Lista de Poemas

Das correntezas da vida

o aplicativo
é estar consigo
todas as horas
que persiga

e dar-se a tantos
no condomínio
de construir a história
como destino

e mergulhar no tempo
e abraçar os caminhos
28

Das vazōes intrínsecas do homem

nas costas do tempo,
como uma ameaça,
a vida dói nos homens
pelas suas praças

de seus desejos
embrulhados em desculpas
ressoam magras razōes
e um certo quê de culpa

tudo que lhes atiçam
é o tempero da luta
48

Infinitos em curso

o céu
nem desconfia
dos pedaços de deus
em suas vias

espalhado no mundo,
assim inconfesso,
delata os infinitos
que convivem o universo

o céu é um recado exato
da matéria em seu nexo
62

Poema de circunstância IX

dos olhos, nublados,
escorriam chuvas
como um temporal urgente
de algumas culpas

a fome tremia em ondas
e das mãos, magras lanças,
os ares enchiam a manhã
de navios da desesperança

o homem, esfaqueado pela vida,
discursava pedidos numa triste dança
65

Da arte em ritmos da história

sobraçando a arte
o homem cogita
de por-se alheio
aos ritmos da vida

sobe-lhe a ânsia
de sentir-se único
e deixar-se lúdico
construindo o novo

a arte, sorrateira,
é só um retrato
da construção de todos
86

Marinha com materna intrusão

os braços de minha mãe
eram um porto resumido
onde atracavam os navios
que fui quando menino

minha mãe, sorrindo,
nascente dos meus mares
tangia todo meu amor
com o imã dos olhares

eu deixei-me tanto pela vida
que ainda nado nesses mares
91

Das pugnas do eu lírico

o poema, ressabiado,
em todos seus indícios,
determina a Fidel
não chegar a seus limites

o eu lírico, onipotente,
como obstáculo,
põe nas entrelinhas
todo seu sobressalto

Fidel, desavisado,
constrói poemas
com o povo em seus braços
75

Lua de esturjão

a lua de esturjão
tramita indolente
como se fora um desejo
nos olhos da gente

boiando clara no espaço
fugindo dos seus ritos
parece dar-se aos olhos
como um enfeite do infinito

a lua de esturjão
é um caviar dos sentidos
88

Infantes descalabros

na infância, encabulado,
nos meus versos
o crepúsculo era, assim,
um torcicolo do universo

o que faltava da vista
no horizonte retorcido
era só um trejeito
das larguras do infinito

o mundo era um discurso
com os verbos de menino
125

Da genérica condição humana

minha marca
é ser genérico
nos sentimentos
em que me meço

dou-me à mim
quando todos
como um astronauta
em coletivo vôo

os voos da vida
são o meu esforço
em lançar-me no espaço
como um alvoroço
87

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.