Lista de Poemas

Privadas propriedades em franco visar

a propriedade 
no arrastão  da história
massacra o humano
e decreta sua lógica:

tudo que seja próprio
no marginal exercício 
chame-se propriedade
e cumpra seu ofício:

gestar a fome de tantos
em todos os sentidos
até que não seja próprio
permiti-la consentida.
188

Dos trejeitos da luta

a mudança
é um trajeto tático
de quem compreendeu
a estratégia dos atos

basta contê-la
no âmbito dos princípios
e permiti-la prática
de todos seus indícios

as aparências sempre enganam
as razões inteiras do ofício
194

Geometria em humanos ângulos e retas

os ângulos
guardam incautos
as retas subjacentes
que lhes impedem os saltos

adormecidos em retas,
os raios, hipotéticos,
adormecem nas curvas 
dos seus hemisférios

o homem resiste aos traços
nas curvas militantes do cérebro
265

comícios e versos em flutuante norma

no comício
embrulhada no discurso
a palavra é pedra
de corrente uso

no meio do poema
debruçada na estrofe
a palavra é um jeito ornamentado
de parecer revolta

no comício e no verso
como um astronauta
a palavra abraça os cosmos
que se tem na alma
237

Das mágoas em controversas lâminas

as mágoas,
como cicatrizes,
rasgam a solução
de todas as crises

deixar-se atento
às alheias culpas
é alinhavar-se frágil
à disputa

nada como apagar
as intempéries da luta
262

Da cobra em ritmos e jornada

a cobra, como um rio,
escorre o corpo em campo
no descampado urgente
do seu desafio

inconstante no seu arbítrio
flutua como possível
o caminho ondulado
de seus passos invisíveis

a cobra é um trem complexo
nos trilhos exatos em que vive
233

Famélica tecitura dos cárneos lucros

assim flagrante
a fome instaura
uma vergonha intensa
nos debruns da alma

escrita no corpo
em humanas  vigas
vige como tortura
na penitenciária lide

a fome é um distrato
imposto no absurdo
de carnear humanos
como ardil do lucro 
242

Da fluvial procura de humanos mares

o rio, corrido pela tarde
derrama-se em passeata
na líquida e tenaz vontade
de ter um mar que invada

o mar, adredemente esparramado,
abraça o rio e suas sombras
como um quintal de águas
debruçado nas ondas

o homem, rio inteiro de si,
procura os mares que sonha
223

Da revelia da fome latu sensu

e nas ruas
revel da vida
a fome noticia
a inumana lida

o estômago
discursa impaciente
verbos e ossos
maldizentes

e o sistema engole voraz
lucros, palavras e gente
251

Do viver em carnaval de tempo e espaços

no meio do tempo
o espaço explicita
o quanto de nós
habita a vida

e esse desejo
de vê-los infindos
é como criar um depois
dos metros vividos

e a espacial unidade 
como um futuro
grita dentro de nós
o carnaval de tudo
viver é só espalhar-se
pelo vão dos minutos.
246

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.