Lista de Poemas

Do poema em formas e substância

o poema
não é milagre
mas pode estar cedo
quando tarde
é que o verbo é conteúdo
mesmo quando a forma
nem sabe

o poema
não se deixa indiferente
é sempre um discurso
mesmo desarrumado
e reticente

a forma é só uma palavra
dos conteúdos em que assente
58

Ravel em bemóis de garças esvoaçantes

Ravel
desafia o destino
nas notas que repete
como um labirinto

e desacata o ritmo
com a sofreguidão intacta
de todos os bemóis
que alinhavam sua pauta

e o bolero
ressoa no horizonte
como uma garça introvertida
que tenta, aos poucos, no seu voo
voar todos os ares da vida
32

João Sebastião Bach, camponês de pautas

Bach
bastava-se nas notas
como um camponês errante
nos roçados da pauta
e tangia bemóis
como um astronauta
que tocasse no cosmos
os sinos da alma

João Sebastião
nem percebia
que a música, eterna,
jorrava pelos dias
e jogava-se nos tempos
como ventania

e ao fundo, transitava as mágoas
como um leirão de todos seus roçados
41

Chopin em degraus e enchentes

Chopin criando
no meio dos tons
tece palavras e claves
nos ombros do som
e a música
drapejando nos ventos
desemboca lírica e lúdica
no pensamento
e o ouvido
dorme ternamente
e vira cachoeira
em nossa mente

a música é chicote manso
de tanger a gente.
52

Do morto em indolores torturas

a morte
escapa do porto
no espaço biológico
do morto

no navio
insurgente
o torturador mergulha
os restos de gente

e a vida segue
decadente
até que uma quilha
arrebente 
98

Jornada itinerante em ondas

raso de mim
mergulho
as ondas que, por fim,
construo

a onda
como uma espada
indica líquida
minha estrada

é que navegante
de mares controversos
transito retirante
os caminhos que meço
66

do óbito visto das palavras

agora
de animal a mineral
passas na lembrança
de quem levou a vida
na mudança

agora 
não hora, apenas pó
e na face gravado
o último suor

agora
não tuas e não suas
as conceituações
das ruas

agora
apenas óbito
és a não circulação
de teus leucócitos

e habitas 
tua morte
como usucapião
de tua sorte

e reclamas
agora estrume
um gesto das plantas
um quê de verdume

de caminhante
a estrada
contas apenas os passos
da massa

tua mão
é anti-arma
um osso plástico
e sem plasma

enfim
és poesia
irmão, agora, do vento
a liberdade tardia.


 

66

Poema automórfico

onde
minha ruga
saiba ser velhice
da luta

onde 
minha forma
queira ser humana
e lógica

onde minha voz
diga-se comício
na voz e nos braços
os ossos do ofício

e onde minha morte
ouse-se só indício
da necrose geral
dos meus sentidos

e que morto
urgente e sem peso
eu deixe pela vida
a marca dos meus dedos

41

Do grito em arrazoada messe

eu quero
que o grito
queira ser palavra
no comício

eu quero
que o grito
possa ser palavra
no infinito

e grita-lo sempre
no meio dos sentidos
96

Das internações lacrimosas do tempo

minha lágrima
internou-se
como quem foge
como quem descobre
que a vida
antes do encontro
é apenas a procura
da ausência
é morrer a cada vida
e sentir a vontade
de entrar na partida

e entrando
morrer-se de encontro
sobre a praça
sobre a cama
sobre a arma
sobre a chama
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.