Lista de Poemas
Do poema em formas e substância
não é milagre
mas pode estar cedo
quando tarde
é que o verbo é conteúdo
mesmo quando a forma
nem sabe
o poema
não se deixa indiferente
é sempre um discurso
mesmo desarrumado
e reticente
a forma é só uma palavra
dos conteúdos em que assente
Ravel em bemóis de garças esvoaçantes
desafia o destino
nas notas que repete
como um labirinto
e desacata o ritmo
com a sofreguidão intacta
de todos os bemóis
que alinhavam sua pauta
e o bolero
ressoa no horizonte
como uma garça introvertida
que tenta, aos poucos, no seu voo
voar todos os ares da vida
João Sebastião Bach, camponês de pautas
bastava-se nas notas
como um camponês errante
nos roçados da pauta
e tangia bemóis
como um astronauta
que tocasse no cosmos
os sinos da alma
João Sebastião
nem percebia
que a música, eterna,
jorrava pelos dias
e jogava-se nos tempos
como ventania
e ao fundo, transitava as mágoas
como um leirão de todos seus roçados
Chopin em degraus e enchentes
no meio dos tons
tece palavras e claves
nos ombros do som
e a música
drapejando nos ventos
desemboca lírica e lúdica
no pensamento
e o ouvido
dorme ternamente
e vira cachoeira
em nossa mente
a música é chicote manso
de tanger a gente.
Do morto em indolores torturas
escapa do porto
no espaço biológico
do morto
no navio
insurgente
o torturador mergulha
os restos de gente
e a vida segue
decadente
até que uma quilha
arrebente
Jornada itinerante em ondas
mergulho
as ondas que, por fim,
construo
a onda
como uma espada
indica líquida
minha estrada
é que navegante
de mares controversos
transito retirante
os caminhos que meço
do óbito visto das palavras
agora
de animal a mineral
passas na lembrança
de quem levou a vida
na mudança
agora
não hora, apenas pó
e na face gravado
o último suor
agora
não tuas e não suas
as conceituações
das ruas
agora
apenas óbito
és a não circulação
de teus leucócitos
e habitas
tua morte
como usucapião
de tua sorte
e reclamas
agora estrume
um gesto das plantas
um quê de verdume
de caminhante
a estrada
contas apenas os passos
da massa
tua mão
é anti-arma
um osso plástico
e sem plasma
enfim
és poesia
irmão, agora, do vento
a liberdade tardia.
Poema automórfico
minha ruga
saiba ser velhice
da luta
onde
minha forma
queira ser humana
e lógica
onde minha voz
diga-se comício
na voz e nos braços
os ossos do ofício
e onde minha morte
ouse-se só indício
da necrose geral
dos meus sentidos
e que morto
urgente e sem peso
eu deixe pela vida
a marca dos meus dedos
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.