Lista de Poemas

Sandino ayer! Sandino hoy! Sandino siempre!

és novamente jovem Nicarágua
do peito de Sandino, dos braços do teu povo
o sangue afogou as tuas rugas
e, em tuas ruas, tu és tu de novo
da magreza dessa aurora americana
embrulhada na escuridão da vida
tu saltastes com tua gente
nos ombros do dia sandinista

és novamente terra, Nicarágua
nos risos dos teus camponeses
trançada neste vão da América
pelo amor de teus guerrilheiros

és novamente vida, Nicarágua
desde Manágua até o infinito
pois dormes agora com a alegria exata
de quem sonhou com o seu próprio riso
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Caminhada em brasileiros dramas

No meio da noite
como um líquido incontido
borbulha a aurora brasileira.

E no mais fundo das ruas
e nas declarações entre dentes
a liberdade veste-se de palavras
e na ação faz-se repente.

Cúmplices da história
caminham esses viventes
no alvoroço grávido da luta
concubinos da esperança.

E não importa que a fome é tanta
pois um breve riso ainda avança
na certeza geral de todos os seus sentidos.

E a boca que não come
sacia o discurso
enchendo a barriga de vida
alimentando o futuro.

No peito da noite
como um líquido incontido
borbulha a aurora brasileira.

Eram tantos
na singularidade de tão poucos
pois enfeixavam nas mãos
como uma certeza bruta
a solidez da história
a certeza da esperança.

E caíram na luta
como nos rios os meninos 
nos dias de felicidade:
e alinhavando a história
pelas ruas da cidade
eram todos combatentes
de uma intensa verdade.

105

1º de Maio

a massa
era um coice exato
e grávido, de repente,
o trabalho deu um salto

não que, tão urgente,
forjasse em tal aprumo
e saísse da barriga do dia
para o vão do mundo

mas que se jogasse
no singelo esforço
de trazer a força na mão
e o grito no bolso

eram tantos
e de uma paz tremenda
que roíam as mágoas da vida
agora feitos em moendas

não instrumento mecânico
de bruta consistência
que rasgasse o véu da história
em tão humana moenda

mas que fossem soldados
perfilados nesse mister
de tornarem-se moendas
da classe por que se é

79

Da vacina ideal em rumo de tantos

vacino a vida
com o vírus vivo
de tudo que me faz
plural e coletivo

e navegando em tantos
imunizo-me farto
das incoerências humanas
dos ditos e dos fatos

e deixo-me são
embora outro
gravado em mim
nas costas do povo
49

Cachoeiras em trânsito nos desmaios do mundo

a cachoeira
desmaia o rio
como uma cabeleira
de líquida textura
e franze a natureza
nesse desmaiar
seus saltos das alturas
é que é pouca sua calma
nas costas do mundo
seu rugido é só anúncio
da sua ânsia de tudo

a cachoeira nem sabe
que é um rio em decúbito
93

Carta XXIX

se, por acaso, a dor não cumpra
as razões que se saibam adversas
muitas vezes queira converte-la
no contrário que luta por vive-la

e na metamorfose agora do seu jeito
possam os homens convencê-la
de que a paz cabe nessa dor
na proporção exata de conte-la

e da construção da nova forma
engendrada no vão do exercício
possa o homem convencer-se
de que o amor é sobretudo um ofício
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Visões

dentro deste espelho
no mais vão desta ruga
a vida da-me um nó
desde a ponta dos cabelos
não que em minha face
habitasse alguma morte
antes que fosse uma dúvida
com ares de derrota

mas subindo na garganta
com a conjuntura de um grito
ousou parir-se um gemido
que antes de impertinente
mais parecesse infindo
e borrou minha cara
de arquitetura ainda gente
e num salto suicidou-se
e a luta fez-se repente
59

Do futuro em vegetal rompante

na árvore do tempo
pendurados em seus galhos
os homens balançam
o futuro dos fatos

o vento anuncia
o farfalhar da vida
e as escaramuças
das galhas perdidas

na noite do tempo
montados em muros
os homens inventam
de amadurecer o futuro
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Dos ébrios encômios do ócio

no copo
a cerveja é o invólucro
das espumas que trago
em meus ócios

é que tangê-los
entre os goles
é habitar os mundos
em rotaçōes enormes

e no fundo
do copo e das poses
giro como um marciano
à procura de luzes
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Carta XV

pus-me relativo
diante da tarde
e o tempo roeu os meus cabelos
desfeita já em lua a mocidade
e satélite de mim
palmilhei o espaço
entre a razão que me pungia homem
e a facilidade infinda da vontade
sorvi o meu país
em grandes talagadas
não soubera eu que me bebia inteiro
na dessemelhança da idade
hoje
um pouco rarefeito pela tarde
construo andaimes em mim mesmo
para alcançar o grito da cidade
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.