nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.
Lista de Poemas
desencontro em marcha compassada
em cada ponto
em cada canto
em cada morto
em cada pranto
em cada triste
em cada negro
em cada risco
em cada preso
e cada ponto
e cada canto
e cada morto
e cada pranto
e cada triste
e cada negro
e cada risco
e cada preso
cada ponto
cada canto
cada morto
cada dedo
da triste
do canto
da morte
do medo
há triste
há canto
há morto
há cedos
ao homem cabe inventar
todos os seus enredos
em cada canto
em cada morto
em cada pranto
em cada triste
em cada negro
em cada risco
em cada preso
e cada ponto
e cada canto
e cada morto
e cada pranto
e cada triste
e cada negro
e cada risco
e cada preso
cada ponto
cada canto
cada morto
cada dedo
da triste
do canto
da morte
do medo
há triste
há canto
há morto
há cedos
ao homem cabe inventar
todos os seus enredos
56
Procissão da vida em torno do futuro
e eis o futuro
a comer-nos
com seus olhos
e eis o amanhã
germinando nas calçadas
nos esgotos
e nas portas
e de ti, parado,
não seja mais que tumba
no deserto dos ossos
no ruído do esforço
de todos os lumumbas
e eis-nos
céleres humanos
a roer a nossa carne
cheia de anos
e de ti a idade
eis-nos aproximados
pelo muito de morte
que levamos nos braços
mais eis-nos vida
mesmo com a morte
a vencer a partida
quando se é mais ao norte
e eis-nos fracos
vencedores da idade
pelo muito de futuro
que existe na liberdade
e eis-nos gente
grávidos de vontade
a febre infinita
de toda liberdade
e eis-nos martelos
de pregar a história
no quadro mais geral
de nossos olhos
a comer-nos
com seus olhos
e eis o amanhã
germinando nas calçadas
nos esgotos
e nas portas
e de ti, parado,
não seja mais que tumba
no deserto dos ossos
no ruído do esforço
de todos os lumumbas
e eis-nos
céleres humanos
a roer a nossa carne
cheia de anos
e de ti a idade
eis-nos aproximados
pelo muito de morte
que levamos nos braços
mais eis-nos vida
mesmo com a morte
a vencer a partida
quando se é mais ao norte
e eis-nos fracos
vencedores da idade
pelo muito de futuro
que existe na liberdade
e eis-nos gente
grávidos de vontade
a febre infinita
de toda liberdade
e eis-nos martelos
de pregar a história
no quadro mais geral
de nossos olhos
117
Desencontro em marcha compassada II
em cada morto
há sorrisos
em cada porto
há desencontros
em cada adeus
há a chegada
em cada deus
o nada
em cada pranto
há o desconto
do salário geral
de cada fome
e cada posse
é restrita
a cada posse
coletiva
e cada dedo
é preciso
a quantos dedos
no gatilho
há sorrisos
em cada porto
há desencontros
em cada adeus
há a chegada
em cada deus
o nada
em cada pranto
há o desconto
do salário geral
de cada fome
e cada posse
é restrita
a cada posse
coletiva
e cada dedo
é preciso
a quantos dedos
no gatilho
67
Pequena história do meu país
burros de carga, cangas
cio do futuro
vermelhos mandacarus, réguas de prumo
e a noite alinhando-se lenta
na esquina transitória da tarde.
Quem guardou o tempo no bolso?
Dizei, camponês,
para que não ardas
nessa saudade intensa
daquilo que não sabes.
Era um dia um menino curvo
turvo como sua fome
e que tinha num desvão do peito
uma semente curva de homem.
Brancos acenos, velas de cera
e o Amazonas debruçado
chora essa noite brasileira.
Quem regou os olhos dessas marias
para que se desfizessem mansamente
nessas léguas de pranto?
Dizei, mulher,
para que não caibas,
assim impunemente,
nessa lagoa rígida
de sentimento.
Travaram o dia
com uma noite dentro.
cio do futuro
vermelhos mandacarus, réguas de prumo
e a noite alinhando-se lenta
na esquina transitória da tarde.
Quem guardou o tempo no bolso?
