é preciso saber quando se ama que o infinito está por sobre a cama
em mesmo céu ou mesmo quarto o amor está sempre no lugar exato
apenas não se concebe quando se ama que amor desconstrua tudo que é chama
78
desencontro em marcha compassada
em cada ponto em cada canto em cada morto em cada pranto em cada triste em cada negro em cada risco em cada preso e cada ponto e cada canto e cada morto e cada pranto e cada triste e cada negro e cada risco e cada preso cada ponto cada canto cada morto cada dedo da triste do canto da morte do medo há triste há canto há morto há cedos
ao homem cabe inventar todos os seus enredos
62
Palavras a Fadi Abu Saleh
a pedra escreve ondas de quem as ilumina contra as sombras e voa, transeunte da paz, na guerra compulsória de quem declara a honra como trajetória e as pernas da vida são os passos e a norma de quem nem as usa para fazer a história
114
Desencontro em marcha compassada II
em cada morto há sorrisos em cada porto há desencontros em cada adeus há a chegada em cada deus o nada em cada pranto há o desconto do salário geral de cada fome e cada posse é restrita a cada posse coletiva e cada dedo é preciso a quantos dedos no gatilho
72
Arquitetura do morto
sente-se a carência neste gesto filantrópico de dar-se à inconsciência apesar de todos os ilimites da paciência
e nessa pose imóvel deitado ainda em células sabendo-se desobrigado de todas as idéias
vives a morte inaugural de tua complacência em deixar-se levar, assim imune, da existência
83
Paisagem , Bahia e outros movimentos
Na Ladeira do Quebra Bunda a vida não esmorece pois quanto mais diz-se rua mais descaminho parece
e se guarda algum resquício dos passos de sua gente a fome logo atrapalha as coisas que sempre sentem
e as passadas que engole logo são confiscadas pela vida que engole os passos dos homens e das madrugadas
um dia a Bahia arrebenta as rédeas dessa jornada
93
Batalhas ensimesmadas com ligeiras fugas
quando estou já me sinto matéria e norma meus instintos
e digo-me repente na dor e na fuga e nas formas mais gerais dessa ditadura
e sou, com a faca nos dentes, a revolta do homem contra esses repentes
82
De Eldorado dos Carajás em bruta rima
agrária a vida permanece no leito moribundo de suas vestes
a terra assassinada perde seu jeito de ser estrada
até que um dia de repente o povo desarrume tudo que enfrente
142
Pequena história do meu país
burros de carga, cangas cio do futuro vermelhos mandacarus, réguas de prumo e a noite alinhando-se lenta na esquina transitória da tarde. Quem guardou o tempo no bolso? Dizei, camponês, para que não ardas nessa saudade intensa daquilo que não sabes. Era um dia um menino curvo turvo como sua fome e que tinha num desvão do peito uma semente curva de homem. Brancos acenos, velas de cera e o Amazonas debruçado chora essa noite brasileira. Quem regou os olhos dessas marias para que se desfizessem mansamente nessas léguas de pranto? Dizei, mulher, para que não caibas, assim impunemente, nessa lagoa rígida de sentimento. Travaram o dia com uma noite dentro.
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Do arquivo morto em súbita convalescença
nem tanto os papéis de que te nutres fatalmente fluirá das rugas de teus muros como se fora assim uma nascente
mas, por certo, uma massa informe grávida de humanos argumentos cimentados agora nos ofícios tumulados em teu corpo finalmente
palavras prensadas à força gordas de magros memorandos cravada nas faces dos homens em soluções ainda trafegantes
morrem espremidos na moenda que cada bureau possui em seu estômago e que vomita uma morte oficiosa envelopada em cada memorando
tuas manhãs tardam comprimidas engolidas nas noites burocráticas em que a fome passa a ser vida num simples erro de teus funcionários
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.