AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3604

João Sebastião Bach, camponês de pautas

Bach
bastava-se nas notas
como um camponês errante
nos roçados da pauta
e tangia bemóis
como um astronauta
que tocasse no cosmos
os sinos da alma

João Sebastião
nem percebia
que a música, eterna,
jorrava pelos dias
e jogava-se nos tempos
como ventania

e ao fundo, transitava as mágoas
como um leirão de todos seus roçados
47

Ravel em bemóis de garças esvoaçantes

Ravel
desafia o destino
nas notas que repete
como um labirinto

e desacata o ritmo
com a sofreguidão intacta
de todos os bemóis
que alinhavam sua pauta

e o bolero
ressoa no horizonte
como uma garça introvertida
que tenta, aos poucos, no seu voo
voar todos os ares da vida
40

Do grito em arrazoada messe

eu quero
que o grito
queira ser palavra
no comício

eu quero
que o grito
possa ser palavra
no infinito

e grita-lo sempre
no meio dos sentidos
101

Profissão de fé em rasgo intenso

mesmo que o chicote
corte-me toda a face
eu seguirei cantando
pois não sou um, sou vários
habitam em mim meus irmãos
e tudo que lhes cabe
e não será uma simples morte
que cortará esses meus passos
84

Poema automórfico

onde
minha ruga
saiba ser velhice
da luta

onde 
minha forma
queira ser humana
e lógica

onde minha voz
diga-se comício
na voz e nos braços
os ossos do ofício

e onde minha morte
ouse-se só indício
da necrose geral
dos meus sentidos

e que morto
urgente e sem peso
eu deixe pela vida
a marca dos meus dedos

48

Da morte em circunlóquio

no cadáver
a paz existe
antes da matéria
posta em cabides
que fez-se assim velha
que cansou de ser triste

não dessas tristezas
que se jogam no lixo
mas a tristeza construída
dos ossos do ofício

uma pedra jogada
com rumo inconsciente
e que de paz somente guarda
um ato já ausente
109

Memorando ao trabalho

prezado senhor
ou suor agora
queira tomar meu corpo
como escola

e não me pare
enquanto a vida
correr no meu punho
pelas avenidas

e não me deixe
sobrar do povo
que do suor da luta
constroi o novo
94

desencontro em marcha compassada

em cada ponto
em cada canto
em cada morto
em cada pranto
em cada triste
em cada negro
em cada risco
em cada preso
e cada ponto
e cada canto
e cada morto
e cada pranto
e cada triste
e cada negro
e cada risco
e cada preso
cada ponto
cada canto
cada morto
cada dedo
da triste
do canto
da morte
do medo
há triste
há canto
há morto
há cedos

ao homem cabe inventar
todos os seus enredos
62

Palavras a Fadi Abu Saleh

a pedra
escreve ondas
de quem as ilumina
contra as sombras
e voa, transeunte da paz,
na guerra compulsória
de quem declara a honra
como trajetória
e as pernas da vida
são os passos e a norma
de quem nem as usa
para fazer a história
114

De Pablo e do povo

de Pablo
nota-se urgente
a cor material
da consciência

de Pablo
nota-se o povo
urdido no pincel
cheio do novo

de Pablo
lê-se o corpo
flutuando no quadro
com esforço

do povo
lê-se Pablo
com uma mão na vida
e outra no quadro

do povo
urge Pablo
a preencher lacunas
dentro do quadro

do poema
surgem povo e Pablo
e um poema maior
solto no quadro

do poema
resta a palavra
na testa de Pablo
e do povo em armas

e da morte
restam pó e Pablo
e a assinatura do tempo
viva com o povo no quadro
110

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado