Lista de Poemas

Genealógica fração de todos

transgrido
a genealogia
toda multidão
é a família

por tê-la na praça,
pública e arredia,
dê-se ao comício
a exata serventia

o homem é uma multidão
de todos seus convivas
123

Da notícia como fato avesso

a notícia, posta na vida,
é apenas disfarce
das embutidas razōes
das tarefas de classe

o conteúdo
é uma forma avessa
de alinhavar o pensamento

em adrede pressa
o fulcro da verdade
é um caminho de avenças
39

Ode ao Rio Mundaú

no Rio Mundaú
a infância escorria
como uma peça quente
numa noite fria

a alegria pulava
as léguas de seu canto
num teatro em que a vida
era um saltimbanco

o rio era só um cordão
no pescoço do horizonte
165

Das crenças em alada fantasia

o homem
dá-se ao rompante
de fazer dos aléns
seu horizonte

garça metafórica,
imune às asas,
como voar as distâncias
em que se declara?

navegar o inexistente
é o engodo da batalha
64

Terrena jornada

latifundiária de si
a terra nem acredita
das cercas que a consomem
em larga investida

e nos contrafortes
dissemina-se em ondas
inventando defesas
em desatada vergonha

a terra amarga os dias
e nem lembra de que sonha
essas nesgas do futuro
em que estará risonha
94

Palavras e poemas em vazão

a palavra, sentida,
salta do peito
como um verso exato
em que se deita

o poema, contrafeito,
arruma-se em verbos
como se não fossem palavras
seus trejeitos

a confrontação, verbal e lúdica,
nos aparatos de quem sente,
é só um desacato da disputa
82

Geriátrica ilusão da vida

o menino, arredio,
inventando o tempo,
teimava em ser velho
nas rugas do pensamento

doía-lhe a juventude
como um desacato
a tudo que envelhecia
em seus contratos

o menino nem sabia,
a contrassenso,
que a velhice é uma juventude
esquecida no tempo
27

Dos escapes intensos da vida

meus muros
sequer os construo
deixo-me às planícies
abraçado ao futuro

bato às portas do tempo
com as horas que guardo
na constância humana
de inventor de abraços

tudo que me encontra
são os encontros que traço
54

Do futuro em ritmo obrigatório

nada do futuro
deixará de sê-lo
apesar das mortes
apesar do medo
tudo que é vindouro
amanha um segredo:
a consistência do tempo
supera qualquer enredo
os espaços que ocupa
encampam o tarde e o cedo
e todas as intempéries
que pretendam interrompe-lo
84

Pedra do Ingá em resenha avulsa

na Pedra do Ingá
o passado futura
todas as razões
por que se luta
as que estejam claras
e as que, nas escuras,
precisam um certo jeito
de resumir as culpas

as pedras do tempo
são resenhas assinadas
dos ancestrais que habitam
todas nossas estradas.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.