Lista de Poemas

Da fome em sol, dias e calçadas

o sol,
translúcida vertente,
engole a noite
mansamente

a calçada, impunemente,
já em madrugada,
guarda humanos em seu leito
em fomes aprazadas

o dia, intensamente faminto,
deixa-se fluir envergonhado
102

Transverso sentimento em avessos fáticos

rasgo minha tristeza
com os risos que alinhavo
e os pensares que construo
das cicatrizes que trago

cada riso, 
assim atravessado,
lambuza o pensamento
de futuros e passados

nas circunstâncias da luta
o tempo é um rio desatado
114

Andanças em mim em atalhos

quando passeio por mim
nas estradas que consigo
deixo-me a caminho
de estar sempre comigo

das encruzilhadas 
postas como discurso
dou-me mais a vê-las
grávidas do futuro

e tanjo-me nos atalhos
que mantenham meu rumo
78

Normativo em acelerada vazão

a norma,
nos artigos deitada,
marcha suas ordens
em imposta caminhada 

grávida de interesses
em alíneas e notas
tange os homens
aos parágrafos da revolta

e a compreensão de si
é tudo que a revoga
61

Dos bólides em volitivos rasantes

a nave, incandescente,
morde o céu em seu repente
como se fora um pássaro
de voo intransigente

desenhando o tempo
em seu rumo, declarado,
invalida todos os ventos
nesse pulo apressado

dos destinos a que se presta
a lua é só um recato
da vontade de, máquina,
deixar-se sempre no espaço
81

Um passo à frente, dois atrás

a vontade,
posta como fato,
esquece a necessidade
da concretude dos atos

a realidade, 
aceita apenas o desejo
como ação explícita
de todos os passos do enredo

o desejo e a vontade afoitos
são um descuido do medo
32

Laçadas oníricas em recorrência

menino,
envergonhado,
eu sonhava o futuro
como um grande laço

nas cordas que pude,
laçava o tempo
e todos os desejos
do pensamento

esse brincar do futuro
é um sonho recorrente
109

Veredas em sertão dizentes

o sertão,
adredemente calculado,
comenta todos os sóis
em que esteja espalhado

e no trânsito dos gestos
dos ventos que pressente
deixa calores escondidos
nas chuvas que consente

o sertão é um mar vazio,
encabulado e reticente
66

A Wladimir Ilyitch Oulianov

em passos desatados,
nos ombros do Kremlin,
ouve-se um caminhar
de camaradas e de Lenin

é que a memória
pela história espalhada,
preenche todos os vãos
de cada camarada

navegante  do povo,
nos  meandros do discurso,
Wladimir é um transatlântico
nos portos do futuro
44

Rural declinação da camponesa lida

o camponês, 
plantado na vida,
navega o suor
em que habita

trator de si
dá-se à fantasia
de engravidar a terra
nos leirões da lida

e no roçado dos sonhos
inventa os campos da vida
50

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.