Lista de Poemas
Clandestinidade I
no espaço entre cada companheiro
o tempo enche-se do futuro
e abarca-se com a mão o mundo inteiro
no meio desta sala
embrulhado nas palavras
o futuro amanhece nas faces
de cada camarada
as léguas desta sala
resumidas a minúsculo vão
engolem a tarefa exata
de ser útero da revolução
como é bom tanger o mundo
na palma de nossa mão
Dos vietnãs da gente
borbulha impunemente
um Vietnã escondido
engavetado na gente
e se sobe à garganta
engasgado na palavra
esse Vietnã não mata
mas frequentemente arma
e em cada cidade
num inventário sem fim
vige uma rosa exata
como herança de Ho Chi Min
Das rotinas da vida em memória
como uma notícia
o trem era o jornal
das novidades da vida
a cidade
navegando a rotina
ansiava pelos gritos
da locomotiva
e os homens
embrulhavam a alegria
quando na madrugada
seus trilhos partiam
o trem era só um tempo
de fingir que o novo havia
Poema em urgente lógica
de asfalto e povo
de olhos dentro do chão
e bocas dentro do bolso
joões do vazio
magros apêndices
de grávidas severinas
da paciência
do irrentável ofício
de calar o peito
do calado indício
do direito
do urgente alvitre
de guardar a fome
nas rugas da rua
nas ruas do homem
da chegada hora
de proibir o medo
e esmagar o pranto
pelo vão dos dedos
Dos amores itinerantes do tempo
e já não tarde
resvala meu discurso
pelas estradas da carne
que teu corpo ousa colocar
de encontro ao meu abraço
e que abraço lutando
e nunca me desfaço
do jeito manso de fera
que labuta pelos campos
e que nos lençóis é estrada
com o amor sobre os ombros
dos brasis da vida
de país apenasmente
trai um gesto de pátria
que a geografia lhe consente
e hoje a vida estanca
na nacional monotonia
que faz a manhã ser negra
embora cheia de dia
mas do ventre do país
construído assim a muque
começa um país mais vasto
até enquanto se lute
Protocolo da rebelião
em bom estado
e por moeda dá-se o punho
revolucionário
compra-se uma vida
em boa marcha
e por moeda dá-se a luta
em urgente prática
compra-se uma paz
por toda a praça
e por moeda dá-se a força
dessa massa
Espelho diverso em destravado drama
quando não cedo
às distâncias difíceis
das vias do medo
e tenho-me distante
quando tão perto
ouso discursar de mim
as distâncias que esqueço
e tenho-me tanto
quando tão pouco
deixo de mim o jeito
para ser o outro
Tecituras da felicidade em humana gestão
é um mister que se aloja
e que se sonha e que se sabe
nalgum meandro da história
não tem a facilidade
dos misteres mais pacatos
que se alojam nos olhos
ou na curva de algum braço
antes possuem a desfaçatez
dos mistérios simplificados
que, quando não são, são urgentes
e quando existem são temporários
podem boiar no espaço
de algum átomo distraído
e podem conter-se nas léguas
de todo um infinito
e repousa latente
nas marcas do exercício
do coração dessa gente
que se presta a tal ofício
caminhante de mim e do povo
nem porque tarde
eu traga o coração ao povo
e a garganta finja ser astronave
órbita humana do corpo
e nesse discurso
eu me semeie pela praça
como uma nave desgarrada
à procura de estradas
e assim caminhante
com tal rompante de gente
eu caiba nas ruas do povo
e me abrace naturalmente
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.