Lista de Poemas

Viver é jeito de montar no tempo

as amarras do tempo
quando soltam
fecham o corpo
criam portas

e ressoam no juízo infante
como resposta tardia
ao que se tem de livre
no meio da alegria

e a tristeza
é só uma filigrana
do que escapa do riso
no meio dos anos
a vida sempre carrega
a aventura nos ombros
45

Do berço em memória

do berço em diante
trago a diretiva
de respirar o mundo
no sentido da vida

e esse sentir vivente
posto em nosso ombro
faz da prática motor
fábrica de sonho

o berço humano
tem um quê dessa plástica
que faz de cada transeunte
um intenso astronauta

77

A dor em quadratura alheia

minhas dores
tenho-as resumidas
num espaço avulso
das frestas da vida

é que dizem mais
dos sentires do outro
que desaguam em mim
como um largo poço

a dor que é minha
em privada propriedade
descontruo no peito
com o cheiro da liberdade

a dor do outro é menor
quando ainda nos cabe
102

Além da vida humana e suas idas

depois da vida
há que viver a mudança
de todos os outros modos
de parecer substância

e se não mais humanos
deixem o verbo como fala
que os elétrons discursem
as mutações em que caibam

em verdade
o que realmente importa
é viver o gosto de humano
abrindo todas as portas
92

Do mar de Olinda em memória

no mar de Olinda
a onda sempre fingia
que era um abraço apertado
nos ombros largos do dia
e a gente boiava na gente
como num sonho pensado
e inventava o presente
com o futuro ao lado

e o que rugia nas ondas
eram bemóis absurdos
o mar de Olinda era um canto
na garganta líquida do mundo
76

Da lua em cheia recorrência

a lua nem sabia
que no avesso do tempo
com a lembrança do dia
a noite cortava o espaço
com seu jeito de guia

e os homens montavam sonhos
e enfeitavam-se da vida
com a certeza recorrente
de suas desmedidas.
70

Do amor como profissão inata

o amor em ondas
é uma presença exata
da construção humana
nos desvãos da prática

flui como um rio
que trafega incauto
por todas as direções
em que se diga farto

e aporta nos viventes
como um desespero
de construir um mar de todos
e ama-los em tardes e cedos

cada homem é um feitor
dos campos do seu enredo
74

Amorosas vazões em tempos largos

a manhã nascente
é só um laço
que a noite dá, vencida,
em nosso abraço
é assim como um futuro
entre um tempo em distrato
e a noturna ilusão do sonho
que se deixou pelo quarto
eu perdido em seu jeito
você perdida em meus braços.
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Mulher em declarado encanto

quando mulher
repleta do mundo
queira a manhã sabe-la
em dizer-se tudo

e nasça a vida
na gravidez do tempo
em que esteja posta
em cada movimento

e assim, cheia de luz
no espalhar de suas tranças
possa apaziguar a vida
no colo da esperança

ser mulher
é ser bandeira
de drapejar em todos
os caminhos que se queira
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Da pandemia e da morte com ressalvas

vazio
o mundo trancafia
a possibilidade humana
pelas esquinas do dia

a morte anuncia
o panfleto recorrente
de que jaz entristecida
nas pupilas dos viventes

e o alvoroço do futuro
intrometido nos desejos
desenha sonhos de vida
pelas frestas do medo.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.