Lista de Poemas

Fulgores em rasa simetria

o sol, displicente,
entoa luzes
como um farol
intermitente 

a noite, paciente,
nem se importa
de tê-lo como lua
nos olhos da gente 

o fulgor exagerado
é uma luz inconsequente
que espelha muito mais
as sombras de quem sente
80

Cálculos em gestão intensa

problemas
quando declarados
são só trejeitos
de algum cálculo 

trazê-los contidos
nos degraus de certezas
é quase consumi-los
em duvidosa represa 

a matemática inteira
em cálculos e premissas
é só um desconforto
da dialética da vida
34

Paisagem em faminta praça

triste, o pombo,
faminto na praça,
nem sonha a paz
em que lhe retratam

antes arrulha
uma fome exata
nos grãos que minguam
nas calçadas

o espírito santo, 
no cartaz estampado,
é só mais um pombo
que arrulha o passado.    
111

Do coletivo movimento do mundo

quando a terra
estranhar o tempo
haverá multidões
em largos movimentos

a energia da vida
extraida dos futuros
os povos armazenam
nos escaninhos do mundo

o universo dá-se ao verso
nas estrofes de tudo
31

Reflexos em murais urgentes

na parede
como um diagrama
o menino arquiteta
todas as sombras

à contraluz
a alma empina
todas as pipas
como andorinhas

o menino e as sombras
em perspectiva
inventam pássaros e sonhos
nas paredes da vida
45

Nordestina razão do cuscuz

o cuscuz
sobre a mesa
tremula um povo
como bandeira
não pelo gesto
de haver-se farto
mas pelo que de símbolo
de vontades e de fatos

o homem
debruçado no tempo
tomba a fome com gosto
nas curvas do pensamento
84

Da camponesa feição da terra


no limite dos olhos
o campo mostra exato
a camponesa providência 
de ter-se como ato

raízes em verdes mastros
rasgam a terra insistentes
como uma canção rural
na pauta de mãos urgentes

o mundo engravida da paz
nos roçados que consente
79

Dos terrenos crimes da vida

Gaia, deitada em si,
engole, entediada,
os palmos da tragédia
nos ombros da madrugada

ao dar-se amante à paz, 
absurdamente atacada,
assiste aos seus pedaços
em vulcões e nas estradas

Gaia dá-se combatente
humanamente envergonhada
29

Operária marcha do mundo

das mãos dos homens
largamente suadas
nascem até os sonhos
nos vãos da madrugada

usina humana concreta
adredemente construída
montam a realidade
em todas as medidas

parecem imensas cachoeiras
moldando as coisas da vida
67

Vaqueiro em vertente jornada

relativo e urgente
como um elétron baldio
o vaqueiro tange o tempo
nas esporas da vida

o boi é detalhe
na rural avenida
em que resta absoluto
o peso da lida

eletrons, vaqueiros e bois
nem contentam suas vidas
113

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.