Lista de Poemas

Dos velejares históricos da vida

a história
nunca é antiga
tudo que lhe rege
é a vida

o dize-la passada
é só disfarce
de quem não a faz
com todas as artes

a história é a cama
em que sonhamos nossa face
47

Materna reminiscência em saudade exata

minha mãe
tinha nos olhares
todas as águas
dos meus mares

à nado, 
nas ondas do seu jeito,
eu bebia seus olhos
como um pensamento

minha mãe inventava manhãs
que me enchiam de tempo
55

Intermediação de tempos e fazeres

das manhãs que invado
com a noite nas mãos
sobra um tempo nos olhos
e restos de sonhos pelo chão

das tardes que desfaço,
já nos ombros da noite,
restam desejos assumidos
num constante alvoroço

assim, no meio do que vivo
visto-me das horas e do novo
54

Poema em famélica pose

a vontade posta
nas pedras da calçada
é uma fome avessa
desenhada pela cara

o homem aos pedaços
íntimo do lixo
inventa em si
qualquer indício

nada de ainda humano
é o seu ofício
91

Atabaques em vazão corrente

o lé configura o batuque
no fraseado da gira
e solta pelo espaço
as energias que usina

rumpi engrossa a vertente
dos africanos sentidos
jogando restos de tempo
nos ombros do infinito

e o rum entoa o rompante
das humanas cachoeiras
derramando no vão da vida
as  energias que penteia
79

Das lucrativas misérias sistêmicas

a fome
é só um enredo
que o mercado, em lucro,
quantifica no medo 

O ágio, como dilema,
transcende todas as costelas
dos que o produzem
no curso da miséria 

parasitas,  insistentes,
inscrevem na história
sua aparência de gente
166

explosivas razões do contente

num desvão da vida
espremido nos soluços
o futuro vê-se adiado
na pressa dos minutos

e o sorriso anoitece
num canto do juízo
como a querer dormir
nos ombros dos sentidos

ao homem cabe acender
os pavios do seu riso 
106

Provecta juventude

menino
desde cedo
dei-me por velho
em certezas

velho
desde tarde
dei-me por jovem
dúvidas que guardo

a certeza é uma dúvida
que a vontade resguarda
enquanto a natureza
desencapa a verdade
45

Visões do avante na crise

o gosto do futuro
debruçado na crise
desenha ilusões
em quem insiste

olhar furtivo
pelos ombros do tempo
aponta nos sonhos
o que se pressente

a crise abraça o futuro
nas razões e seus repentes
79

Índios passeios

como indigena,
dou-me itinerante
dos voos todos da vida
e seus rasantes 

e por te-los assim
como transeuntes
deixo-me estar recorrente
em tudo que me nutre 

a vida é um voo enorme
nas asas do que pude
99

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.