Lista de Poemas

Das Ligas Camponesas em memória

no comício
o discurso escorria
como uma cachoeira exata
nas encostas do dia

em chapéus e palhas
assim circunspectos
os camponeses bebiam
o grave manifesto

e, menino, no palanque
inadimplente de tudo
eu assistia a vida
trafegar meus olhos pelo futuro
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Aos meninos da pátria

Sossega menino!
Do dentro deste teu país
crescerá uma infância vasta
embrulhada na  paz
e resolverás a tua prática.
Não importa que agora
a vida seja um nó no teu juízo
no centro dessa podridão
no seu vão mais infindo
haverá dela tamanha
nos ombros de suas curvas 
que sonhos dir-se-ão inúteis
porque, vivos, estarão nas ruas. 

Não importa que hoje ainda não sejas
trançado no meio dessa sanha
cuspida nas esquinas desse canto
cerzido a amargura líquida do teu pranto

Não importa, menino!
Os homens já constroem o teu sono
escondidos nas noites mais de luto
forjando as novas pecas do teu sonho.

E da imensidão dos camaradas
tecendo fortemente a alegria
borbulha um afeto imenso
nos vincos violentos do dia 
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Para quando a manhã surgir

de quando as manhãs
não trouxerem sustos
possam raia-las meus olhos
e arquitetá-las em tanto
que sobre luz nas retinas
para desenhar novos horizontes

de quando as manhãs
não tiverem uso
diverso dos da noite
em que se beba todo seu discurso

de quando as manhãs
não se souberem crônicas
e que tussam o dia
com a simplicidade da esperança

de quando as manhãs
não se fizerem palco
de um punhado de lágrimas
itinerantes de teatros

de quando as manhãs
não se disserem horas
mas um colchão de aventuras
onde durma a história

e se assim raiarem
nem que seja e quando
possa despencar outra noite
na cabeça ávida dos insones
60

Da palavra em síndrome diversa

as palavras são pombas
desarvoradas voadoras
que enchem a balsa dos ouvidos
e que se estraçalham
pelas fendas do grito
más navegantes
enroscam-se no juízo 
e bocejam na língua
um nó corrediço

e se às vezes fingem
no seu sopro canoro
outras vezes atrasam
o dispêndio das horas

e ainda vigem desatentas
nos atos falhos que explicitam
e murcham no céu da boca
as verdades escondidas 

Palavras são pombas
dos verbos todos da vida
93

Tempos natais em terras de luta

I

as tardes de minha terra
nunca estão distantes
pois se tardes elas ousam
muito mais cedo encontram
com o dia que se descobre
das profundezas do homem

II

e se descansam o tempo
com suas tardes circunstâncias
não escondem dos homens
a necessidade da esperança

III

e se ainda dia parecem noite
o tempo não se descuida
pois arranja sempre um jeito
de forjar o homem na luta
102

Poema ao guerrilheiro assassinado

agora
transitoriamente horizontal
nesta química inoperância
não trazes mais que o aval
daqueles que te fizeram substância

nesta geométrica mudança
em que de prumo fizeram-te horizonte
apenas humanizou a tua queda
uma pequena lágrima, uma gota de sangue

subtraíram a vida
como uma infinita soma
onde teu corpo engoliu os anos
e teu povo engoliu as sombras

mas mesmo assim
impreterivelmente indefinido
estarás vivo em qualquer praça
do povo que sonhaste livre

117

Concerto preferencial à vida

haverá bemóis
tranquilamente resgatados
e uma profusão de notas
nos ouvidos arrumadas

o som encherá as ruas
de claves e compassos
e uma tênue impressão
de que o tempo é um abraço

e os homens cantarão
seus gritos mais ousados
e inventarão o novo mundo
com a música nos braços
134

Das origens em profundo vão com ligeiros arroubos


2000000 de anos
entre mim
e meu macaco
marco
da idade
do meu parto
há aeroplanos
entre meu olho
e meu engano
e asas de pterodáctilos
a somar retinas
nos meus vasos

3000000 de metros
de veias
e estradas
entre o grito do medo
e o grito das harpas
há vozes
encalhadas nos portos
e vezes
encalhadas nos braços
há futuros
em pedras e pontes
e avisos plantados
sobre minha fronte
há vermes
funcionando
destarte a burocracia
do luto
há horas
e momentos
escondidos nas rugas
do pensamento
há miséria e fartura
no campo e nas barrigas
dos irmãos
e das lombrigas
há morte e vida
e facas e feridas
entre o morto
e a sanha do corpo
há distâncias
e, perto, o encontro
há discrepâncias
e a certeza de estar
cada vez sempre
em mudança
há luto
no peito dos finados
pela revolução
em seus gargalos
há susto
nas barrigas gerais
das crianças da pátria
há custos
para que a curva
suba mais nas paredes pintadas
dos edifícios centrais
há cédulas e medulas
sangrando nas marginais
de povoados em escuta
e de morticínios tais
há defloramentos e amores
escorrendo nas vielas
espalhando dores e flores
pelas cancelas
há verdades
espalhadas nas praças
nos olhos da história
nos gritos do povo
há indústrias paradas
e suores trabalhando
há a festa das máquinas
e dos parasitas
na desgraça humana
há tumores e humores
nas mãos da multidão
há versos e música
nos olhos do povo
nas curvas da luta
há milagres
na constância
da humanidade sorrindo
em busca de sua substância.
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palavras a Bebeto e Miriam Verbena, heróis do povo

o futuro
atrás do muro
espreita as razões
dos seus discursos

o futuro
em suas veias e sustos
entornam a vida
pelos viadutos

o futuro
grávido das ausências
enche de verdade
tudo que se sente

o futuro
simplesmente
é um pedaço de vocês
dentro da gente.
100

Canto à Zona da Mata

as canas são fuzis
de verdes cabeleiras
são imensos gritos rurais
são cordilheiras
onde o homem habita
a fome e as incertezas
e se são meninas
na sua doce aparência
servem de chicote
à pela camponesa 

o canavial
em toda e cada cana
é a soma do suor
do sangue e da chama
que esse povo nutre
com as léguas de seus braços
e que se hoje é privado
amanhã será mais largo

e antes de canavial
essa vegetação é povo
trançado à força da vida
do verde que se faz o novo
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.