Lista de Poemas

Das liberdades

 

escravo de mim

dou-me à liberdade

inventando um tempo

que me caiba

horas de sonho

gestos que ajo

escravo de todos

dou-me ao plano

de construir um tempo

sempre humano

74

humanas vias

 

inventar-se

é só trejeito

da vontade

coisa de matéria

dada à liberdade

na fluência exata

em que se cabe

consumir a vida

nesses saltos

é dar-se à rebelião

em pacífico ato

7

Reminiscência XLVIII

 

por trás da manhã

a noite armava

na síncope de si

a madrugada

a escuridão

em franca distopia

tentava negar as luzes

que o mundo urdia

as rimas do verso

nem pressentiam

que o sonho brilhava

mais do que dizia

32

Fugas

 

a fala do poema

foge do poeta

no arco do verbo

de alheia seta

o alvo nem sempre

dá-se a conversa

a veia das palavras

é discurso interno

medra privada

em coletiva saga

24

Das raias da alma

 

a alma é passatempo

a matéria joga neurônios

ao sabor dos ventos

os que inventam a vida

os que enganam o tempo

fazê-la trama

construção do futuro

desconstruir as pátrias

urdidas no mundo

vivê-la universal

nas urgências de tudo

19

Noções em sertânica saga

 

a terra, magra,

dá-se sertão

ainda avara

como fora grito

alinhavado

nos pés do povo

em caminhada

a vida

desgrenhada

pinta de futuro

a madrugada

6

Do outro em lúdica trama


do outro ter-se-á a lógica

de inventar-se em mim

como se fosse própria

toda a ilação humana 

de quem se constrói

por dentro da história


 

e há de ter-se assim

humanamente conjugado

como se gente fosse então

uma espécie de gado

que rumina verbos e futuros

em todos os cercados


 

e fosse a própria identidade

do que lhe era o todo

por ser só de si o contrassenso

de parecer tão pouco

quando não existe o espelho

para refletir o outro


 

é que a vida se constrói

quase sempre aos poucos

e há um futuro reservado

nos desvãos dos outros

que teimam em ser passado

do que em nós é futuro e porto

9

Escrava liberdade

 

dado à vida

em que me caiba

ultrapasso os metros

da senzala

a liberdade é escravidão

fincada na alma

guerrilha humana

em que me basto

29

Da utopia recorrente

 

a utopia é só o grito

de quem abraça o infinito

na carência dos fatos

na esteira dos sentidos
 

a utopia é o rito

de quem habita o futuro

nos sentidos

com a intimidade humana

de quem constrói a vida

34

Da concisão humana

 

objeto

posto no mundo

dou-me à condição

de rastro de tudo

as marcas do que me vive

deixa pegadas nessa luta

andarilho

caminho o próximo

rumo das estradas

em que me conforto

a matéria dá-se a tanto

como invenção do outro

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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.