a tecla tem a postura a mecânica e a forma das ditaduras
cada toque estrutura apenas o que máquina atura
urde a palavra invólucro de carne das sensações mais sentidas que o homem arme
e foge dos dedos às palavras mais cruas ungidas no medo dentro da máquina geral dessas ruas
105
De Eldorado dos Carajás em bruta rima
agrária a vida permanece no leito moribundo de suas vestes
a terra assassinada perde seu jeito de ser estrada
até que um dia de repente o povo desarrume tudo que enfrente
142
Do arquivo morto em súbita convalescença
nem tanto os papéis de que te nutres fatalmente fluirá das rugas de teus muros como se fora assim uma nascente
mas, por certo, uma massa informe grávida de humanos argumentos cimentados agora nos ofícios tumulados em teu corpo finalmente
palavras prensadas à força gordas de magros memorandos cravada nas faces dos homens em soluções ainda trafegantes
morrem espremidos na moenda que cada bureau possui em seu estômago e que vomita uma morte oficiosa envelopada em cada memorando
tuas manhãs tardam comprimidas engolidas nas noites burocráticas em que a fome passa a ser vida num simples erro de teus funcionários
94
Poema a José Deodato em calmaria andante
José Deodato era um herói singelo em tudo que não tinha deses heróis modernos que se vendem pela vida que se constroem lépidos
não fazia da anatomia seu ângulo mais externo pela simples razão dos quilos que arrumava no cérebro
e este vasto peso, quilos de sorrisos, caia de sua via no peito de seus amigos
e se algum dia chorou algum pranto fugitivo essa era a forma branda de acalmar os seus sorrisos.
111
das urgências de ser
no útero eis-me futuro no dizer-me feto inconcluso
íntimo eis-me insurgente ávido de parto e de repentes
e digo-me gente simplesmente com o riso nas faces e verbos nos dentes
133
Ode ao paralelepípedo
simplesmente construção de pedra, cal e calma o paralelepípedo não discursa mas arma
e gesto e face de mineral postura o paralelepípedo nem sente sua ditadura
e nem foge dos passos quando posto nas ruas para dirigir os pés de quem em si flutua
o paralelepípedo nem sabe da pretensa modernidade a que se curva
82
Das clandestinas salas da luta em transe
no canto da sala o argumento aflora e a idéia flutua os neurônios e as horas
o silêncio de repente invade os tramites urgentes da clandestinidade
e os homens guardam incertos as ansiosas gargantas de seus verbos
109
Pequena história do meu país
burros de carga, cangas cio do futuro vermelhos mandacarus, réguas de prumo e a noite alinhando-se lenta na esquina transitória da tarde. Quem guardou o tempo no bolso? Dizei, camponês, para que não ardas nessa saudade intensa daquilo que não sabes. Era um dia um menino curvo turvo como sua fome e que tinha num desvão do peito uma semente curva de homem. Brancos acenos, velas de cera e o Amazonas debruçado chora essa noite brasileira. Quem regou os olhos dessas marias para que se desfizessem mansamente nessas léguas de pranto? Dizei, mulher, para que não caibas, assim impunemente, nessa lagoa rígida de sentimento. Travaram o dia com uma noite dentro.
64
Arquitetura do morto
sente-se a carência neste gesto filantrópico de dar-se à inconsciência apesar de todos os ilimites da paciência
e nessa pose imóvel deitado ainda em células sabendo-se desobrigado de todas as idéias
vives a morte inaugural de tua complacência em deixar-se levar, assim imune, da existência
84
Paisagem , Bahia e outros movimentos
Na Ladeira do Quebra Bunda a vida não esmorece pois quanto mais diz-se rua mais descaminho parece
e se guarda algum resquício dos passos de sua gente a fome logo atrapalha as coisas que sempre sentem
e as passadas que engole logo são confiscadas pela vida que engole os passos dos homens e das madrugadas
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.