah! saudade um dia será a esperança de quem espera a verdade por certo será no futuro o canto da liberdade
Ah! saudade um dia virá como paz vestida assim na cidade perdida nos sonhos da gente vivida nas ruas da tarde.
111
de verbos e informes
A informação se ajusta aos moldes de quem a usa forja na mente uma desculpa de quem navega todas as notícias de uma culpa e se desconforma adredemente o conteúdo de quem se procura.
A informação abusa de vínculos tudo que lhe diz respeito é como estrada competente que tanto mais se caminha tanto menos passos consente
a informação é noturna em suas fontes a claridade ofusca os verbos de quem pune e não se trai enorme como quem se retrai em tudo que não pode
a informação é transversa o sentido que indica tergiversa e pondera como as coisas que os homens amiúde lhe oneram
a informação é transeunte nenhum caminho lhe estanca ou resume a expansão é sempre a norma do que lhe assume
a informação mais que sinapse é contradita dos pensamentos que se tem em vista pois escorrega do cérebro aos borbotões como se fora notícia e rebelião que os verbos arrumam em todos os seus vãos
a informação rasga a realidade em contrafação e o que é dito se escreve com tintas desconexas criando o teatro enorme de uma vida paralela
mas no fundo a informação carrega tudo que ao homem assim onera uma certeza de gestar o mundo por cima de qualquer pedra.
91
De terras de onde vier, quem virá?
das terras de onde não venho nem o medo me acontece pois tudo que me é outro ainda assim me parece como as luas que invento e que se põem no meu tempo
das terras de onde não venho melhor deixar-me alheio que navegar nesse vau de rios que me concedo em que a correnteza nem teima em lavar-me do meu medo
das terras de onde não venho a poesia não medra como o mel inconsumível que brota de toda pedra e que descompassa o coração com a insistência da guerra
das terras de onde não venho melhor fincar-se a bandeira no espaço da consciência em que drapeja a centelha do tanto que seja o sonho de tudo que não se queira
das terras de onde não venho o outro me aconselha a ver em tudo só terra de uma mesma bandeira que escorrega pela alma e o coração incendeia
das terras de onde não venho proceda meu coração com a certeza do rumo de um país temporão que teima em ser usina de fabricar solidão
das terras de onde não venho tenha-se enfim a certeza de que nem sempre me é estranho o descaso da natureza que meu peito teima em conceber apesar de uma vã incerteza
II
outro a terra o bruto grito e guerra de tudo que não sou e pedra
outro eu incorre e torna-se em mim e morre como se não estranhas fossem a posse e a morte
outro sou eu e como eu divirjo da consciência que não outro nem duvido
outro sou eu pelas calçadas das ruas em que me abraço
outro sou eu pelos destinos em que nem caibo
outro sou eu pelo desuso das almas
outro sou eu a tanto custo pelo que sou eu e luto.
III
das terras de onde venho invento a compreensão que outras terras dizem de todos e tão assim servirão que nas dobras do futuro de uns e outros serão
as terras de onde venho sempre em mim caberão apesar de sobrarem fartas na simples sem razão de ser uma pátria só quando todas já nem são
pois a pátria do homem é sempre o coletivo não a terra que lhe cabe como espaço restrito é antes a compreensão de que as pátrias acabam e só indicam a verdade de que apenas habitam, no homem, a carteira de identidade.
117
de tempos e verbos
nada haverá em tudo que não diga mais que um verbo em desuso guardadas as proporções de todos os discursos
tudo haverá em nada que não transite incólume como a madrugada guardada a razão de um tempo mudo grávido de palavras.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.