Lista de Poemas

Poema à máquina datilográfica

a tecla
tem a postura
a mecânica e a forma
das ditaduras

cada toque
estrutura
apenas o que máquina
atura

urde a palavra
invólucro de carne
das sensações mais sentidas
que o homem arme

e foge dos dedos
às palavras mais cruas
ungidas no medo
dentro da máquina geral dessas ruas
99

Ode ao carimbo

cada carimbo
traz dentro do peito
um funcionário inerte
eficaz e contrafeito
que ao carimbar
as faces do ofício
carimba antes a si
dos carimbos mais gerais
que carimbam seus sentidos

nesse jeito pertinaz
de bólide oficial
o carimbo engole vidas
em decúbito ventral
e comenta sua derrota
no arquivo morto
o homem como papel
e o velho como novo

e estando arquivado
sem classe ou garantia
o homem tange o coração
pelos decretos da vida
119

Arquitetura do morto

sente-se a carência
neste gesto filantrópico
de dar-se à inconsciência
apesar de todos os ilimites
da paciência

e nessa pose imóvel
deitado ainda em células
sabendo-se desobrigado
de todas as idéias

vives a morte inaugural
de tua complacência
em deixar-se levar, assim imune, 
da existência
77

Das clandestinas salas da luta em transe

no canto da sala
o argumento aflora
e a idéia flutua
os neurônios e as horas

o silêncio
de repente invade
os tramites urgentes
da clandestinidade

e os homens
guardam incertos
as ansiosas gargantas
de seus verbos
103

Do poema em militância

que o poema
se permita
derramar-se farto
na politica

e não se proste
só nas formas
num gotejar esnobe
isento da história

é que a arte
abarca o mundo
e todas quantas peças
debrucem sobre tudo
113

Cordel da impaciência

Quelé, Clementino,
onde vais nesta hora?
Vou com João, com Severino,
vou com Penha, vou com Dora
forjar um novo destino
no espinhaço da história

levo a faca
levo a fome
levo a morte 
e o talvez
trançados na minha sorte
que, por sorte, rebelei
cansei de ser tão escravo
e, agora, ponho-me lei

nos caminhos desta vida
bati muita continência
hoje levo a paciência
pendida no meu facão
e tanto mais me digam sim
eu repetirei o não
que venha sempre comigo
esse desejo desse chão
94

Rabiscos em torno da mudança

quero a morte
em seu lugar e medida
pela mesma razão
porque a vida

quero não morrer
assim infinitado
mas apenas partir
numa forma de salto

e não que a vida pese
ou que a morte nutra
mas porque, ainda humano,
eu dependa desta luta
33

Das lágrimas em diversas sendas

minhas lágrimas
são os mares que posso
e naufragá-las pelos dias
é ofício dos olhos

minhas lágrimas,
assim à outrance,
são um riso liquído
nos descaminhos da face

prenhe de dores e de risos
lágrimas são apenas rios
que riem, que choram
e desembocam nos sentidos.
99

Dúvidas em crescente jornada

lírica e enorme
jaz a pergunta
nas dobras do saber
ou da desculpa

finge-se cristal
indeflorável
virgem racional
e formidável

lira cognoscível
presta-se à conquista
um indagar-se recorrente
de encontro à vida
110

Ode à mulher das esquinas

neste teu mercado
de tão viva tecitura
trazes o amor à tiracolo
como te trazem à mão
nas noites nuas
e não te dizes tão noturna
quando assim na cama despetalas
as últimas frações de gente
com que a vida te declara

e neste químico mister
de tecer o amor em cada esquina
coletivizas um prazer exato
distribuindo em vão tuas albuminas
é assim como um parto fictício
das profundezas de tua sina
82

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.