Lista de Poemas

viveres em unidade alheia

viver
é quase sempre
esquecer no outro
o que se sente

estar uno
dono de sonhos
é contar-se outro
como patrimônio

a unidade de mim
tem um quê de abandono
115

Verdade em refluxo renitente


posta, assim, à meias
com a realidade,
a verdade é um tempo
de liberdade

é que lhe sobra o custo
de encachoeirar-se
e entornar-se no tempo,
nua da veracidade

a verdade é só um jeito
de construir-se na idade
105

Jornada temporal em escala lógica

as manhãs
nunca são baldias
sempre há um fato
nos ombros do dia

arrumá-los, aos solavancos,
nos degraus da memória
é só um jeito do povo
de espalhar-se na história

ao futuro cabe decretar-se
nos atalhos em que se mostra
36

da placidez tonitruante

o silêncio
nas ruas do pensamento
pesa como um grito
alinhavado nos ventos

é que a mudez do verbo
traz pedaços da vida
e os envolve de nós mesmos
nas cicatrizes sentidas

o silêncio é um rompante
infenso a medidas
61

Do poema enquanto falar


meu verso
em seu avesso
é só um verbo
em que me esqueço

dizê-lo,
nos ombros do tempo
é vislumbrar horizontes
nos mares que comento

o poema é só a manhã
das noites que intento
86

Da tristeza em ritmos e clarões


a tristeza
dói no tempo
como uma pedra
solta no pensamento

tê-la como urgente
nos tropéis da fala
é só um desconforto
das instâncias da calma

consumida, passageira,
vislumbra, lenta, pela estrada
os pedaços de riso
amontoados na alma
51

Maternas configurações da saudade

bordada no tempo
como uma estrela
a mãe habita a memória
como uma centelha

o que lhe tange
é a compreensão do fato
de que apenas e tanto
restamos no mundo inexatos
na condição de sermos apenas
uma parte dela, aos pedaços
82

Procissão em agudo transe

o mundo dói
como uma farpa
que aponta, unânime,
para os canalhas

peças do engodo,
como navalhas,
raspam a face do sistema
à custa alheia de trabalhos

o futuro espreita
no escaninho da vida
as demarches do tempo
os atalhos da saída
89

Das sirenes declaradas na praça em reminiscência


as sirenes, em gritos,
narravam apenas
o zumbido dos fatos
em adrede urgência

na praça
onde verbos eram atos
as palavras açoitavam
as urgências dos fatos

e no leito da vida,
no contorno da disputa
havia um gosto do futuro
e as certezas da luta
37

Do balançar dos gestos em rasante rebeldia

dos ventos
tenha-se a compostura
de espalhar o tempo
no vão das lutas

brisa e furacão,
adredemente,
como se fora aurora
de todos os poentes

a vida é um vagão
de todos os trilhos que consente
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.