Lista de Poemas

Da mendicante subtração da vida

no meio do grito
a fome soava a vida
nos decibéis montados
pelas avenidas
e nas ranhuras do tempo
assim como esquecidas
os viventes trançavam
suas desmedidas

e dado às calçadas
como um marco atônito
o homem apenas gritou
a pandemia da fome
111

Do carnaval em pandemia desatada

o Homem da Meia-Noite
pisando os ombros da vida
caminha os passos não dados
navegando pelas esquinas
como se fosse um pedaço
do que restou de Olinda

e o carnaval tão calado
ensaia um frevo dolente
que escorre pelas ruas
como se fora corrente
que navegasse um futuro
de desejos recorrentes

é que o frevo é a memória
que tange esses viventes
88

Regras do vindouro em mansa simetria

no raso da vontade
mergulho fundo
os mares que intrometo
nos ombros de tudo

raras as manhãs
em que me percebo
assim construído
nas àguas do medo

ainda bem que o futuro
é meu eterno brinquedo
60

Alagamar em verbo solto

a terra abraça o sol
na largura exata
de quem mede um futuro
com os palmos da prática

Alagamar acende a chama
de um tempo absurdo
e decreta a liberdade
nos ombros do latifúndio

camponês, o tempo grita
por todos os rincões
as infindáveis emoções
de quem extruma a vida
117

Nos virtuais degraus da vida

a lógica virtual
mede a urgência
como se fora um degrau
da paciência

quântica e translúcida
a energia violenta
como se fora um cabresto
dos campos da consciência

e o homem clonado
esquece a memória
no invisível carrossel
de sua história
71

Das gradações modais da pátria

o homem desce da noite
e incorpora a pátria
como um grito ilógico
de quem se cala

a terra em marcha,
no coração vivente,
é um gesto cívico
de continência recorrente

e a pátria
no meio do tudo,
é só um transeunte
esperando o futuro
73

Futurista intenção da temporal jornada

o amanhã
será tanto
que sobrará futuro
pelos cantos
e o tempo
dir-se-á por todos
como se fora um riso
na boca do povo

o amanhã
será quase um hoje
em que nascerão sementes
do que já nem houve

viver esse amanhã
é senti-lo desde ontem
nas avenças do novo
88

Fracionária feição do tudo

a fração escapa
como um gesto inteiro
de quem não calcula
os meandros do seu jeito

e da matemática
desfaz-se em tangentes
como se fora atalho
das estradas da mente

é que o tudo é fração
de quem é vivente
e nos bordados da vida
nem se pressente
82

Da natureza em descalabro

a natureza
estendida no lucro
desfaz-se humana
no absurdo

como a vida,
tramita o mundo
na incoerência formal
de seu conteúdo

o homem
engole o futuro
nos atos que intromete
em seus discursos
e caminha célere
um tempo de abuso
125

Dos amores em tropeços e construção

o amor nem sempre é tão vasto
que não tropece pelas avenidas
nem nunca seja assim por gasto
que deixe de prender-se à vida
vivê-lo é não apenas sorrir
mas mantê-lo sempre com tal zelo
como a construir-se no ser amado
a extrema aventura de nós mesmos.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.