AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3560

Pátria locução em transe e esperança

não!
as manhãs não se cerraram
o povo ainda é o norte
mesmo quando as vozes calam

não!
os sorrisos não murcharam
ao contrário, vigem
é que se fazem tímidos
é que se fazem tristes
na pouquidão humana
dessa noite em riste

não!
os amores não marcharam
de dentro do peito
como uma catapulta
voam pelos soluços, à espreita,
e brotam enormes 
na grande aurora brasileira

99

Cantar do Brasil pela América infinda

cantar o brasil
eis o ofício
afogar-me nas palavras
e repetir o indício
da paz por que se luta
em cada palmo do grito

cantar o brasil
eis o emprego
e mais que cantar compor
as curvas do seu enredo
e lavrar a vida com o povo
e lavar o peito do medo

cantar o brasil
na tarefa mais urgente
de abraçar o povo na praça
e vivê-lo assim latente
no rumo claro e preciso
de levar a vida nos dentes

e tange-lo pela américa
com a força dos sentidos
até que a Pátria Grande
prescinda do seu ofício
75

Carta XIV

meu poema
não se acostuma
a não ser alado
e viver inerte
embrulhado numa página

e se não se alça
em exercícios celestes
permanece impaciente
nas parcimônias do verbo

e animal
despede-se do dia
sem alarde
na incoerência gráfica
e verbal de alguma tarde
55

Dos amores itinerantes do tempo

e quando em vez
e já não tarde
resvala meu discurso
pelas estradas da carne
que teu corpo ousa colocar
de encontro ao meu abraço
e que abraço lutando
e nunca me desfaço
do jeito manso de fera
que labuta pelos campos
e que nos lençóis é estrada
com o amor sobre os ombros
76

dos brasis da vida

A terra
de país apenasmente
trai um gesto de pátria
que a geografia lhe consente

e hoje a vida estanca
na nacional monotonia
que faz a manhã ser negra
embora cheia de dia

mas do ventre do país
construído assim a muque
começa um país mais vasto
até enquanto se lute
84

Das origens em profundo vão com ligeiros arroubos


2000000 de anos
entre mim
e meu macaco
marco
da idade
do meu parto
há aeroplanos
entre meu olho
e meu engano
e asas de pterodáctilos
a somar retinas
nos meus vasos

3000000 de metros
de veias
e estradas
entre o grito do medo
e o grito das harpas
há vozes
encalhadas nos portos
e vezes
encalhadas nos braços
há futuros
em pedras e pontes
e avisos plantados
sobre minha fronte
há vermes
funcionando
destarte a burocracia
do luto
há horas
e momentos
escondidos nas rugas
do pensamento
há miséria e fartura
no campo e nas barrigas
dos irmãos
e das lombrigas
há morte e vida
e facas e feridas
entre o morto
e a sanha do corpo
há distâncias
e, perto, o encontro
há discrepâncias
e a certeza de estar
cada vez sempre
em mudança
há luto
no peito dos finados
pela revolução
em seus gargalos
há susto
nas barrigas gerais
das crianças da pátria
há custos
para que a curva
suba mais nas paredes pintadas
dos edifícios centrais
há cédulas e medulas
sangrando nas marginais
de povoados em escuta
e de morticínios tais
há defloramentos e amores
escorrendo nas vielas
espalhando dores e flores
pelas cancelas
há verdades
espalhadas nas praças
nos olhos da história
nos gritos do povo
há indústrias paradas
e suores trabalhando
há a festa das máquinas
e dos parasitas
na desgraça humana
há tumores e humores
nas mãos da multidão
há versos e música
nos olhos do povo
nas curvas da luta
há milagres
na constância
da humanidade sorrindo
em busca de sua substância.
91

Da palavra em síndrome diversa

as palavras são pombas
desarvoradas voadoras
que enchem a balsa dos ouvidos
e que se estraçalham
pelas fendas do grito
más navegantes
enroscam-se no juízo 
e bocejam na língua
um nó corrediço

e se às vezes fingem
no seu sopro canoro
outras vezes atrasam
o dispêndio das horas

e ainda vigem desatentas
nos atos falhos que explicitam
e murcham no céu da boca
as verdades escondidas 

Palavras são pombas
dos verbos todos da vida
97

Tempos natais em terras de luta

I

as tardes de minha terra
nunca estão distantes
pois se tardes elas ousam
muito mais cedo encontram
com o dia que se descobre
das profundezas do homem

II

e se descansam o tempo
com suas tardes circunstâncias
não escondem dos homens
a necessidade da esperança

III

e se ainda dia parecem noite
o tempo não se descuida
pois arranja sempre um jeito
de forjar o homem na luta
105

Canto à Zona da Mata

as canas são fuzis
de verdes cabeleiras
são imensos gritos rurais
são cordilheiras
onde o homem habita
a fome e as incertezas
e se são meninas
na sua doce aparência
servem de chicote
à pela camponesa 

o canavial
em toda e cada cana
é a soma do suor
do sangue e da chama
que esse povo nutre
com as léguas de seus braços
e que se hoje é privado
amanhã será mais largo

e antes de canavial
essa vegetação é povo
trançado à força da vida
do verde que se faz o novo
106

Poema ao guerrilheiro assassinado

agora
transitoriamente horizontal
nesta química inoperância
não trazes mais que o aval
daqueles que te fizeram substância

nesta geométrica mudança
em que de prumo fizeram-te horizonte
apenas humanizou a tua queda
uma pequena lágrima, uma gota de sangue

subtraíram a vida
como uma infinita soma
onde teu corpo engoliu os anos
e teu povo engoliu as sombras

mas mesmo assim
impreterivelmente indefinido
estarás vivo em qualquer praça
do povo que sonhaste livre

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Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado