Lista de Poemas

Clandestinidade I

no meio desta sala
no espaço entre cada companheiro
o tempo enche-se do futuro
e abarca-se com a mão o mundo inteiro

no meio desta sala
embrulhado nas palavras
o futuro amanhece nas faces
de cada camarada

as léguas desta sala
resumidas a minúsculo vão
engolem a tarefa exata
de ser útero da revolução 

como é bom tanger o mundo
na palma de nossa mão
52

Dos vietnãs da gente

em cada coração
borbulha impunemente
um Vietnã escondido
engavetado na gente

e se sobe à garganta
engasgado na palavra
esse Vietnã não mata
mas frequentemente arma

e em cada cidade
num inventário sem fim
vige uma rosa exata
como herança de Ho Chi Min
49

Das rotinas da vida em memória

nos trilhos
como uma notícia
o trem era o jornal
das novidades da vida

a cidade
navegando a rotina
ansiava pelos gritos
da locomotiva

e os homens
embrulhavam a alegria
quando na madrugada
seus trilhos partiam

o trem era só um tempo
de fingir que o novo havia
54

Poema em urgente lógica

eis o grau
de asfalto e povo
de olhos dentro do chão
e bocas dentro do bolso

joões do vazio
magros apêndices
de grávidas severinas
da paciência

do irrentável ofício
de calar o peito
do calado indício
do direito

do urgente alvitre
de guardar a fome
nas rugas da rua
nas ruas do homem

da chegada hora
de proibir o medo
e esmagar o pranto
pelo vão dos dedos
98

Dos amores itinerantes do tempo

e quando em vez
e já não tarde
resvala meu discurso
pelas estradas da carne
que teu corpo ousa colocar
de encontro ao meu abraço
e que abraço lutando
e nunca me desfaço
do jeito manso de fera
que labuta pelos campos
e que nos lençóis é estrada
com o amor sobre os ombros
70

dos brasis da vida

A terra
de país apenasmente
trai um gesto de pátria
que a geografia lhe consente

e hoje a vida estanca
na nacional monotonia
que faz a manhã ser negra
embora cheia de dia

mas do ventre do país
construído assim a muque
começa um país mais vasto
até enquanto se lute
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Protocolo da rebelião

compra-se um futuro
em bom estado
e por moeda dá-se o punho
revolucionário

compra-se uma vida
em boa marcha
e por moeda dá-se a luta
em urgente prática

compra-se uma paz
por toda a praça
e por moeda dá-se a força
dessa massa
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Espelho diverso em destravado drama

tardo em mim
quando não cedo
às distâncias difíceis
das vias do medo

e tenho-me distante
quando tão perto
ouso discursar de mim
as distâncias que esqueço

e tenho-me tanto
quando tão pouco
deixo de mim o jeito
para ser o outro
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Tecituras da felicidade em humana gestão

tecer a felicidade
é um mister que se aloja
e que se sonha e que se sabe
nalgum meandro da história

não tem a facilidade
dos misteres mais pacatos
que se alojam nos olhos
ou na curva de algum braço

antes possuem a desfaçatez
dos mistérios simplificados
que, quando não são, são urgentes
e quando existem são temporários

podem boiar no espaço
de algum átomo distraído
e podem conter-se nas léguas
de todo um infinito

e repousa latente
nas marcas do exercício
do coração dessa gente
que se presta a tal ofício
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caminhante de mim e do povo

nem porque tarde
eu traga o coração ao povo
e a garganta finja ser astronave
órbita humana do corpo

e nesse discurso
eu me semeie pela praça
como uma nave desgarrada
à procura de estradas 

e assim caminhante
com tal rompante de gente
eu caiba nas ruas do povo
e me abrace naturalmente

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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.