Dizei, camponês,
para que não ardas
nessa saudade intensa
daquilo que não sabes.
Era um dia um menino curvo
turvo como sua fome
e que tinha num desvão do peito
uma semente curva de homem.
Brancos acenos, velas de cera
e o Amazonas debruçado
chora essa noite brasileira.
Quem regou os olhos dessas marias
para que se desfizessem mansamente
nessas léguas de pranto?
Dizei, mulher,
para que não caibas,
assim impunemente,
nessa lagoa rígida
de sentimento.
Travaram o dia
com uma noite dentro.
59
De Eldorado dos Carajás em bruta rima
agrária
a vida permanece
no leito moribundo
de suas vestes
a terra
assassinada
perde seu jeito
de ser estrada
até que um dia
de repente
o povo desarrume
tudo que enfrente
a vida permanece
no leito moribundo
de suas vestes
a terra
assassinada
perde seu jeito
de ser estrada
até que um dia
de repente
o povo desarrume
tudo que enfrente
137
Paisagem , Bahia e outros movimentos
Na Ladeira do Quebra Bunda
a vida não esmorece
pois quanto mais diz-se rua
mais descaminho parece
e se guarda algum resquício
dos passos de sua gente
a fome logo atrapalha
as coisas que sempre sentem
e as passadas que engole
logo são confiscadas
pela vida que engole os passos
dos homens e das madrugadas
um dia a Bahia arrebenta
as rédeas dessa jornada
a vida não esmorece
pois quanto mais diz-se rua
mais descaminho parece
e se guarda algum resquício
dos passos de sua gente
a fome logo atrapalha
as coisas que sempre sentem
e as passadas que engole
logo são confiscadas
pela vida que engole os passos
dos homens e das madrugadas
um dia a Bahia arrebenta
as rédeas dessa jornada
88
Poema a José Deodato em calmaria andante
José Deodato
era um herói singelo
em tudo que não tinha
deses heróis modernos
que se vendem pela vida
que se constroem lépidos
não fazia da anatomia
seu ângulo mais externo
pela simples razão dos quilos
que arrumava no cérebro
e este vasto peso,
quilos de sorrisos,
caia de sua via
no peito de seus amigos
e se algum dia chorou
algum pranto fugitivo
essa era a forma branda
de acalmar os seus sorrisos.
era um herói singelo
em tudo que não tinha
deses heróis modernos
que se vendem pela vida
que se constroem lépidos
não fazia da anatomia
seu ângulo mais externo
pela simples razão dos quilos
que arrumava no cérebro
e este vasto peso,
quilos de sorrisos,
caia de sua via
no peito de seus amigos
e se algum dia chorou
algum pranto fugitivo
essa era a forma branda
de acalmar os seus sorrisos.
104
Do arquivo morto em súbita convalescença
nem tanto os papéis
de que te nutres fatalmente
fluirá das rugas de teus muros
como se fora assim uma nascente
mas, por certo, uma massa informe
grávida de humanos argumentos
cimentados agora nos ofícios
tumulados em teu corpo finalmente
palavras prensadas à força
gordas de magros memorandos
cravada nas faces dos homens
em soluções ainda trafegantes
morrem espremidos na moenda
que cada bureau possui em seu estômago
e que vomita uma morte oficiosa
envelopada em cada memorando
tuas manhãs tardam comprimidas
engolidas nas noites burocráticas
em que a fome passa a ser vida
num simples erro de teus funcionários
de que te nutres fatalmente
fluirá das rugas de teus muros
como se fora assim uma nascente
mas, por certo, uma massa informe
grávida de humanos argumentos
cimentados agora nos ofícios
tumulados em teu corpo finalmente
palavras prensadas à força
gordas de magros memorandos
cravada nas faces dos homens
em soluções ainda trafegantes
morrem espremidos na moenda
que cada bureau possui em seu estômago
e que vomita uma morte oficiosa
envelopada em cada memorando
tuas manhãs tardam comprimidas
engolidas nas noites burocráticas
em que a fome passa a ser vida
num simples erro de teus funcionários
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Comentários (10)
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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Carlos Marques
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Pinto
Abração !
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.