Lista de Poemas

Frevo desatado


no frevo rasgado
a multidão inventa
no colo dos passos
uma grande moenda

e o moinho de Olinda
triturando a saudade
convoca o peito da gente
na alegria do passo

o frevo assim derramado
leva o povo nos braços 
86

Vivência em declarada métrica

viver
não é apenas ofício
é um tanger avulso
dos abraços dos sentidos

apontá-los exatos
proporcionais ao tempo
nos espaços abraçados
no vão do pensamento

beber todos os seus tragos
e habitar todos seus momentos
89

Limites em conflagração bastante

não basta
tanger a vontade,
a prática
é o rumo da liberdade

não basta
o passado em desuso,
o presente é o curso
do futuro

não basta
só bastar-se,
é preciso inventar
os outros que se bastem 
87

Factual consenso da memória

desenhada no tempo
no desconforto das horas
a memória pesa na lembrança
todos os quilos da história

e avoluma o distrato
de dizer-se inconsumida
quando fora uma morte
a quem dá-se a vida

os fatos teimam sua lógica
apesar de todas narrativas
87

Das rotas em futuro

homeostático
o prazer informa
a rebelião urgente
da reforma

claudicante,
nos debruns da forma,
a razão espreguiça
suas normas

o homem caminha lúdico
toda sua rota
41

Ensimesmada vazão

esqueço-me nas horas
como um astronauta
flutuando as demoras
nas gravidades incautas

e saio de mim
como um bólide intenso
alinhavando as curvas
em que me tenho

chegar ao outro, como nave, 
é o início do que lembro
86

Absoluta relatividade do todo

o absoluto
tramita dividido
nas aparências do todo
e a parcimônia dos sentidos

traze-lo definitivo
nas curvas do juízo
é não reconhecê-lo
simples artifício

o absoluto é só um jeito
de conter-se relativo
67

Das parcimônias do querer

e no jogo da luta
a vontade não desfaz
um passo à frente,
um salto, dois atrás

a ânsia pelo futuro,
num presente sem comportas
naufraga a realidade 
contra todas as portas

só a vontade é pouco
no tanger da história
86

das alegrias e tamanhos

desinvento minhas culpas
nas sombras do asfalto
e permaneço incólume
em cada passo
nenhum carnaval é tanto
que desatenda o vão do meu abraço

vida é sempre do tamanho
de todos nossos palmos.
54

Da preguiça em desordenado prompt

dos ombros do céu
vaza a manhã, já tarde,
e uma vontade baldia
de exercitar a vontade

dormindo todos os sonos,
no corpo, esquecido,
jaz um trem estacionado
em todos os seus trilhos

a preguiça é quase um desdém
aos reclamos da vida 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.