Lista de Poemas

Genocídio com crápulas e dores

tanger a morte
é o indício
da passeata maior
do genocídio

crápulas
em comício
matam a verdade
e assassinam os gritos

e a dor
como um ofício
ressoa nas ruas
como triste armistício
105

Carta XIV

meu poema
não se acostuma
a não ser alado
e viver inerte
embrulhado numa página

e se não se alça
em exercícios celestes
permanece impaciente
nas parcimônias do verbo

e animal
despede-se do dia
sem alarde
na incoerência gráfica
e verbal de alguma tarde
53

Paisagem em humana lida

a paisagem
é balsa
nos rios do olhar
em que se basta

curva
mente-se reta
no horizonte agudo
em que se deita

e o homem
como usina de tudo
inventa paisagens
nas costas do mundo
105

Dos passos e demoras do fim

a conjuntura
é só um passo
dos caminhos que o fim
põe em nossos braços

vê-la sozinha
nos ombros do tempo
é não tê-la só atalho do momento
o fim gosta de demorar
todas as conjunturas
em que combatemos
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Marinha descritiva

nos mares que navegas
mesmo em segredo
há que deixar em terra
as jangadas do medo

é que dentro de nós
a onda é só um jeito
meio desarrumado
do mar estufar o peito
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Balada camponesa com parcimônia

nas costas do camponês
assim desapercebidos
repousam todos os roçados
no meio dos seus sentidos

é que a terra
quando assim bolinada
constrói crateras profundas
nas faces de quem a trata

e o camponês irradia
nos campos em que esteja
essa vontade invencível
de dar-se à natureza
e produzir todas as vidas
nas suadas enxadas que maneja
80

Quantificação da alma ou filosófica aproximação de tudo

primeiro
há o indício
de que a paz
é obra do ofício
e por assim disposta
não se há de tê-la avulsa
como se fora troféu
de qualquer disputa
antes é de vê-la
cerzida ao sacrifício
de construir de cada alma
um grande armstício

primeiro
há a constatação
de que o mundo é adrede
como a revolução
não lhe trai o munus
de ser assim evidente
como se fora adaga
que se cingisse aos dentes

primeiro há o desvario
de tentar numerar o cosmos,
a inconstância dos rios
e dá-se em científicos discursos
como se possível fora da alma
quantificar qualquer uso
e a mister tão avaro
dá-se o status absoluto
de parecer que a verdade
é matéria apenas de discurso
não que não haja indícios
de uma verdade relativa
que se teime em absoluta
quando em verbo se invista
pois por retratar a realidade
com uma certa parcimônia
lhe sobre essa completude
de tudo o que se sonha

primeiro
há a persistência
de que o homem nunca cabe
apenas na consciência
pois lhe sobra pelo jeito
uma vontade aguerrida
de não contar pela alma
os tempos todos da vida
é que lhe permite a razão
de ser assim inconstante
a simples determinação
de tudo que lhe é avante
pois lhe sobra a simplicidade
de ser um tanto complexo
e amanhar a liberdade
com um deságio completo

primeiro
há o contraponto
de toda contrafação
que teima em dizer do homem
os contrários que estão à mão
como se fosse um avesso
que chegasse a vão
pois é espaço avulso
no chão de cada pensar
como se fora um discurso
escrito assim pelo ar.
105

Das humanas vazões do futuro

dê-se o contrato:
tudo que do homem
permaneça em atos
cumpra a função de tantos
em favor de todos
como cláusula de fato

cumpra-se o dito:
tudo que vier do homem
assim construído
permaneça em todos jacente
como definitivo armistício

e siga a vida a mudança
que persegue o infinito
de sermos todos nós
abraçados neste rito

o conflito que precede a trama
é só um alvoroço coletivo
e o caminho que lhe derrama
é compostura do humano ofício
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Poeminha em física contração do tempo

a velocidade
freia o tempo
nos elétrons que lança
pelos ventos

e as horas
pastam o espaço
com a parcimônia temporal
dos desacatos

a física acelerada
tenta ouvir os minutos
e quantificar sua estada
como se fosse um espaço
de tudo ou quase nada
65

Conjuntura em trâmite diverso

o comum
é só um trâmite
que o complexo avança
a cada instante

é que em cadeias
como fugitivos
os comuns apascentam
os sentidos

e tangem o complexo
como garatujas
para que o cérebro projete
no meio das lutas

o complexo em verdade
só depende das ruas
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.