Lista de Poemas

Infantes caminhos

o crivo de Eratóstenes
jazia desprezado
no ventre do caderno
como um fardo

o menino
dado às palavras
embutia nos números
suas faltas

nada do que era crivo
atestava sua alma
25

bancos do tempo em ritmia

o tempo
não se gasta
sua propriedade
é discurso monetário
só em voos distópicos
dá-se como lavra

o tempo é sempre corrente
nunca diz-se avaro
quando entornado em todos
sem qualquer gargalo

poupar o tempo no peito
é só um jeito de contá-lo
45

Futuros em estado ambíguo

meu método
é sonhar o todo
e deixar-me lúdico
em cada fôlego

o futuro
assim cronometrado
é um beco esvoaçante
dos voos do passado

viver apenas o presente
é uma defasagem dos fatos
24

Berimbau em gestos

rouco,
o berimbau discursa
uma memória negra
dos desvãos da luta

o verbo sonoro
patina nas lembranças
todas as áfricas sentidas
em lampejos de esperança

o berimbau alinhava sonhos
nas entrelinhas da dança
48

Kurkino em rompante memorial

nas costas de Kurkino
a neve aquecia
todos os sonhos
que a vida permitia

no meio da noite
tangendo o mundo
o homem olhava o céu
com a certeza de tudo

Kurkino ainda nem nevava
os descaminhos do futuro
52

Siá Luzia em áfricas intensas

Siá Luzia, temerosa,
quando sorria
espalhava áfricas
nas faces do dia

em suas panelas
como gestos intensos
desabrochavam vivos
todos os desejos

Siá Luzia era uma montanha
na planície dos seus medos
tudo que lhe tangia
era a paz do seu enredo
36

Gestação informe de modos

e como fora trazido
às pulsaçōes do fato
deu-se o homem a crescer
em todo seu estado

ao dar-se às pernas
para conduzi-lo
libertou as mãos
e todos seus artifícios

e desse engenhar-se, como costume,
nasceu essa avença com o infinito
59

Pátrias manhãs da fome

a manhã larga
cabia pela praça
como um aconchego
da madrugada

deitado,
no colo da marquise,
o homem consome
a fome armazenada
e retrata nos olhos
nos palmos da crise
uma pátria enxovalhada
51

Das correntezas da vida

o aplicativo
é estar consigo
todas as horas
que persiga

e dar-se a tantos
no condomínio
de construir a história
como destino

e mergulhar no tempo
e abraçar os caminhos
27

Das vazōes intrínsecas do homem

nas costas do tempo,
como uma ameaça,
a vida dói nos homens
pelas suas praças

de seus desejos
embrulhados em desculpas
ressoam magras razōes
e um certo quê de culpa

tudo que lhes atiçam
é o tempero da luta
48

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.