Lista de Poemas

Ode à Pedra do Rodeadouro

a pedra, em silhueta,
como um encontro
joga nos olhos
o tempo e os sonhos

finge um horizonte
com o exato desalinho
das árvores que teimam
em deixá-la fingindo

a pedra é, sobretudo,
um tempo dormindo
58

Tempos em aritmética visagem

esse olhar derramado
nos ombros do horizonte
talvez divise o passado
ou um futuro tão longe
que esquece como presente
os agoras que tange

o barco da existência
navega um mar sem medidas
que tange desarrumados
os tempos todos da vida
navega-los a destempo
é esquecer suas medidas
90

Pássaro do tempo em larga passada

dar-me a voar
como um pássaro coletivo
e navegar os ares
em que me  lanço ao riso

estraçalhar gaiolas
com as asas do tempo
e a larga compreensão
de cada sentimento

flutuar em mim, com todos,
na cama leve dos ventos
23

Das intempéries mornas da vida

assim largado
nos vendavais que sigo
abraço a realidade
em todos seus sentidos

é que senti-la
com uma humana culpa
é trazê-la resolvida
nos futuros da luta

embrulhar-se na vida
é um jeito da disputa
71

Meus flagrantes alinhados

meu flagrante
é estar comigo
em todos os sempres
que consigo

os ajustes
dou-os à vontade
de estar preso
a toda liberdade
as que construa
e as que me invadem
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Risos lacrimais em larga camuflagem

a vontade de chorar
talvez pressinta
os risos amontoados
nos ombros da vida

as lágrimas, às vezes,
rio camuflado
são risos que escapam
da simples risada:
desembocam cachoeiras
nos infinitos que declara
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Do poema em vazão compulsória

o poema,
como não fazê-lo,
se suas sanhas
fazem cócegas no cérebro?

e nem importa
que entorne pelas canetas
desafogar o pensamento
é como varre-lo pelas letras

o poema é só um cacoete
de quem navega o que pensa
70

Das impaciências postas em contraste

a impaciência
é quase um disfarce
que a calma teima em usar
quando não nasce

ancorada na vida
a vontade acalma
e não há como não tê-la
construtora da alma

a vida é só um desenlace
das vontades e das calmas
cerzidas à amplidão
de todos os constrastes
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Impretéritos rompantes da pertinência

e nessa imperfeição
trago-me perfeito
com o sonho nos olhos
e vontades no peito
todas as minhas retas
são as curvas em que deito
como se fossem estradas
a que me dou direito

imperfeita é a perfeição
e os disfarces dos defeitos
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Utópica feição do futuro tempo

utopia, na verdade,
é só o nome do futuro
quando ainda cedo
estamos derrubando muros

trazê-lo utópico
é só um disfarce
de quem credita à história
a consistência dos atos

o futuro é ainda jovem
apesar dos anos que enlace
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.